Réquiem a Itamar Assumpção

O cemitério Jardim da Colina, em São Bernardo do Campo, é a única área verde num lugar populosíssimo. A colina é uma elevação de uns talvez 200 metros, onde estão centenas, milhares de casas de alvenaria - o que se convencionou chamar de favela. O cemitério, sem tumbas, gramado, é certamente a única vista a amenizar a vida tanto na Favela Parque São Bernardo, a da colina, como a da Favela Itatiba, do lado oeste do cemitério. Na última sexta, 13, Itamar Assumpção foi enterrado lá. A piada nas redações quando da sua morte, na noite anterior, era que o compositor paulista era maldito até na hora da morte: uma (quase) sexta 13. Eu prefiro pensar no dia de Santo Antônio - ou no aniversário da minha mãe.Santo, ao que consta, estava longe de ser. Era temperamental, brigava com todo mundo, começava discos e abandonava no meio - alguém, por favor, pergunte a Naná Vasconcelos, seu último não-parceiro; não foi diferente, parece, em relação à doença - mesmo tendo batido na trave e ficado meses entre o Hospital das Clínicas e o do Câncer, manteve hábitos nada saudáveis, para dizer o mínimo. Era, quem sabe, uma última aleivosia contra o mundo; Itamar não parecia querer exercer sentimentos pios como a tolerância, o perdão ou a paciência. A seu favor, digo que, quando conversamos, uma única vez, para uma reportagem e uma seção fotográfica sobre ônibus urbanos, ficou comigo por horas - e, mesmo sendo usuário principalmente de metrô, não se furtou a entrar e sair de coletivos da Amador Bueno da Veiga. Nesse dia contou uma história completamente inverossímil sobre ter sido agredido perto da praça da Sé - quando eu, idiota, pedia dados objetivos, Itamar não respondia.Foi, com certeza, um dos maiores compositores da história da MPB pós-tropicalista (a expressão me constrange um pouco), a despeito - ou em razão disso - de sua recusa às grandes massas. Alguns obituários vão dizer o contrário: que as massas é que não o queriam, mas é inegável que Itamar fazia desse antimarketing, marketing. Sua poética, biográfica, se misturava com isso. Não só o ?apaguei um no Paraná?, ou o ?ainda por cima lotação? e tantas outras, como a canção, recente, que fazia troça de suas muitas operações no HC. Mas era bom, bom demais nisso, um poeta abençoado pela capacidade de fazer de hai-kais a crônicas intermináveis em métrica perfeita. E quando intérprete, ?vestia? o autor com autoria - é o que se espera de um intérprete, não? Confira o ?Filho de Santa Maria?, do velho amigo Paulo Leminski, do disco ?Intercontinental?, ou, claro, o ?Na Cadência do Samba?, de Ataulfo Alves, com a qual abria os shows (coisas como Espaço Raísa, Mambembe etc.) da época em que fez um disco todo dedicado ao homem de Miraí.Por essa época, exultava: descobrira um compositor também brilhante, também preto e pobre, também de uma cidade do interior.Quando morreu, Itamar não morreu no meio de uma roda de bamba; sobre a pequenina lápide não havia vela, mas dois apressados arranjos de flores, e o choro era bem contido. As três dúzias de amigos e conhecidos que ali estavam às vezes sorriam e contavam piadas, como a dar o aval final a uma situação há muito esperada. Ele vai levar saudade da Maria, também saudade da Aurora, e deixar, isso se saberá mais tarde - a obra discográfica mais revelante da música brasileira dos anos 80 e 90.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.