Renato Braz une pontas da MPB

O cantor Renato Braz conseguiu, nasegunda-feira, unir pontas esfiapadas da música popularbrasileira. Levou ao palco da Tom Brasil - não tocando juntos,mas no mesmo palco, depois de décadas - dois vencedores defestivais dos anos 60, apresentou canções de seus contemporâneos, cantou música caipira e samba-enredo, samba de quadra e toadaurbana.Renato foi o vencedor da segunda edição vocal do PrêmioVisa de MPB. Pela vitória, ganhou prêmio em dinheiro e aprodução de um disco. O show de segunda-feira marcou olançamento de Quixote (Gravadora Eldorado), seu quarto CD.Teve como convidados especiais Dori Caymmi (primeirolugar no Festival Internacional da Canção de 1966, comSaveiros, parceria com Nelson Motta) e Théo de Barros (queno mesmo ano ganhou o Festival da Record, com Disparada,música dele e letra de Geraldo Vandré).Cantou Zeca Baleiro e Mário Gil, autores revelados nadécada de 90, fios de um novelo musical de lento desenrolar:compositores que, como também Renato Braz, conseguiram algumreconhecimento depois dos 30 anos de idade, depois de passar porinúmeros pequenos (e importantíssimos) festivais desses que sãorealizados anualmente, País afora, depois de consolidarlinguagem, formar público (pequeno e significativo) e poder, porteimosia e persistência, impor seus sotaques.São diferentes. O maranhense Zeca Baleiro tende ao pop,que combina com a memória (musical e poética) da rica cultura daterra natal; o universo de Mário Gil faz ponte de São Paulo eMinas para o mar, um ponto-de-fuga traduzido em delicadas toadas, em sambas de tambor, em cantigas com sabor de roda.Que outro intérprete estaria tão à vontade com tal diversidade?Renato Braz é o maior cantor de sua geração. A voz é metálica,lisa, aguda. A interpretação é doce, delicada, nuncaesparramada. Renato não dá bola para modismos, o que leva algunsde seus fãs, aqueles que gostariam de sabê-lo mais conhecido, atorcer para que ele se torne um pouco mais - pop? Não, ele gostade cantar as "coisas de índio e de preto" que conformam seupaladar estético.Abriu o show de segunda-feira com O Amor, música domulato Caetano Veloso inspirada em Maiakovski; fechou, mais deduas horas depois, com Casinha Feliz, de Gilberto Gil, umacanção roseana: "De dia Diodorim..." O universo comporta ATristeza do Jeca e o Rio de Piracicaba, clássicos dacanção caipira cooptados por outras vertentes da MPB (NeyMatogrosso gravou a primeira; Martinho da Vila descobriu umsamba-de-roda embutido na moda de Tião Carreiro.Esse mundo comporta poesia de Jorge Amado (Gabriela) eFernando Pessoa (Na Ribeira do Rio), os dois musicados por DoriCaymmi; permite o lamento em que Chico Buarque fala desalentadodo futuro do Brasil (Brejo da Cruz) e da própria cançãobrasileira (O Velho Francisco); dá direito a que o carioca Théode Barros brinque de caipira numa toada escrita com o paraibanoGeraldo Vandré, toada que virou hino antiditadura nos anos 60(Disparada).A vasta geografia não é didática, nem Renato Brazassumiria tal papel. Para a Tom Brasil lotada (1.200 pessoas naplatéia, dezenas voltando da porta por falta de ingresso),Renato exerce o papel de catalisador. No momento mais bonito doshow, tocou tambores (com Bré e Guello, músicos de sua banda,Saci Com Cãimbra) para cantar Cruzeiro do Sul, toada de umgrande compositor paulistano, pouquíssimo conhecido, JeanGarfunkel, uma declaração de amor ao Brasil e à cançãobrasileira não redutível a palavras. Renato repete o show no Riode Janeiro, no Teatro Clara Nunes, na semana que vem. É o melhorshow do ano.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.