Rita Lee faz pic-nic com velhos hits em nova turnê

Em entrevista ao 'Caderno 2', cantora diz que não é saudosista e inclui no roteiro a nova 'Tão', sobre os chatos

Lauro Lisboa Garcia, de O Estado de S. Paulo,

03 de abril de 2008 | 16h44

Rita Lee, que completou 60 anos no réveillon, traz para São Paulo a partir desta sexta-feira, 4, o show Pic-Nic, que estreou no Rio e foi a Belo Horizonte, Brasília e Curitiba. No repertório, uma nova canção, a oportuna Tão - cuja letra, sobre pessoas chatas, bem poderia se aplicar à legião de novas cantoras paulistanas -, que apareceu na série de DVDs Biograffiti. No mais, tem a clássica Ovelha Negra e outra penca de sucessos, que acumulou nestes 40 anos de carreira, muitos em parceria com o marido Roberto de Carvalho, como Lança Perfume, Doce Vampiro, Flagra e outras que não cantava havia tempos, como Vítima, Corre-Corre e Bem me Quer. O pic-nic em família também tem o filho Beto Lee na banda, dividindo guitarra e vocais com os pais. O Caderno 2 reuniu algumas perguntas de seus repórteres para enviar a Rita. A cantora se esquivou de responder diversas delas, para outras repetiu o esperado. Disse também que não pretende mais votar, que baixa "filmes piratas" antes de eles estrearem, que adoraria fazer um dueto com Carmen Miranda "ao vivo" no céu e que se inspira em sua "vidinha besta" para escrever as letras das canções. Abaixo a íntegra da entrevista. Estado: Fazer pic-nic hoje parece fora de cogitação para quem vive nos grandes centros, por circunstâncias que envolvem segurança, falta de espaço, de predisposição para o sossego. Um show com esse título, Pic-Nic, e repertório predominantemente de antigos hits, seus e de outros, é saudosista?  Rita Lee: Não sou saudosista, dessas que ficam dizendo que no meu tempo era melhor. Por outro lado tenho uma bagagem musical de hits e sei que as pessoas adoram ouvir, então não vou ficar tentando ser moderninha e fazer um show eletrônico com um repertório só de músicas inéditas. Estado: Quando saiu Biograffiti você disse que talvez as canções inéditas (como Tão e Dinheiro, que estão no novo show) ficassem só como bônus dos DVDs. Agora diz que estão prontas para serem gravadas. Quantas mais tem concluídas para fazer um CD? E como vai ser: "meio bossa-nova-e-rock'n'roll", mais "novela" ou mais "cinema", já que uma é "amor" e o outro é "sexo"? Rita: O que Roberto e eu mais gostamos de fazer em música é compor, temos várias em estado tosco pré-arranjadas, mas já com um pé no nosso estúdio caseiro ainda sem data para lançar. No Pic-Nic vamos apresentar apenas a punka Tão que no Biograffiti estava ainda no berçário e agora está toda arranjadinha. Estado: Além de "pessoas chatas" e dinheiro, que temas te interessam hoje para explorar em letras de canções? Rita: Eu e minha vidinha besta. Estado: Quem você acha que mereceria umas alfinetadas se fizesse Arrombou a Festa 3 ou Arrombou o Cofre 2 hoje? Por que? Rita: De três em três anos atualizo a letra, a última se chamava Arrombou a Mídia... Um dia te mostro. Estado: Marta Suplicy está subindo nas pesquisas como candidata à Prefeitura da cidade outra vez. Seu voto é dela de novo? Por que? Rita: Não pretendo mais votar, chega de voto obrigatório, respeitem meus cabelos brancos pintados de vermelho. Estado: O prefeito Kassab mandou limpar a cidade e ficamos livres de muita poluição visual provocada pela publicidade. Em contrapartida hoje cada vez mais as casas de shows, cinemas etc. levam nomes de patrocinadores. Nos ambientes internos piorou a invasão de propaganda. Eis que a casa onde você vai se apresentar perdeu o poético nome de Tom Brasil para isso que está aí, o Cinearte ficou com cara de palha(de)aço. Caetano diz que não é obrigado a acompanhar as constantes mudanças de nomes das casas e continua chamando o Palace de Palace. Você como cidadã paulistana (e também carioca agora), que sempre defendeu o bem-estar humano e dos bichos, o que acha dessa situação? Rita: Meu, é raríssimo eu sair de casa para assistir um show, nem sabia que o palace mudou de nome. Estado: Você diz que anda reclamona e que isso deve ser da idade, mas que o prazer de trabalhar com música permanece "intacto feito um faraó imortal". Quer dizer que - dentro do espírito da inquietude inerente ao rock - aos 60 anos, bem-resolvida na carreira artística, sem pressão de gravadoras, você tem ímpeto de cometer alguma ousadia em termos musicais que não cometeu antes? Rita: Um trabalho só instrumental, talvez... Estado: Por falar em idade, tem gente que atinge um certo patamar e não tem mais paciência para dar entrevista, porque acha que já disse tudo o que precisava ou devia. Perfeitamente compreensível, mas por outro lado se o artista não faz nada de diferente/interessante, a gente também não tem muito o que perguntar. Você se incomoda, a essa altura da carreira, de "ter de dar uma entrevista" só porque precisa divulgar um show? Rita: Meu, minha grande salvação é dar entrevista por e-mail, sei que alguns colegas seus me acham meio "insupórtabou" por conta disso, mas pensa bem, é muito mais prático para os dois lado, é ou não é? Estado: Há muita gente fazendo música boa no Brasil hoje, mas tem gente que "se acha", sem "estar podendo". São Paulo tem sido pródiga em revelar cantoras caretas e chatas, algumas "filhas de", outras com vozes afinadas, mas sem estilo, sem personalidade e, pior, são um desastre