Mariana Garcia
Mariana Garcia

Retrospectiva 2018 Erudita: Boas notícias, más notícias, notícias velhas 

Uma boa safra de álbuns, o lançamento de um projeto ambicioso pelo Itamaraty e uma indefinição indigesta com relação à gestão do Teatro Municipal

João Luis Sampaio, Especial para o Estado

31 de dezembro de 2018 | 06h00

A Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo abriu 2018 com a conclusão da primeira gravação completa por uma orquestra brasileiras das sinfonias de Villa-Lobos, com Isaac Karabtchevsky e a equipe de musicólogos da Fundação Osesp oferecendo leituras de referência das obras e, fundamental, novas e profissionais edições das partituras.

Na mesma linha, o Itamaraty lançou o projeto Brasil em Concerto, com a gravação de 30 CDs de obras de autores brasileiros, pela Osesp e por outras duas orquestras sem as quais não dá para pensar hoje o cenário nacional: a Filarmônica de Minas Gerais, comandada por Fabio Mechetti, e a Filarmônica de Goiás, com Neil Thomson, que já iniciou a gravação da integral das sinfonias de Claudio Santoro, cujo centenário será celebrado em 2019. Também faz parte do projeto a Academia Brasileira de Música, presidida por João Guilherme Ripper.

Falando em CDs, há a série completa das 'Cartas Celestes', de Almeida Prado, por Aleyson Scopel; as obras para trio para piano, violoncelo e violino de Gnatalli pelo Trio Puelli; as 'Valsas brasileiras' de Mignone com Edelton Gloeden; a América redescoberta pelo violonista Fabio Zanon; as 'Imagens do Brasil' recolhidas pela pianista Erika Ribeiro e a violinista Francesca Anderegg; a investigação do repertório para violino e voz, com Manuela Freua e Emmanuele Baldini, com direito a encomendas de obra  – prática que no trabalho de jovens instrumentistas tem se tornado cada vez mais frequente.

Nas "temporadas internacionais", houve Jonathan Nott, Yuja Wang, Filarmônica de Dresden, Anna Netrebko, Jan Lisiecki. A lista ostentação de sempre, fundamental. Mas é importante também que o Mozarteum siga com seus trabalhos pedagógicos. E que a Cultura Artística esteja reforçando um papel que já foi seu historicamente, filiando-se a projetos como a Camerata Aberta, que ajudou a ressuscitar em 2018, os Músicos de Capella (com Luis Otávio Santos) ou o Festival Ilumina, exemplo, ao lado do Encontro Campestre de Violas ou do Seconde, de projetos pedagógicos de tom mais humanista, em que a música como fruto do diálogo é ponto de partida e não apenas consequência ou, pior, discurso. Com outra história e proporção, o Festival de Inverno de Campos do Jordão atingiu mais uma vez, com sua orquestra de bolsistas, resultados memoráveis, mas articulou abertamente a ideia de que o festival de Campos funciona melhor em São Paulo. Em 2019, o evento completa 50 anos – talvez seja o caso de refletir à luz dessa narrativa curiosa seu futuro.

A questão da formação é importante. Os festivais fazem seu trabalho, projetos como a Emesp, o Instituto Baccarelli ou o Neojiba estabelecem suas diretrizes próprias, eventos como o Festival Sesc de Música de Câmara apontam caminhos e alternativas. Mas a soma de tudo isso é uma nova geração de músicos extremamente bem preparados tecnicamente, mas que em um cenário de cortes de verbas e reduções estão com toda razão preocupados com o seu futuro. Formar um músico hoje talvez signifique investir também na preparação de profissionais que consigam enxergar novos mercados, novas possibilidades de atuação, novos campos e espaços a serem desbravados, distantes dos passos muitas vezes lentos e amarrados das grandes instituições. Mas, em um meio musical como o nosso, em que historicamente toda a verba pública e privada ronda em torno dessas instituições, públicas por sinal, será que não caberia a elas ajudar essa nova geração nesse processo de descoberta e reinvenção do cenário, abrindo seus espaços, possibilitando com suas estruturas alguns primeiros passos? Justo, estão todas elas preocupadas com sua própria sobrevivência. Mas seria loucura imaginar que o diálogo com novas gerações (e não a imposição de modelos) em busca de ideias novas poderia ser benéfico também para todos.

Ópera. Em Manaus, o Festival Amazonas começou a retomar a velha forma, com cinco títulos, e um Fausto de enorme qualidade (Luiz Malheiro/Heller-Lopes). De lá também partiu um movimento importante, com a produtora Flávia Furtado encabeçando uma discussão sobre a ópera à luz da economia criativa, tentando mostrar como o gênero se insere em uma cadeia de produção muito maior do que normalmente se imagina.

Em Belém, o Festival do Theatro da Paz lutou bravamente apesar da redução de verbas, com 'Um baile de Máscaras', de Verdi (Mauro Wrona/Campos Neto). Em São Paulo, o Teatro São Pedro ofereceu uma temporada consistente, diversificada, em que Alcina, de Händel (Otavio Santos/William Pereira), Katia Kabanova, de Janácek (Ira Levin/Heller-Lopes) e Sonho de uma noite de verão, de Britten (Claudio Cruz/Jorge Takla), foram destaques. No Rio Municipal virou símbolo do abandono da cultura na cidade: um ilusório ano de nove óperas foi anunciado pelo governo e pela direção da casa, mas se liquefez, reduzindo-se a uma produção.

Em São Paulo, a situação artística é melhor. O Municipal produziu quatro títulos: uma Traviata, de Verdi, de referência (Takla/Roberto Minczuk), para ficar anos no repertório (se isso existisse por aqui); um Cavaleiro da Rosa, de Strauss (Pablo Maritano/Minczuk), e um Pelléas e Mélisande, de Debussy (Iacov Hillel/Alessandro Sangiorgi) desiguais e uma Turandot entre onírico e o real para encerrar o ano (Heller-Lopes/Minczuk).

A notícia amarga diz respeito ao imbróglio em que o teatro entra em 2019, sem temporada anunciada e sem que saibamos quem será responsável por ele, com uma confusão de atribuições e uma ingerência do poder público que já se mostraram pouco produtivas. Não é a primeira vez - e, enquanto o modelo de gestão não for repensado, não será a última.

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