Revelação do piano se apresenta com Osesp

Não havia músicos na família, os pais não tinham dinheiro para comprar um piano e os amigos da escola falavam sobre Nirvana e Britney Spears. Mesmo com tudo jogando contra o destino de pianista que resolveu traçar para si mesmo quando ainda nem sabia escrever, Pablo Rossi, aos 13 anos, vive dias de astro da música erudita. Em seus quase 30 anos de história, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) nunca havia dado espaço a instrumentista tão jovem. Uma rápida apresentação que o garoto fez no Festival de Música de Campos do Jordão, no ano passado, foi suficiente para deixar atônitos os maestros da Osesp John Neschling e Roberto Minczuk, que lhe abriram as portas da sinfônica. Uma temporada que teve início na noite de ontem e prossegue de amanhã até o próximo sábado, na Sala São Paulo, terá Rossi como convidado especial da Osesp, que será regida pelo rigoroso Minczuk. Ele executará a peça Capriccio Brilhante em Si Menor, de Felix Mendelssohn-Bartholdy. Ser conduzido pela Osesp é mais uma proeza que vai para o currículo de Pablo Rossi. Ao tentar contar os concursos de piano que venceu, ele se perde no tempo. Frescos na memória estão o de Córdoba, na Argentina, o Magda Tagliaferro, em São Paulo, e um recém-conquistado festival internacional de pianistas, realizado recentemente na Espanha. O melhor de sua história não está nos troféus. Filho de uma família classe média de Florianópolis, Santa Catarina, sua projeção implode a idéia de que música erudita é consumida apenas pela elite. Rossi nunca teve facilidades. Os estudos de música só são possíveis graças a uma bolsa que conseguiu no colégio em que cursa a 7ª série do ensino médio. "Seria impossível pagar. O valor das mensalidades é muito mais do que o salário do meu marido", conta a mãe Elizeth Rossi, professora aposentada. Foi um desespero quando o menino, aos seis anos, disse que queria um piano. Ela não entendeu nada. Piano em casa, pensava, era mania de rico. O pai, professor de espanhol, sempre ouviu música clássica mas nunca pensou que poderia ter um herdeiro instrumentista. A explicação que dá a mãe para o despertar artístico do filho é caso para estudiosos. "Eu colocava música clássica para ele ouvir desde a gravidez. E até hoje ele só dorme ouvindo isso." O primeiro instrumento veio a duras penas. Enquanto os pais faziam suas economias para colocar um piano em casa, o garoto treinava em uma folha de papel com notas brancas e pretas desenhadas. Depois de muito pechinchar em lojas, os Rossi encontraram finalmente um piano de armário, aquele sem cauda, por pouco mais de R$ 3 mil. Dividiram o valor em dez prestações em um sistema de consórcio e logo foram sorteados. Pablo Rossi aprendeu a ler música antes mesmo de saber escrever o nome. Por isso, as academias e os conservatórios não o aceitavam como aluno. Sem se importar, passou a estudar em casa obedecendo a uma disciplina rígida que estabeleceu para si mesmo e que a própria mãe, por vezes, luta para quebrar. "Eu tenho de falar para ele parar de tocar e não perder a hora do cinema, por exemplo." Quando começou a ter aulas particulares, hoje ministradas pela russa Olga Kiun, chorava porque queria que durassem mais tempo. Em uma época mais crítica da família, quando o pai passou um tempo desempregado, o garoto foi a uma rede de televisão de Florianópolis fazer um apelo às autoridades e empresários do estado. Já começara a se destacar em concursos e os convites para se apresentar em outros países estavam aparecendo. Mas sem patrocínio não sairia de Florianópolis nem por milagre. Os pedidos deram certo. Seu colégio providenciou a bolsa de estudos e o Governo de Santa Catarina bancou as viagens para o exterior. "Ainda é uma luta. Sempre que ele tem de ir para fora do País começamos uma via-crucis em busca de recursos", diz a mãe. Pablo Rossi não passa noites em claro decorando partituras. Dois minutos de conversa com um desconhecido e já se abre em sorrisos. Gosta de futebol, assiste à novela das oito e pratica natação para corrigir a coluna. Só mantém distância do rádio. "O que ouço mais é música erudita. Meus amigos gostam de rock, samba e pop. Mas não conheço muito essas coisas." A respeito do que conhece bem, prefere sair-se com cautela. "Sou muito novo para dizer de que compositor erudito mais gosto. Eu teria de tocar a obra de muitos outros para responder isso." Quando está ao piano, é como se flutuasse. Seu corpo, em transe com a melodia, se contorce e os pés dançam. Os dedos curtos parecem que não vão alcançar notas mais distantes. Na platéia, a mãe segura o rosto com as duas mãos e sente a taquicardia nas passagens mais intrincadas. "Eu quase morro quando ele faz isso", suspirou ela no final de um ensaio com a Osesp, na manhã de ontem. No palco, não existem problemas para Pablo Rossi. "Quando toco esqueço onde estou. Não vejo nada nem ninguém que está a meu lado."

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