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Roberta Sá lança novo disco

'Segunda Pele' inclina cantora ainda mais ao pop

Julio Maria - O Estado de S.Paulo,

03 de fevereiro de 2012 | 21h30

O motorista do táxi que conduz o repórter à entrevista com Roberta Sá pelo Rio de Janeiro sabe muito, quase tudo sobre qualquer coisa. Fala bem de Gilberto Gil - que já carregou com satisfação e tietagem do Aeroporto Santos Dumont à Gávea -, lembra de Djavan - apesar de ainda não ter ficado claro se estava de bom ou mau humor - e se diverte com Michel Teló, que aparece no rádio de três em três minutos. Milton Nascimento, Caetano, o mundo parece ter sentado ali no banco arriado de seu Santana amarelo. Quando ouve que Roberta Sá dará uma entrevista ao repórter, seu comentário é "quem?". Roberta Sá. "Roberta Sato?"

Roberta Sá, três discos lançados, carreira em ascensão, parece ter ainda uma chave a virar. O público de seus shows canta tudo, de mãos ao alto, e se comporta como diante de um inquestionável ídolo pop, mas há um campo a conquistar. O quarto álbum, lançado agora, tem pólvora para vencer os últimos fronts.

Segunda Pele inclina Roberta ainda mais ao pop, mas com cuidados, sem fazer mudar seu registro. Sua voz está sólida, seu repertório seguro, quase conceitual. O que dá liga às canções é o fato de serem ‘quase’ inéditas (muitas lançadas em discos independentes pouco ouvidos por aí). Não revisitar standards de música brasileira era uma precondição, achar gente boa que escrevesse letras consistentes era outra. Os arranjos de Rodrigo Campello, músico que a entende desde sua primeira fita demo, antes mesmo de a carreira começar, o fazem uma espécie de coautor - não estranharia seu nome também na capa. Rodrigo cria texturas com sopros e percussão do grupo A Parede dando classe a versos como "todo ébrio é poeta quando olha pra você", de Lua (Mario Seve e Pedro Luis). A voz é valorizada sem que o disco seja minimalista nos acompanhamentos. O som é cheio, vibrante.

O único samba que aparece agora é O Nego e Eu, feita para ela por João Cavalcanti. A regravação que quebra a regra é de Deixa Sangrar, de Caetano Veloso, gravada por Gal Costa em 1971. A versão de Roberta é mais clara, menos raivosa, sem as distorções da guitarra tropicalista na gravação de Gal. E, sobretudo, é um ato de coragem

As comparações de sua voz com a de Gal Costa, que Roberta diz só chegarem por meio de alguns jornalistas que vão entrevistá-la (sim, foi uma indireta), não são descabidas. Mas aqui o cruzamento pode ser entendido como referência e até coincidência, não cópia. O ponto nevrálgico das tais semelhanças está em algumas notas mais agudas, que Gal e Roberta atingem com força e naturalidade. Marisa Monte é outro nome já citado em comparações. "Não me incomoda. Ser comparada a Gal Costa e a Marisa Monte é sinal de que estou bem (risos). São uma grande referência. E digo mais: cantora da minha geração que não ouviu Marisa, que atire a primeira pedra. Existe uma inexplicável negação da influência da Marisa por algumas cantoras, acho uma bobagem."

A essência de Roberta Sá é pop, e seu novo disco reforça isso. E o mérito, seu e de Rodrigo, é de trabalharem essa percepção em um registro classudo, sem maiores facilidades. Isso fica mais claro ao se ouvir Altos e Baixos (Lula e Yuri Queiroga), Pavilhão de Espelhos (Lula Queiroga) ou No Arrebol (Wilson Moreira). A habilidade agora é a de não deixá-la virar cantora de gueto. Público para lotar casas ela tem, só precisa ser conhecida pelos motoristas de táxi.

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