Roberto, Caetano e Tom Jobim, três caminhos cruzados

Expectativa para encontro de Roberto e Caetano nesta sexta, no Rio, é de um 'show histórico'

Lauro Lisboa Garcia, de O Estado de S. Paulo,

21 de agosto de 2008 | 18h27

A expectativa para o encontro de Roberto Carlos e Caetano Veloso nesta sexta-feira, 22, no Teatro Municipal do Rio, cantando Tom Jobim, é de um "show histórico", que vem até tirando o sono de fãs ansiosos. São Paulo mata a curiosidade na segunda e na terça, no Auditório Ibirapuera, onde as apresentações serão gravadas para um programa de fim de ano da Rede Globo de Televisão e futuro lançamento em DVD. Veja também:Ouça trecho de 'Como Dois e Dois'  Ouça trecho de 'Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos'  Ouça trecho de 'Lígia'   Juntos, eles vão cantar seis músicas, entre elas A Felicidade, Chega de Saudade e Teresa da Praia. Nas performances individuais, cada um se apresenta com sua banda/orquestra e seus respectivos maestros: Jaques Morelenbaum e Eduardo Lages. Dentre os clássicos de Jobim escolhidos por Roberto estão as duas únicas que ele gravou, Lígia e Insensatez, além de Eu Sei Que Vou te Amar. O roteiro de Caetano tem Meditação (que ele também gravou) e Por Toda a Minha Vida. Só "punhalada". "Mais não conto para não estragar a graça da surpresa", diz Felipe Hirsch, que divide o trabalho de direção com Monique Gardenberg. Ambos exaltam o fato de tudo estar fluindo em clima de dedicação e colaboração absolutas "em função de Tom Jobim". "Até fecharmos o projeto, tinha esperança mínima de que Roberto aceitasse cantar um repertório que não fosse dele", diz Monique. "Mas foi ótimo, ele é um doce, como Caetano." Roberto é perfeccionista em detalhes, o que pode dar mais trabalho para a produção, mas o público tem a ganhar com resultados impecáveis. Ele e Caetano fizeram cinco ensaios até esta quinta, quando se encontrariam para mais um. Outros perfeccionistas, como Daniela Thomas e Beto Bruel, cuidam da cenografia (com projeções de imagens da natureza) e da iluminação. Nada, porém, segundo Hirsch e Monique, vai tirar o foco da principal atração do show: a música de Jobim.  Caetano e Roberto já trocaram figurinhas musicais algumas vezes, um cantando música do outro. Ambos também já tiveram o privilégio de cantar ao vivo com Jobim em programas de televisão que foram registrados em CD. Em comum, ambos têm a influência da bossa nova, como quase todo brasileiro que foi jovem no início da década de 1960. A bossa de Tom, Vinicius de Moraes e João Gilberto e a jovem guarda de Roberto Carlos estão na gênese do tropicalismo de Caetano. Cada um representa uma das três correntes mais fortes da canção brasileira daquele período, que dariam, em renovações constantes, no genérico conhecido como MPB. A bossa de Jobim, Vinicius e João, signo máximo de sofisticação da música nacional, diluiu-se no trabalho de Roberto, que viria a se tornar popular ao desviar daquela estética. Apesar de já ter manifestado desejo de gravar um álbum inteiro de canções de Tom e expor sua admiração por ele, Roberto só tem dois registros dele em disco. Um é Lígia, que cantou com o autor num de seus encontros na TV em 1978 e está no CD Duetos, lançado em 2006. O outro é Insensatez, numa versão em espanhol.  Já Caetano, antropofagicamente, deglutiu tudo dizendo não ao não, proibindo o proibir, sem abrir mão da escola joão-jobiniana, que ecoa décadas além em sua obra. A bússola tropicalista, num gira-gira de tempo, transformava e retomava o que era antagônico à bossa, apontando a agulha também para seu antagonista posterior, atando os excessos de Vicente Celestino à "cafonice" do iê-iê-iê de Roberto, Erasmo Carlos, seus agregados e fontes roqueiras. Com a diferença que Caetano, em atitude e nas letras, saía pela tangente da linguagem tatibitate da bossa (peixinhos, barquinho, beijinhos, amor certinho) e do iê-iê-iê (brotinho, Rosinha, namoradinha). Noutras palavras, muito românticos. O depois coroado "Rei da juventude", até virar só Rei, deu os primeiros passos imitando João Gilberto na TV. Seu single de estréia, lançado em 1959, tinha dois temas de bossa nova assinados por Carlos Imperial, João e Maria (parceria com Roberto), e Fora do Tom. Quase meio século depois, em que ele vai homenagear Jobim, a ironia se traveste de maturidade. A letra da canção era um amontoado de referências aos versos mais famosos dos