Andre Lessa/AE
Andre Lessa/AE

Roberto aterrisa em Cachoeiro no início da tarde

Esta será a sétima apresentação do cantor em sua terra natal desde que saiu da cidade, há 54 anos

Jotabê Medeiros, enviado especial,

19 de abril de 2009 | 13h12

O bom filho à casa torna. Esta noite de domingo, às 20 horas, 14 anos após lotar pela última vez o Estádio do Sumaré (sede do glorioso time Estrela do Norte F.C.), em sua cidade natal, Roberto Carlos retorna à cidade natal, Cachoeiro do Itapemirim, para mais um show dedicado aos seus conterrâneos - e cuja renda será integralmente revertida para uma instituição beneficente. Diz a lenda que Roberto jamais leva dinheiro de seu berço. Um grupo de crianças do Colégio Cristo Rei, onde Roberto estudou, levará um bolo com velinhas ao palco.

Segundo estimativa de um dos mais ferrenhos fãs do 'Rei' na cidade, o comerciante de sapatos José Carlos Scandiani, esta será a sétima apresentação do cantor em sua terra natal desde que saiu da cidade, há 54 anos. Ele cantou duas vezes em praça pública, uma vez no ginásio de esportes local, duas vezes no estádio e uma vez no Cine Teatro Broadway. Scandiani sabe do que está falando. Ele festeja o aniversário do Rei em sua loja, A Princezinha dos Calçados, há 30 anos, e o motivo todo mundo sabe: foi copiando letras das canções de Roberto que ele conseguiu dobrar a resistência de Marinete Malheiros e casar-se com ela. É eternamente grato ao 'Rei'.

Roberto Carlos desembarca hoje às 15h30 em um jatinho particular no modesto aeroporto de Cachoeiro, e fala brevemente à imprensa antes de se hospedar em uma suíte que foi reformada só para acomodá-lo, no Hotel San Karlo, às margens do Itapemirim. Fica na cidade até a tarde de segunda-feira. Tem um jantar marcado com um médico seu amigo, Paulo Ney, e após o show deverá receber no camarim velhos amigos de infância, como a primeira fã, Gercy Volpato; a primeira professora, a irmã Fausta de Jesus Hóstia (codinome de Maria da Conceição Ramos, religiosa da Congregação das Irmãs de Jesus na Eucaristia, fundada em 1917); as professoras de piano Eliane Manhães e Helena Mignone, entre outros personagens do seu passado na cidade. Os 12 mil ingressos para o show já foram vendidos.

Mas, além de cantar em Cachoeiro, Roberto já voltou outras vezes incógnito à cidade. Já veio até para renovar a licença de motorista, há alguns anos. Scandiani, de 54 anos, que decora as paredes de suas lojas com discos de vinil do cantor e mantém na vitrine o rádio marca Nord-Son em que ouvia suas canções na adolescência, conta que só viu o cantor uma vez na vida de perto. E foi da maneira mais inusitada: ele caminhava de madrugada pelas margens do Rio Itapemirim, que corta a cidade, e deu de cara com o ídolo.

"Acho que deu saudade nele. Eu não acreditei no que via e disse a ele: 'Você é o cara, não? E ele deu aquela risadona dele. Eu não incomodei mais porque sei que ele sofre com esse problema de falta de privacidade e nós que gostamos dele devemos preservar o cara, que senão ele não agüenta", diz Scandiani, que ostenta em seu escritório um diploma com a Comenda Roberto Carlos Braga, que lhe foi dada pela Câmara de Vereadores local.

Marinete, a mulher de Scandiani, confirma toda a história do marido e também diz que ele a conquistou com versos furtados do repertório do 'Rei', coisa que o cantor - notório conquistador - aprovaria com louvor. "No começo, eu pensava que os versos eram dele mesmo. Não conhecia as músicas do Roberto. Só depois é que fiquei sabendo, mas aí já era tarde". Ambos têm duas filhas juntos e parecem bem felizes ao som de Roberto. Ela diz que a canção que mais a tocou foi A Distância.

Os admiradores mais antigos de Roberto Carlos mantém uma notável fidelidade ao seu ídolo. Por exemplo: os temas sobre os quais ele não goste que especulem a respeito eles nem sequer tocam no assunto. Roberto perdeu parte de sua perna direita em um acidente em Cachoeiro de Itapemirim, quando tinha apenas 6 anos. Ele estava entre uma turma de escolares que participava de uma parada cívica e separou-se da turma com uma coleguinha. Na época, Cachoeiro era cortada por trilhos de trem, e uma locomotiva manobrava naquele instante. Ao ver Roberto e a colega sobre os trilhos, a professora alarmou-se e gritou, Roberto caiu e a locomotiva passou sobre sua perna, decepando-a.

Passados 52 anos, os trens saíram do centro de Cachoeiro, e parte dos trilhos foram cobertos com asfalto. As linhas férreas viraram avenidas. Mas o desgaste do asfalto fez algumas dessas linhas ressurgirem no Centro da cidade, como é o caso dos trilhos na Avenida Capitão Deslandes, a uma quadra da antiga casa onde nasceu o cantor. Muita gente acredita que ali naquela curva está o local onde o acidente aconteceu, e vem fotografar e ver o lugar, mas é impossível afirmar com certeza.

"A gente não fala muito disso, porque tornou-se natural não falar. O próprio Roberto não deixou que isso não o tornasse amargurado. Em vez de ir em busca da dor, ele foi em busca da música", diz Rogério Franzotti, de 68 anos, que foi colega de escola de Roberto no colégio Cristo Rei.

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