Daryan Dornelles / Divulgação
Daryan Dornelles / Divulgação

Roberta Sá navega na superfície de um canto técnico em novo disco

Ao lançar 'Delírio', cantora não aproveita chances que o repertório lhe dá para deixar de ser apenas bela para se tornar arrebatadora

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

12 Outubro 2015 | 04h00

A calmaria dos sons coloca as vozes em seus devidos lugares. Sem produções maiores que camuflem  emoções artificiais, sem a euforia dos arranjos cheios para envolvê-las, só sobrevivem as que forem de verdade. Roberta Sá chega em um disco de spot ainda mais ajustado na voz do que seu antecessor, 'Segunda Pele', de 2012. Menos urbano,  tudo parece pensado para ressaltar a interpretação, jogá-la à frente. 'Delírio', seu título, é uma falsa pista. Seus sons são bem mais reconfortantes. 

O álbum, quinto de sua carreira de  dez anos, ganha importância por ampliar o repertório de uma cantora que se fortalece e, ao mesmo tempo, colocá-la à prova dentro de canções de saudade em uma atmosfera quase sempre cabo-verdiana, que só trabalha com sentimento em estado puro.

As onze músicas, oito  inéditas, são generosas em letra e melodia. A que abre é 'Meu Novo Ilê', de Quito Ribeiro e Moreno Veloso, uma morna que aponta o passeio que Roberta escolheu com seu produtor, Rodrigo Campello. A ideia do disco veio de uma cantoria em uma caserna de Lisboa, com Antonio Zambujo à mesa e sons de um cavaco português, maior e mais grave do que o brasileiro,  como acompanhante. Os ibéricos sabem levar seus ouvintes para a beira dos mares e fazê-los experimentar o som das ondas, uma sensação presente o tempo todo. Mesmo quando Martinho da Vila vem cantar com ela a inédita 'Amanhã é Sábado', agora o pedido da mulher que chega cansada do trabalho, a mesma  que antes ouvia seu nego  chamando para curá-lo do porre em 'Disritmia'.

'Covardia', de Ataulfo Alves e Mario Lago, traz o samba-canção que no disco virou um belo fado com as vozes divididas para Roberta e o português Antonio Zambujo. 'Se For Pra Mentir' é uma composição de Cezar Mendes e Arnaldo Antunes, um samba a la Chico Buarque que tem como convidado o próprio Chico Buarque na rara condição de apenas intérprete. Roberta acredita que esta seja uma veia subestimada do compositor, em geral visto como cantor das próprias obras mais por necessidade de cantá-las como deseja do que por talento de intérprete. Outro convidado é Xande de Pilares, que termina com um partido alto, 'Boca em Boca', a cor mais alegre do álbum.

A faixa 'Um Só Lugar' é exemplo daquilo que poderia ser melhor com mais entrega  e menos responsabilidade teórica. Roberta divide o tempo com certa dureza, respeitando nota a nota a ponto de não conseguir passear por elas, de não aproveitar as belezas de seus movimentos com mais suavidade.

Sua coleção de atributos já poderia tê-la elevado –  uma cantora com cinco discos nas costas – a um patamar de relevância artística maior, que nada tem a ver com a midiática que todos procuram. Seu bom gosto para repertório é visível, seu produtor é sensível e atento e seu timbre de cristal fica ainda mais seu e menos de um provável simulacro de Gal Costa, mais um, quando canta nas regiões graves (abaixar as tonalidades em algumas canções parece ter sido também uma opção).

Ela tem graça, proximidade, beleza e simpatia que não se compra, mas sua voz chega com um verniz técnico que a impermeabiliza das maiores emoções. As que são sentidas apenas flutuam na superfície funcional do bonito, sem chegar às camadas mais profundas do arrebatador. Claro que pode passar a vida assim e sustentar uma carreira ainda vitoriosa vendendo a média de 20 mil cópias por trabalho, mas seria pouco. Se tem talento para viver uma história em sua plenitude, por que se contentar com a metade? Se pode encher vidas com mais cores, por que cantar na linearidade de uma impostação estudada que a faz dizer o mesmo com 'Me Erra', que ganhou de Adriana Calcanhotto, e 'Última Forma', que regravou de Baden e Paulo Cesar Pinheiro? O que prende Roberta são suas preocupações técnicas. A voz que sai do cérebro a faz bela e lhe dá plateia. Se um dia conseguir chegar à do coração, será um assombro.

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