Divulgação
Divulgação

Maestro Robert Levin faz concerto na Sala São Paulo em homenagem a Vladimir Herzog

"O ato de improvisar, para mim, no palco, é algo perigoso – e essa exposição torna tudo mais excitante, para mim e para a plateia"

João Luiz Sampaio, ESPECIAL PARA O ESTADO

14 de agosto de 2015 | 04h00

Pianista, maestro, professor em Harvard, pesquisador especialista na obra de Bach, palestrante convidado de instituições como o Mozarteum de Salzburgo. É o que diz, no papel, o currículo do norte-americano Robert Levin. Mas bastam cinco minutos de conversa para desfazer qualquer ideia de sisudez – ao falar, ele mistura o grande repertório clássico com noções como improvisação, liberdade e humor, além de referências ao jazz e ao blues. E defende um credo muito claro. “A música ganha quando existe um sentido de perigo na interpretação, quando as pessoas sentem uma peça como algo novo.”

Levin e sua mulher, a pianista Ya-Fei Chuang, estão no Brasil onde, neste sábado, 15, se apresentam com a Bachiana Filarmônica na Sala São Paulo. O concerto é uma homenagem ao jornalista Vladimir Herzog, morto pelo regime militar há 40 anos – e Levin se diz particularmente feliz de voltar ao País para uma apresentação “que celebra a importância da democracia”. Ele vai tocar, regido pelo titular do grupo, João Carlos Martins, o Concerto n.º 1 de Mendelssohn; em seguida, rege o Concerto em Sol de Ravel, com solos de Ya-Fei, e o Adágio do Concerto n.º 5 de Beethoven, com Martins ao piano. O programa tem ainda obras de John Williams, com regência de Martins e solos do violinista Guido Santana, de 9 anos.

“Ravel disse certa vez que o Concerto em Sol foi escrito no espírito de Mozart e Saint-Saëns. E Mendelssohn certamente foi bastante influenciado pela escrita mozartiana, o que forma um círculo interessante no programa”, afirma Levin. “Ravel é um dos meus autores preferidos, com o qual tenho enorme afinidade. Há uma leveza, uma sensibilidade, além da riqueza de coloridos. E acredito que isso combina com Mendelssohn. Além disso, compartilhamos a paixão pelo jazz e pelo blues”, diz Ya-Fei, seguida por Levin. “A influência do Gershwin é clara no concerto de Ravel e isso é fascinante. É só ter em mente que ele foi escrito apenas dois anos depois da Rhapsody in Blue.” 

Levin começou a estudar piano ainda na infância – e desde cedo se apaixonou pela música de Bach. “Posso dar uma data exata”, ele brinca. “Eu tinha 10 anos, fevereiro de 1958, e assisti pela televisão a uma conferência do maestro Leonard Bernstein sobre Bach. Ali me viciei na sua música. Fiquei no pé do meu pai para que ele me comprasse uma gravação da Paixão Segundo São Mateus, que não era tão fácil de achar. E, depois, um tio assinou para mim uma coleção de partituras, eram cadernos com a música de Bach que chegavam cinco vezes ao ano. Era como se, de repente, eu tivesse cinco natais por ano.”

O trabalho do intérprete, no entanto, logo se alinhou ao do pesquisador e musicólogo. “Com 15, 16 anos, eu pegava edições de algumas obras e percebia erros sérios na partitura. E eu era apenas um menino, ou seja, eram erros bem evidentes. Mas eu amava aquela música e me importava com ela”, conta. Ele começou, então, a trabalhar em novas edições – e foi além, identificando e completando fragmentos de obras. “Essa pesquisa me pareceu fascinante e acabei mudando o tema da minha tese, abandonando a poesia francesa e mergulhando no conceito de edição criativa.”

Nesse processo, no entanto, foi fundamental também o contato com o célebre professor de regência Hans Swarowsky. “Eu estava com 19 anos, em Viena, e ele me disse: ‘Ouça as gravações que fiz de concertos de Mozart com o Friedrich Gulda, em especial as cadências’”. A cadência é um momento durante o concerto em que o solista toca sozinho: normalmente, o próprio compositor deixa escrita aquela passagem, mas é comum que pianistas ou outros autores criem alternativas, caso, por exemplo, das cadências de Beethoven para os concertos de Mozart. “Gulda não tocava nenhuma cadência já escrita, ele improvisava, ao vivo, uma nova. Ainda hoje, o que ele fazia pode soar ultrajante. Mas fiquei fascinado! Resolvi que também queria fazer aquilo e fui estudar, porque para entender como tocar, ou como improvisar, é preciso saber como um autor compunha, conhecer o seu mundo. Há uma citação que acho maravilhosa: antes de exercer a liberdade, entenda de onde ela vem. O ato de improvisar, para mim, no palco, é algo perigoso – e essa exposição torna tudo mais excitante, para mim e para a plateia.”


Tudo o que sabemos sobre:
Robert Levinmúsicamúsica erudita

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.