sucessos da bossa nova, hoje clássicos. "Tentei ouvir a voz/ Que existe nesse seu olhar/ E pra beijar alguém/ Os peixinhos fui contar", diz um trecho. Esses versos de Vinicius foram ridicularizados não só por eles, mas por todo não-simpatizante das tardinhas ociosas da zona sul carioca de então. Num dos minidocumentários que estão em exibição na mostra Bossa na Oca, Nelson Motta observa que na época tinha gente que achava aquilo "meio gay". Mas que era inovador, isso ninguém nega. A letra de Fora do Tom provoca ainda mais: "Cheguei, sorri, venci/ Depois chorei com a confusão/ No tom que vocês cantam/ Eu não posso nem falar/ Nem quero imaginar que desafinação/ Se todos fossem iguais a vocês." A ironia é que Roberto agora canta a mesma Chega de Saudade dos peixinhos a nadar no mar. Dentro do tom. Caetano, para quem João Gilberto é a figura "mais importante da música brasileira de todos os tempos", cometeu (ir)reverência parecida, mas com sentido diverso, em Saudosismo, "uma prestação de contas tropicalista para com a bossa nova". "Eu, você, João/ Girando na vitrola sem parar/ E eu fico comovido de lembrar/ O tempo e o som", diz a letra, que ainda ficava mais bela na voz da Gal Costa (herdeira direta do canto de João) de 1968. "Ah! Como era bom/ Mas chega de saudade/ A realidade é que/ Aprendemos com João/ Pra sempre a ser desafinados." No álbum de estréia, Caetano também compôs Paisagem Útil, em contraponto a Inútil Paisagem, de Tom, e fez diversas releituras de clássicos da bossa e composições de João, além de gerar material original (como Coração Vagabundo), influenciado pelo estilo dele. Sabe-se que os laços de Caetano com João e Jobim, além de citações como essas acima, são mais evidentes e firmes. Seu filho mais novo até se chama Tom e ele fez a canção chamada Um Tom, que inclui uma homenagem ao compositor, mas principalmente procura valorizar "o nome dessa entidade musical, dessa instância da música", diz ele no livro O Mundo Não É Chato. O Tom sujeito é "a" entidade musical em si, que Caetano incensa e reinterpreta desde que registrou Por Causa de Você num show de 1976. Só de Eu Sei Que Vou te Amar fez três gravações, a primeira em 1978. "Antonio Carlos Jobim, um dos caras de conversa mais bonita que eu já vi na minha vida", escreveu ele no Pasquim em 1969. "Será que alguém não compreendeu que a bossa nova foi o acontecimento cultural mais importante do Brasil e o único que pôde ir até o fim? Será que ninguém notou que nunca houve nem há nada à altura dos discos que o Tom orquestrou para João Gilberto?", prosseguiu. No fim do mesmo artigo virava a antena para o outro lado: "Chega de saudade (...) Daqui para a frente, tudo vai ser diferente. Por que será que o Roberto Carlos sempre aparece com a música certa?" Embora Caetano tenha recorrido a imagens como "o povo desmaia aos pés de sua jovem guarda industrial", referindo-se a Roberto para defender o legado de João Gilberto, ambos os lados tiveram a ganhar quando se uniram pela autoria de um e a interpretação de outro. Como Dois e Dois (Caetano), gravada em 1971, durante a fase soul de Roberto, é um acepipe. Na mesma bandeja descansa Debaixo dos Caracóis de Seus Cabelos, gravada por Roberto também naquele disco de 71, mas cujo verdadeiro enredo só foi revelado ao grande público nos anos 90. A musa não era nenhuma mulher, mas o próprio Caetano que estava exilado em Londres. A gravação de Caetano está no álbum Circuladô Vivo, em que faz o balanço de um período e inclui no repertório Chega de Saudade (Tom e Vinicius de Moraes). Além de Roberto e Tom, o repertório alinhava Michael Jackson, Bob Dylan, Djavan, Ary Barroso, um tango de Carlos Gardel e um antigo sucesso de Carmen Miranda. Caetano disse que nunca pretendeu ser "o mito que Roberto Carlos é" e sempre o defendeu, desde quando a elite o desprezava nos tempos da jovem guarda. Anos depois chegou a comprar uma briga pública com o Rei por questões político-religiosas. "O telegrama de Roberto Carlos a (o presidente José) Sarney, congratulando-se com este pelo veto a Je Vous Salue, Marie (filme de Godard que fora censurado no Brasil), envergonha nossa classe", escreveu Caetano na Folha de S.Paulo. Hoje sexagenários, o baiano e o capixaba voltaram às boas e o show que estréiam nesta sexta no Rio e chega a São Paulo na segunda deve ser mesmo histórico.

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