R.E.M. toca pela primeira vez no Brasil

Dois anos depois de lançar seu disco mais recente, Up, o grupo americano R.E.M. vem ao Rock in Rio com um novo trabalho já concluído. Mas só deve lançá-lo em maio, para tristeza dos seus fãs. "Ainda assim, deveremos tocar uma ou duas canções desse novo trabalho no festival", prometeu à reportagem, por telefone, o guitarrista Peter Buck, que ajudou a criar a banda em 1980 em Athens, na Georgia. Na época, Buck trabalhava em uma loja de discos chamada Wuxtral Records.Segundo Buck, o novo álbum do R.E.M. tem 20 canções e deverá mostrar uma grande mudança musical da banda, com teclados explorados em novas perspectivas e com alguma estranheza. "Não tem nome ainda", disse. Buck, mais o vocalista Michael Stipe e o baixista Mike Mills gravaram parte do disco no meio do ano, em Vancouver, e tem produção de Pat McCarthy, que trabalhou em Up e foi engenheiro no disco Ray of Light, de Madonna. Joey Waronker toca bateria e há dois músicos convidados: Scott McCaughey e Ken Stringfellow, do grupo Posies."O Brasil não é uma absoluta novidade para nós: já estivemos por aí oito anos atrás, mas é a primeira vez que iremos tocar no País", disse o guitarrista. "Por causa disso, é um critério nosso - sempre que tocamos pela primeira vez num lugar - fazer uma mistura de todos os maiores sucessos da banda, para mostrar uma espécie de painel histórico", afirmou Buck.Segundo o guitarrista, a música brasileira chegou aos seus ouvidos com mais intensidade a partir da revisão que os americanos têm feito da geração dos anos 70, de Mutantes, Tom Zé e a Tropicália. "Ouvi muito o disco de Beck e a caixa de canções da Tropicália que lançaram aqui nos Estados Unidos e gosto bastante", contou.O guitarrista comentou o fato de seu parceiro Michael Stipe ter emprestado a voz para um disco de tecno, da dupla britânica Utah Saints. Além de Stipe, estão nesse disco Iggy Pop, Chuck D, Chrissy Hynde e Edwin Starr. "Acho OK, eu mesmo já colaborei em discos de DJs, mas essa não é exatamente uma especialização", disse o músico.Peter Buck nega que, no seu início, o R.E.M. tenha sido seduzido pela onda new wave. "Na verdade, nós estamos mais ligados ao punk rock, ao folk e a alguma coisa do free jazz de Miles Davis", conta ele, que se dizia seduzido, como compositor, pela música que possibilitava a improvisação. "Quando eu era mais jovem, certamente uma das coisas que me influenciaram foi a banda The Byrds, principalmente como guitarrista", ponderou.O músico afirmou que a banda já superou a saída do baterista do grupo, Bill Berry, pouco antes da realização de Up. Estavam há 17 anos tocando juntos. "Ele quis deixar a banda para se dedicar à família, tornar-se um fazendeiro", disse Buck. "Foi uma decisão pessoal, não envolveu brigas ou disputas, e nós continuamos amigos."O R.E.M. é uma das grandes bandas do cast do Rock in Rio. Foi fundada por Stipe (cujo nome real é John Michael Stipe) um estudante de pintura e fotografia, e seus amigos Buck, balconista de loja, e dois outros sujeitos que encontraram em uma festa (Mills e Berry). O nome R.E.M. vem da expressão Rapid Eye Movement, um termo de fisiologia usado para descrever ciclos de sono durante os quais os sonhos ocorrem.Fizeram seu primeiro show durante uma festa, com o nome de Twisted Kites, numa antiga igreja episcopal. Em 1981, gravam um single, Radio Free Europe, que os projeta nas rádios universitárias e o leva a ser escolhido, numa votação do Village Voice, como o melhor single independente daquele ano.A partir daí, cresceu a lenda. O primeiro disco, Murmur, foi gravado em 1983 e é um cult da música independente. Desde então, têm colaborações com gente como o escritor William S. Burroughs, Patti Smith, SonicYouth e outros. Em 1992, o álbum Out of Time ganha o 34.º Grammy em três categorias e vende 4 milhões de exemplares nos Estados Unidos. Estava enterrado o sonho alternativo, mas não a convicção alternativa.O vocalista, Michael Stipe, notório vegetariano, passou a militar contra a matança de animais e tornou-se um ícone das causas politicamente corretas. Tocaram em diversos concertos beneficentes em sua carreira, em prol de causas como a dos monges do Tibete, os doentes mentais de Athens e por aí vai. Eram aguardados pelos brasileiros há um bom tempo.

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