quando arriscam a compor. Mas ainda tem uma ou outra gravadora e parte da mídia criando hype e mimando-as. O que você diria para essas pretendentes a estrelas? Rita: Componham, componham, componham. Estado: Você faz show nos mesmos dias em que dois "dinossauros" do rock, Rod Stewart e Ozzy Osbourne, desembarcam na cidade. O que achava deles na juventude e o que acha hoje? Prefere a faceta cool dos standards de Rod ou está mais para a eterna aura de "príncipe das trevas" de Ozzy? Rita: Rod era ótimo nos Faces e nos primeiros discos-solo, depois virou meio velhinho Viagra. Nunca fui fã do Black Sabbath, parecia teatro de horror infantil. As perguntas da equipe Eliana Silva de Souza: Algumas vezes você disse que não agüentava mais cantar Ovelha Negra. Pelo visto, o tempo a fez mudar de opinião e, enfim, a ovelha negra que não ia mais voltar, voltou pra ficar. O que mais renasceu em você que antes parecia definitivamente abandonado? Rita: O que eu disse foi que não agüentava ouvir uma gravação comigo cantando Ovelha Negra, mas ao vivo ela sempre me deu prazer. Também nunca disse que estava pendurando as chuteiras da Ovelha Negra. O que renasceu em mim foi o encantamento que é trocar fralda e dar banho numa criança, no caso minha neta. Antonio Gonçalves Filho: O disco Tropicália, eleito pela revista Rolling Stone o segundo maior disco brasileiro de todos os tempos, completa 40 anos em maio. Você e os Mutantes participam de três faixas desse disco, sintonizado com a cultura pop internacional e, ao mesmo tempo, dedicado à preservação de idéias defendidas pelos modernistas de 1922, especialmente a da valorização da cultura brasileira. Hoje, vivendo num mundo globalizado, onde o nacionalismo tem gerado tantos equívocos e guerras, como você analisa o movimento tropicalista e as relações do rock, fundamentalmente libertário, com o caráter programático do tropicalismo? Rita: O tropicalismo foi a semente mais genial que foi plantada na minha cabeça, viver aquilo de perto me ensinou a ser o que sou hoje, uma Joana d'Arc sessentona que não tem pudores em desfilar por quaisquer aveninas musicais. Camila Molina: A era do rock é marcada por uma forte ligação entre som e imagem. As artes plásticas a inspiram? Com qual artista brasileiro você acha que sua música tem alguma relação? Rita: Sempre fui fã dos trabalhos de Antonio Peticov que conheço desde adolescente. Jotabê Medeiros: A sra. acredita realmente que o Keith Richards cheirou as cinzas do pai dele? Isso tornaria o rock'n'roll uma atividade literalmente antropófoga ou só vale se for carne crua? Rita: Putz, marquei a mó toca com as cinzas do meu pai, joguei tudo no mar... Carne crua nem pensar, não como cadáveres de animais, mas pratico o auto-canibalismo devorando as peles dos meus dedos. Flavia Guerra: Você certa vez disse que os homens adoram as loucas, mas se casam com as outras. Ainda é assim? Hoje você está mais para as loucas ou para as outras? Ou uma "outra louca"? Rita: Geralmente a esposa, quando não está com dor de cabeça por conta dos deveres do lar, só faz papai e mamãe. Já a louca descaralha o cara. Roberto diz que hoje sou "loucas outras" as quais nunca haverá de desvendar totalmente. Dib Carneiro Neto: Hoje há uma tendência, por modismo ou necessidade de juntar forças, de cantores fazerem shows/CDs com convidados, que nem sempre seguem a mesma linha do anfitrião. Você já cantou com Gal Costa, Elis Regina, João Gilberto, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Cássia Eller, Ney Matogrosso, Zélia Duncan e outros mais. Com quem mais gostaria de dividir o microfone, por mais inusitado que fosse?  Rita: Com Carmen Miranda!!!!! Minha musa já está no céu, quem sabe rola um "ao vivo" quando eu for pra lá também... Mas será que eu vou pro céu? Livia Deodato: O que você sugere num dia de trânsito caótico nesta cidade? Fazer um pic-nic sentada à beira do Rio Tietê ou nas novas calçadas cinzas da Avenida Paulista, que perdeu várias árvores? Quem você convidaria e o que levaria? Rita: Então você está convidada para um pic-nic no Tom Brasil ou na minha casa, caso contrário vamos esquecer o assunto. Etienne Jacintho: Seu programa no GNT foi bastante criticado (pelo menos nos bastidores). Como foi a experiência pra você? Rita: Lhe garanto que quem criticou mais do que todos fui eu. Etienne Jacintho: Tem muita gente que assina TV a cabo na ilusão de que vai assistir a uma programação de melhor qualidade. No começo também tinha a vantagem de não exibirem comerciais, mas hoje eles faturam em cima disso, além da assinatura que o consumidor paga. Dando uma zapeada num domingo você vê que há uma infinidade de variações de concursos tipo American Idol, de música, moda, arquitetura, design. Você como espectadora continua assídua? O que acha da tevê que se faz hoje no Brasil e nos Estados Unidos (que é o que chega aqui)? É fã de algum seriado? Rita: Continuo assistindo às novelas da Globo, telejornais nacionais, CSI Las Vegas, CSI Nova Iorque, CSI Miami, Law and Order, House, Mad Men, Breaking Bad, History Channel, People and Arts, Fox News, CNN, E!, Canal Brasil e vez ou outra baixo filmes piratas antes de estreiar. Aqui. Ubiratan Brasil: Quem você tem ouvido ou diria que vale a pena ouvir hoje no pop brasileiro? Rita: Nada, em casa só ouço música instrumental, da clássica à eletrônica.

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