FILIPE ARAUJO/ESTADÃO
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Ringo Starr: 'Era mágica, tudo nos Beatles saía como mágica!'

Em entrevista ao 'Estadão', o baterista de 80 anos fala de seu novo EP, 'Zoom In', diz que não acredita em biografias, refuta a imagem de 'beatle sortudo' e conta que, ao lado de John, Paul e George, gravava tudo apostando apenas no improviso

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2021 | 10h00

O jornal Washington Post os chamou de “assexuados”. O New York Herald Tribune os repartiu em três: “75% publicidade, 20% corte de cabelo e 5% lamentos alegremente cantados”. E a revista Newsweek fez uma análise mais rigorosa sobre a passagem dos Beatles pelo programa Ed Sullivan Show, em 1964: “Eles são um pesadelo: rígidos, vaidosos e com cabelos cortados como tigela. Musicalmente, quase um desastre: guitarras e bateria golpeando com força uma batida incessante que dispensa ritmos secundários, harmonia e melodia. As letras, pontuadas por gritos de ‘yeah yeah yeah’, são uma catástrofe... E há grandes chances de que vão desaparecer, como prevê com confiança a maioria dos adultos”.

Há mais do que todas as vitórias contadas há seis décadas por trás do sorriso grande e das mãos em eterno sinal de “paz e amor” de Ringo Starr. Afinal, antes, durante e mesmo depois de vencer com os Beatles, ele precisou, silenciosamente, vencer os Beatles. Ao chegar ao estúdio Abbey Road, em Londres, para gravar Love me Do, em 1962, se deparou com outro músico em seu lugar. Andy White passava a George Martin uma segurança que o produtor não via em Ringo. Coube ao baterista resignar-se no pandeiro. 

Historiadores, biógrafos e jornalistas compram e vendem a ideia de que Ringo foi um fantoche nas mãos de John e Paul, reforçando a tese do “beatle sortudo”. Ele mesmo fez confissões ao biógrafo mais íntimo dos Beatles, Hunter Davis, em 1968, reproduzidas em 2020 por outro biógrafo, Michael Seth Starr: “Às vezes, me sinto excluído, sentado lá na bateria, só tocando o que me mandam tocar”. Um desabafo que, fora do contexto, ajudou a criar o mito que ele mesmo desmonta quando diz ao Estadão: “Ainda posso ver os olhos de John arregalados quando toco Come Together pela primeira vez”. 

Sir Ringo Starr, 80 anos, quase não tem mágoas e diz perdoar até o repórter que confessa ter feito, um dia, mau juízo de suas habilidades. “Eu perdoo você, só você.” Ele está leve, feliz, de casaco vermelho e óculos escuros quando aparece em uma sala virtual para dar a entrevista sobre seu novo EP, Zoom In, que será lançado dia 19, e um livro chamado Ringo Rocks: 30 Anos de All Starrs, com as histórias que vive ao lado de sua estelar All Starr Band desde 1989. Aos poucos, acredita, o tempo tem colocado as melhores baterias que criou em seus devidos lugares. 

Como vai, Ringo? Desculpe meu inglês nervoso, não é todo o dia que um beatle aparece aqui na sala de casa.

Ah, claro, sem problemas (risos).

Fiquei imaginando como  alguém que passou a vida cercado por milhares de pessoas grava um EP com vários músicos sem poder vê-los.

É uma longa história. Em 2019, quando terminei de gravar o álbum What’s My Name, eu disse: “Ok, esse será o último disco que farei na vida”. Então, em 2020, veio a pandemia e percebi que poderia nunca mais fazer turnês. Isso nunca aconteceu antes, eu fiquei deprimido. Até que um dia eu pensei: "Vou fazer um EP". Eu amo EPs. Foi nos anos de 1950 e 1960 que saíram as melhores coleções de EPs do mundo, quando eles realmente ganharam projeção. Mas, bem, eu fui para o estúdio iniciar a gravação com meu engenheiro de som e ele me mostrou a canção de um amigo chamada Zoom In. Dias depois, a cantora Diane Warren me mandou outra, Here’s to the Nights. Achei sensacional e começamos a falar em fazer o clipe com muitas pessoas cantando no final. A ideia foi de Diane, na verdae, eu tenho de ser honesto. Comecei a chamar meus amigos, Paul, Joe Walsh, Corinne Bailey Rae, Sheryl Crow, Ben Harper. Nós apenas mandávamos  os arquivos da música e dizíamos: “Façam o que vocês quiserem. Podem cantar em uníssono, explorar a harmonia, dar gritinhos.” E eles fizeram. Corinne está ótima. Lenny Kravitz, o último que colocou voz, está sensacional. Eu adoro aquele final porque é livre, como um bom refrão deve ser. Nada é definido e tudo dá certo.

