Richard Galliano mostra projeto Tangaria no Ibirapuera

Toda a carga de dramaticidade, tensão, melancolia, virtuosismo e celebração da escola francesa de acordeão desembarca hoje no Ibirapuera a bordo do instrumento de Richard Galliano, de 54 anos, o Sivuca dos nossos irmãos gauleses. Ele, que já assombrou o público de São Paulo no antigo festival Chivas Jazz, nesta sexta-feira mostra seu projeto Tangaria, que conta com a adesão de um brasileiro, o bandolinista Hamilton de Holanda. Além dele, haverá participações de Yamandú Costa e Beth Carvalho (que Galliano conheceu na quadra da escola Beija-Flor).Richard Galliano, que já veio ao Brasil, a primeira vez em 2004, é um dos maiores instrumentistas franceses da atualidade. Começou a tocar acordeão aos 4 anos e ganhou seu primeiro concurso em 1966. No ano seguinte, ouviu um histórico concerto que reunia o trompetista Clifford Brown e o baterista Max Roach e engajou-se na big band de Claude Nougaro. Depois, gravaria e tocaria com Chet Baker, Ron Carter, Toots Thielemans, Joe Zawinul e outros.Seu repertório inclui dos duelistas de Piazzolla, os ritos de sangue portenhos, à suavidade do jazz da Costa Leste. ´Sempre toco Libertango, é meu solo mais forte. É uma composição mediterrânea, rápida, que permite, como o jazz, a improvisação. É mágico. Tem muita energia e sempre causa grande impacto no público, fala para todos os públicos.´´Um dia, Sivuca me disse: é uma coisa louca, parece que toda minha energia vem de Luiz Gonzaga´, contou Galliano, neto de italianos da região de Ancona, onde está justamente a fábrica Castelfidardo, que produz os acordeões Scandalli, um dos melhores do mundo. Ele ainda não é íntimo de Luiz Gonzaga, embora toque um intro de Asa Branca durante seus concertos: é mais amigo de Dominguinhos, um dos seus acordeonistas preferidos no mundo.´Ouço muito Art Van Damme, quase todo dia. As pessoas que gosto são de diversas escolas. Dominguinhos tem um suingue todo especial, seu gestual é próximo do da nossa escola. Também costumo ouvi-lo muito.´Galliano comentou o trecho de sua conhecida biografia que diz que sua vida musical mudou completamente quando ele ouviu Clifford Brown (1930-1956). Mas por que um trompetista, e não um acordeonista?´De fato, a primeira coisa que ouvi foi o jazz. Me tocou profundamente. Até hoje, escuto trompetistas, mas também diversos outros instrumentistas: Coltrane, Freddy Hubbard, Miles Davis, Frank Rossolino. Gosto da energia, da respiração desse tipo de música. São como guias para mim.´Ele achou divertida, mas discordou da citação clássica do escritor Ambrose Bierce (1842-1918) sobre o acordeão. Bierce disse que era ´um instrumento com os sentimentos de um assassino´.´Honestamente, não sei o que isso quer dizer. É próprio de todo instrumento ter a capacidade de ser manejado como uma arma, não é uma característica em si mesma. É como um avião que se pilota. A simplicidade, a humanidade, tudo isso depende da qualidade do intérprete. Você pega o jazz de Herbie Hancock, por exemplo, que é profundamente bom, relax, profundo e tranqüilo ao mesmo tempo.´Galliano conta que se aproximou da música de Hamilton de Holanda (que Hermeto Pascoal chama de ´o maior bandolinista do mundo´) por intermédio do seu violonista, Alexis Cardenas. Foi então que o convidou para integrar seu quarteto Tangaria, que toca nesta sexta-feira em São Paulo.´Amo a música brasileira, sempre gostei de Tom Jobim, Sivuca, Dominguinhos. Gostaria de ver uma abordagem da música francesa tradicional por músicos brasileiros. Cada acordeonista carrega a sua cultura no jeito de tocar, e eu gostaria muito de ver como os brasileiros interpretariam nossa tradição´, diz.Ele falou também sobre seu disco com um quarteto americano, Ruby My Dear (Dreyfuss Records), gravado em agosto do ano passado com Clarence Penn (bateria), Larry Grenadier (baixo, o homem que ladeia Brad Mehldau), interpretando músicas de Thelonious Monk, Oscar Pettiford, Erik Satie e Carlos Almaran Eleta. Ele disse que Larry Grenadier é de fato um músico raro, e versátil: além de integrar o trio de Mehldau, toca com Pat Metheny, John Scofield, Kurt Rosenwinkel.O álbum "Ruby My Dear" foi dedicado à escritora Françoise Sagan (1935-2004), a autora de Bom Dia Tristeza. ´Seu toque frágil e emocional é muito similar à minha música, e o jeito que eu toco´, disse o artista. O músico conta que se prepara agora para gravar um disco de musette, uma variação do gênero jazzístico na França que foi popular nos anos 20 e 30. Richard Galliano. Auditório Ibirapuera (800 lug.). Av. Pedro Álvares Cabral, s/n.º, Parque do Ibirapuera. 5908-4299. Hoje a dom., 20h30. R$ 30

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