Rio festeja centenário de Carlos Cachaça

A comemoração do centenário de CarlosCachaça, completado no dia 3, dura o mês inteiro no Rio. Ofundador da Estação Primeira de Mangueira, autor dos melhoresversos da música brasileira (segundo Carlos Drummond de Andrade)e líder comunitário que tirou o samba da marginalidade, é umaunaminidade carioca. Amanhã, a festa ocorre a partir das 19horas, no Teatro Carlos Gomes, com um grande encontro em suahomenagem, e até o dia 1.º haverá exposições e shows em teatrose na quadra da escola."Vai ser um desfile da Mangueira", adianta o diretordo espetáculo de amanhã, Mauro Silveira, que escolheu o palco daPraça Tiradentes para contar a vida e a obra de Carlos Cachaça,como uma grande revista. "Aqui ocorriam as melhores peçasmusicais. Era onde músicos e outros artistas encontravamtrabalho. Toda a comunidade do samba participará dessa granderoda, que terminará com a apresentação dos passistas como nosambódromo." A lista de participações é o próprio catálogo dosamba. Veteranos como Xangô da Mangueira, Nelson Sargento,Wilson Moreira, Hermínio Bello de Carvalho e Luiz Carlos da Vilae a nova geração, como Dorina e Lúcio Samfilippo, cantarãosambas de Cachaça e outros como Monarco e Tantinho da Mangueirao homenagearão com suas músicas. "Mário Lago Filho vai dizerseus poemas", diz Silveira."Ele foi letrista de três grandes sucessos (Alvorada,Quem me Vê Sorrindo e Não Quero mais), sempre com Cartola eocasionalmente com outros compositores, mas sua poesia é poucoconhecida." Na quinta-feira, o show vai para o Centro CulturalCalouste Gulbenkian, também no centro, onde o compositor MoacirLuz mistura suas músicas com as de Carlos Cachaça. Na semanaseguinte, será a vez do cantor Marcos Sacramento, que já dedicoudiscos a Sinhô e outros compositores do teatro de revista. Eleapresenta Não Quero mais e Lacrimário. "Escolhi umamuito conhecida e outra que as pessoas precisam conhecer", dizSacramento. "Assim como Cartola inventou um tipo de melodia,Cachaça modulou os versos."Carlos nasceu Moreira de Castro e virou Cachaça paradiferenciá-lo de dois homônimos que freqüentavam os mesmosbotequins. Apesar do nome, foi um exemplo de líder comunitário,profissional e pai de família. Sua filha, Inês de Castro, lembrabem. "Meu pai nos deixou a lição moral de honestidade e o gostopelo samba", conta. "Ele trabalhou 35 anos na Estrada de FerroCentral do Brasil e ainda encontrava tempo para o samba, aboêmia e para os desfiles da Mangueira." A história da escolase confunde com a de Carlos Cachaça e muitas vezes ele foi oprotagonista.Ele nasceu em 1902, nunca se mudou e viu a comunidadecrescer, criou a escola de samba nos anos 20, com Cartola eSaturnino, pai de dona Neuma, e lutou para tirar o samba damarginalidade e melhorar a vida dos favelados. "Há uma extensacorrespondência dele com o ex-vereador Sérvio Cabral e comoutros políticos, com reivindicações", diz Heloísa Alves, queorganiza mostra a ser inaugurada no sábado, na quadra daMangueira.Heloísa trouxe para a mostra fotos dos primeiros temposda escola, de Carlos Cachaça no morro e documentos pessoais,vídeos em que fala de sua vida e do samba e seis principaisdepoimentos, como o do Museu da Imagem e do Som, no Rio. "Porcausa do trabalho na ferrovia, Carlos Cachaça esteve ausente dedatas importantes. Não assinou a ata de fundação da Mangueiranem participou da histórica gravação de Leopold Stokovsky, de1945, o primeiro registro da voz de Cartola e outros sambistasdo morro", conta Heloísa.

Agencia Estado,

12 de agosto de 2002 | 17h02

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