Depois de mais de 30 anos na estrada com a All Starr Band, você tem um livro com histórias da banda. Então, minha pergunta é: o que a All Starr Band deu a você que os Beatles não deram?

Não, não (faz uma expressão de reprovação). Os Beatles me deram tudo. Eu tive grandes irmãos, grandes amigos, fizemos grandes músicas...

Mais tranquilidade?

A All Starr foi uma experiência muito diferente dos Beatles. Eu nunca havia montado uma banda antes quando comecei a ligar para as pessoas. Eu dizia: “Oi, eu ainda não tenho uma banda, mas você quer tocar comigo?”. Depois de 18 meses de turnê pelo mundo, encerrei a banda e comecei uma nova. E, um tempo depois, encerrei a nova e comecei outra nova. E então, há 12 anos, eu parei de fazer isso e passei a apenas trocar alguns músicos. O guitarrista Steve Lukather, por exemplo, está comigo há nove anos.

Eu devo confessar que estou entre os críticos que acreditaram que você fosse o “beatle sortudo”, um músico não tão bom que, por sorte, tocava na banda em que todos queriam tocar. Queria pedir sinceras desculpas. Basta ouvir músicas com baterias incríveis como Something; Ticket to Ride; Come Together; Get Back; She Said, She Said ou Rain para saber que, mais do que marcar o tempo, você conseguiu integrar células rítmicas ao pensamento melódico das canções. Isso os libertou e impediu que os Beatles ficassem presos à ideia dos tempos e contratempos do rock. Você guarda mágoas das críticas?

Você sabe, nós nunca fomos músicos profissionais, nunca lemos música. Éramos meninos que gostavam de rock, como artistas de rua, que se juntam para tocar e tirar sarro das coisas. Um tempo depois, cada um encontrou sua forma de tocar e eu acabei descobrindo que gostava tanto de segurar o tempo na bateria (ele bate uma mão sobre a outra para marcar o ritmo) quanto de usar a emoção que vinha de dentro para me libertar (faz agora um gesto, como se tocasse uma virada de bateria). Então, entendi que podia tocar com o coração, e não apenas com a mente. É por isso que as pessoas ainda me chamam para gravar. Elas sabem que, para mim, não importa se a canção é minha, sua ou de outro alguém. Faço meu melhor, e nunca vou fazer um solo de bateria enquanto o cantor estiver cantando (risos). Não sei se respondi sua pergunta, mas acho que isso faz sentido.

Posso dizer então a minha teoria?

Pode.

Parece que, depois de tantos anos ouvindo o baixo de Paul, as guitarras de John, os solos de George, as ideias dos vocais, as letras, as melodias, as harmonias e os arranjos, as pessoas passaram a ouvir os detalhes de sua bateria. Era mesmo muita coisa pra se descobrir em apenas 50 anos...

Isso pode ser (risos). Mas eu tenho que agradecer ao Giles Martin (filho do produtor dos Beatles, George Martin, que começou a remasterizar e remixar a discografia da banda para relançá-la a partir de 2006). Foi Giles quem colocou a bateria no lugar correto, onde ela deveria estar, usando o aparato tecnológico recente. E só agora você realmente consegue ouvir o que eu fiz. É curioso. Se você ouvir as primeiras gravações dos Beatles, especialmente as feitas em mono, vai ver que não há graves na bateria. Os técnicos tiraram todos os meus graves e deixaram a bateria soando baixo. Quando o ponteiro do gravador batia no vermelho, eles diziam que tinham de abaixar os tons ou o bumbo. A remasterização digital trouxe mais clareza sobre meu jeito de tocar e, hoje, cada vez mais pessoas dizem isso que você me perguntou: “Poxa, foi ótimo o que você fez, eu nunca tinha ouvido antes”.

Você nos perdoa?

Perdoo você. Só você (risos).

As pessoas escrevem mil coisas, você sabe... Uma delas é que havia sempre alguém, John, Paul ou George Martin, dizendo o que você deveria fazer nas músicas. Você teve mesmo liberdade para criar aquela bateria de Come Together, por exemplo, ou fez apenas o que pediram?

