Netun Lima/ Divulgação
Netun Lima/ Divulgação

'Rigoletto' explora a impossibilidade do diálogo

Montagem no Palácio das Artes teve no elenco seu ponto alto

João Luiz Sampaio , Especial para O Estado de S. Paulo

07 de novembro de 2014 | 15h32

BELO HORIZONTE - Um bobo da corte, pobre, disforme, mesquinho - e ainda assim capaz do amor mais puro pela filha Gilda; uma jovem inocente e apaixonada, que vê apenas na própria morte a concretização de um amor impossível; um duque libertino, que estupra, mas ama; um assassino de aluguel pautado por um código bastante particular de ética, que tem como cúmplice uma irmã que não hesita em jogar com a vida alheia para proteger aquilo que lhe parece mais importante. São assim as personagens de Rigoletto, de Verdi - figuras ideais para um autor que, no momento em que escreve a ópera, flerta com um novo tipo de teatro musical, com protagonistas cuja humanidade passa pela recusa da divisão entre o bem e o mal.

Sem heróis ou vilões, ou melhor, com a certeza de que eles estão, contraditórios, dentro de todos nós, começaria um novo capítulo na história da ópera. Quase duzentos anos depois, a familiaridade com uma partitura repetida à exaustão e os dramas das personagens por ela retratados, torna difícil dimensionar o tamanho da revolução proposta por Verdi. Por outro lado, no entanto, recriá-las à luz de nossa época parece ser justamente o que torna desafiador e fascinante voltar frequentemente a obras como essa, como fez o Palácio das Artes, em Belo Horizonte, em uma temporada encerrada na semana passada.

Há, de cara, elementos novos na produção do diretor André Heller-Lopes. Ao longo da ópera, por exemplo, a presença de um corpo de baile virginal, todo de branco, sugere, talvez com ironia, um contraste ao tom sombrio que permeia a montagem. Da mesma forma, na cena final, Rigoletto dialoga não com uma Gilda à beira da morte mas, sim, com o espectro da filha que ele, no intuito de salvar, acabara de perder.

São recursos que, com certeza, jogam nova luz sobre a motivação das personagens, ressignificando o que sentem - e o que nos dizem. Mais importante, porém, é a concepção geral que unifica a narrativa. Heller-Lopes estabelece a cena em um palco que evoca o picadeiro de um circo, entendido, talvez, como um microcosmos do espetáculo humano, um espaço no qual se ama, sofre, ri, feito de realidade e farsa. O recurso talvez pudesse ser aplicado a qualquer ópera, mas não deixa de ser interessante o modo como o diretor o adapta à história de Rigoletto. A chave está na última cena da obra, quando todos os integrantes da corte do duque voltam ao palco, para observar, com um sorriso no rosto e a cumplicidade da plateia, o corpo de Gilda. A morte torna-se, ali, não o gesto nobre que preserva um amor incondicional, mas o resultado inútil de um jogo de manipulação. Não há, para nenhum das personagens, redenção possível. E, então, um outro aspecto pouco explorado da obra ganha importância: a ideia de que a afirmação do indivíduo muitas vezes passa pela recusa do diálogo e de que estamos, todos, sós.

Do ponto de vista musical, o que tornou a produção mineira da ópera particularmente feliz foi a escolha do elenco. O Rigoletto de Devid Cecconi é feito da energia do momento - intenso, cresce ao longo das cenas, com impressionante vigor vocal. A Gilda de Gabriella Pace, por sua vez, recusa a todo instante o estereótipo da jovem inocente: é feita de nuances, desejo, frescor vocal. E o Duque de Giovanni Tristacci revelou um intérprete privilegiado, musical, de fraseado elegante, conhecedor em detalhes de texto e música na hora de construir sua personagem. Uma ressalva, no entanto, precisa ser feita à regência do maestro Marcelo Ramos, a quem faltou a percepção de que, em obras como Rigoletto, que transitam entre a tradição e o novo, é preciso abrir mão de certa rigidez para imprimir um ritmo narrativo claro e, ao mesmo tempo, dar liberdade e espaço aos cantores. Por conta disso, o fluxo teatral acabou comprometido, em especial em cenas como o dueto entre Gilda e Rigoletto ou a ária Cortiggiani, vil razza dannatta.

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