Repertório da apresentação não foi escolhido por acaso

Para a apresentação que vai fazer em São Paulo, o pianista Nélson Freire escolheu um programa bastante variado. Ele ressalta, porém, que em suas apresentações nenhuma peça é incluída despropositadamente. "Meus programas não são feitos por acaso, obedecem a uma certa lógica", explica Freire. Neste caso, o fator de união está na presença de Bach: o pianista abre e encerra o concerto com obras do compositor alemão.Freire começa com uma transcrição para piano do Prelúdio Para Órgão em Sol Menor, feito por Alexander Siloti. "Trata-se de uma belíssima transcrição." Para encerrar uma versão para piano do coro "Jesus, Alegria dos Homens", adaptada por Myra Hess. "Quando ela fez esse trabalho, a peça tornou-se hit mundial."De Schumann, o pianista interpreta Arabesque e Fantasia em Dó Maior. "Schumann é, provavelmente, o compositor que mais me comove." Mais uma vez, a escolha dessas peças específicas não segue o acaso. "Gosto muito de tocar a Fantasia após a Arabesque, pois elas representam um contraste: a Arabesque soa como uma carícia de brisa primaveril ao passo que a Fantasia traduz um grito de paixão sendo uma das mais importantes peças do repertório romântico."Chopin também está presente, com obras dos seus três últimos anos de vida: as 3 Mazurcas e o Scherzo em Mi Maior. "Escolhi as 3 Mazurcas pois elas formam um todo de lirismo e são extremamente requintadas, cada uma com seu caráter singular." Já o Scherzo, o último de uma série de quatro, foi escolhido por ser o preferido do pianista. "Durante muito tempo ele foi o menos popular dos quatro mas, leve e alegre, é o que mais se aproxima da designação do título e a melodia da parte central é uma das mais belas do compositor."Também de Chopin está no programa Barcarola. "Esta peça é uma das mais sofisticadas e inspiradas de Chopin, de uma riqueza harmônica além de seu tempo: encontra-se, por exemplo, na coda de um acorde que vai aparecer bem mais tarde, em composições de Ravel."Inédita - A peça Fledermaus, de Godowsky, que, apesar de fazer parte do repertório do pianista desde a década de 80, nunca foi interpretada por Freire em São Paulo, vem em seguida. "É dificílima, com suas vozes entremeadas dando a impressão não de duas, mas de três ou quatro mãos tocando simultaneamente e a interpretação tem de ser elegante e fluir como água."Brasil - O programa é composto, também, de uma grande quantidade de peças de compositores brasileiros, algumas das "pequenas jóias" que ele pretende, um dia, gravar. A primeira é Minha Terra, de Barroso Netto. "É uma peça bastante sutil em harmonias e ritmicamente tão brasileira, sem, no entanto, apelar para o óbvio."Em seguida, de Camargo Guarnieri, Freire interpreta Toccata. "É uma verdadeira obra-prima e, talvez por ser tão difícil, é raramente tocada." A dificuldade, em sua opinião, está na sutilidade. "Basta olhar para a indicação que o compositor faz na partitura: picante ma con garbo." A peça foi dedicada pelo compositor à pianista Guiomar Novaes. "Ela é claramente inspirada na personalidade de Guiomar."E, como não poderia faltar, as últimas peças brasileiras do concerto são de Villa-Lobos: Alma Brasileira e As Três Marias. "Esta peça é uma jóia, fugaz como as estrelas em que se baseou."

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