Tudo nos Beatles surgia como mágica, acredite, como mágica! John chegou e tocou Come Together naquele dia (ele canta o riff de guitarra). E, então, eu comecei a tocar a bateria que criei na hora (e canta o riff com a bateria). Eu posso ver agora mesmo os olhos de John arregalados enquanto eu tocava aquilo. Ele dizia. “Uau, o que é isso! O que é isso!” A história dos Beatles é assim: desafiávamos uns aos outros: “Isso é muito legal”, alguém dizia. Ou: “Isso não é tão legal” (risos). Eu adoraria dizer a você que existia um processo mais cuidadoso na construção das músicas, mas tudo era mais imediato. Gravávamos algumas faixas por três ou quatro vezes e, então, descobríamos a melhor dentre elas. O que saía vinha do músico que eu era e dos músicos que eles eram. A única vez em que tivemos de falar sobre alguma coisa foi sobre a minha bateria em uma música e o baixo do Paul em outra. Não queríamos ofender um ao outro, então eu cedia um pouco, ele contornava... Alguém dizia: “George, você fará um solo aqui.” “Ok, ótimo.” “Aqui tem uma virada de bateria.” “Ok, perfeito.” E o curioso é que esses solos se tornavam a canção. Eles eram gravados naquele instante e ficavam para sempre, com uma força de fazer você reconhecer as músicas apenas ao ouvi-los. Isso é lindo. Eu gostaria de dizer a você que as criações eram momentos profundos e significativos e que sentávamos lá por horas para fazê-las, mas não. Na realidade, só dizíamos “1, 2, 3, 4!” e víamos no que dava.

Ringo, o que você pensa sobre biografias? Já leu alguma biografia escrita sobre os Beatles ou sobre sua vida?

Não, nunca li. Muitas pessoas já escreveram biografias sobre mim e eu mesmo fui convidado para escrever a minha própria, uma autobiografia. Disseram que eu só precisaria ler uns quatro ou cinco livros sobre os Beatles para me preparar, mas pensei: “Não, eu não farei isso”. Faço isso nas músicas. Meus momentos com os Beatles estão nas canções, não tenho interesse em escrever.

Mas as biografias não são importantes para história?

Eu acho que não, elas não mudam as coisas. E, sabe, eu gostaria muito de acreditar que tudo o que um cara que nunca me encontrou escreve sobre mim fosse realmente verdade.


Veja o clipe de Here's To The Nights, a música enviada pro Diane Warren para o EP 'Zoon In'

BIOGRAFIA TRAZ ANGÚSTIAS E FRAQUEZAS DE UM BATERISTA SENSÍVEL

Livro de Michael Seth Starr mostra um Ringo inseguro no início e deprimido depois do final da banda 

Apesar de não gostar de biografias, Ringo pode relaxar diante de Ringo – A História do Baterista Mais Famoso do Mundo Antes e Depois dos Beatles, escrita por Michael Seth Starr, biógrafo que, diga-se, não tem nenhum grau de parentesco com Ringo. Feito com muito material já conhecido de outras biografias, sobretudo a primeira, de Hunter Davis, de 1968, o livro repassa a história indo a detalhes curiosos e expandindo outros. Os tempos em que Ringo era considerado o melhor baterista de Liverpool, ainda como integrante da Rory Storm and the Hurricane; o primeiro encontro com os Beatles, que ainda tinham Pete Best com o batera; as primeiras gravações e o não dos executivos da gravadora Decca ao ouvirem uma fita da banda, em 1962.

Caminhos feitos por biógrafos passados são em geral reproduzidos, perpetuando o que há de real e invenção – um problema que não é exclusivo dos Beatles. O estereótipo de Paul, o controlador, é usado na descrição de algumas cenas (algo que o próprio Ringo desmente na entrevista acima). Mas a real demissão sumária e impiedosa de Pete Best, o primeiro baterista, é bem reconstituída.

Ringo foi o beatle que mais apanhou. Vaiado quando entrou na banda – por fãs do Cavern Club que não admitiam outro baterista no lugar de Pete –, sentiu quando George Martin decidiu chamar outro baterista para gravar Love Me Do em seu lugar e quando os amigos saíram em turnê sem ele, deixando-o em Londres com amidalite e faringite. E também por não participar mais das criações das músicas durante o processo de composição do álbum Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band.

A vida pós-Beatles é bem coberta e traz reflexões. Um pouco do estereótipo do “mau baterista” acabou sendo alimentado pelo próprio músico sobretudo em seus discos solo a partir de 1970. Foram poucos os grandes acertos, como Ringo, de 1973, com Photograph e It Don’t Come Easy, e Time Takes Time, de 1992. Em muitos, ele entendeu-se mais como cantor descompromissado do que o baterista dos tempos desafiadores dos Beatles. Fica a ideia de que o que sempre importou mesmo a Ringo Starr foi tão somente e apenas viver. / J.M.

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