R.E.M. abandona melancolia em novo disco

"Eu não quero pisar na minha própria sombra", diz o cantor Michael Stipe na letra de Summer Turns to High, uma das melhores faixas do novo e grande disco do R.E.M., Reveal (Warner Music). Por conta do propósito de não se repetir, a fórmula de melancolia chuvosa do grupo cede lugar a um ensolarado conceito no qual se embaralham canções de influências diversas.O tecno encontra o folk, um simulacro de Brian Ferry flerta com eflúvios de James Taylor, o fantasma de Paul McCartney dedilha violões sob uma base de teclados: tudo lembra algo no disco do R.E.M., ao mesmo tempo que é uma espécie de "imitação da vida" deliberada, "como um show fashion adolescente de sexta-feira à noite". Em sua letra, a canção Imitation of Life dá algumas pistas para a interpretação sonora do puzzle de Michael Stipe (voz), Peter Buck (guitarra) e Mike Mills (baixo).O arco-íris sonoro do R.E.M. começa com The Lifting, na qual já se anuncia uma enxurrada de teclados e véus sonoros, mas que não pisa nem um milímetro no interior da fronteira do que se pode chamar de música eletrônica. É a velha guitarra alternativa de Peter Buck, ex-balconista de loja de discos em Athens, na Georgia, que dá a marcação à música. The Lifting, como diz o nome, é para cima, alto-astral, vigoroso tour de force do R.E.M. "Uma vez você teve um sonho, de oceanos e cidades afundadas, memórias de coisas que nunca conheceu", canta Stipe.Chorus and the Ring é puro James Taylor, uma baladona redonda fofa e agridoce da melhor cepa. Beat a Drum tem um senso melódico digno de Paul McCartney. Já a faixa I´ve Been High tem a cor de Brian Ferry, ex-Roxy Music, naquela interpretação que é escandalosamente fingida, lembrando um cantor de boate caída de strip-tease que usa ternos Armani. Ao fundo, os efeitos de teclado permanecem afirmando certa obsolescência eletrônica, necessária, porém não mais fundamental.I´ll Take the Rain evoca os primeiros tempos do grupo, um clássico lamento folk. Se os pássaros cantam sobre a vida, por que não podemos? E então vem Beachball, com uma levada meio easy listening, música para ouvir descendo o sistema Anchieta-Imigrantes.Gravado pouco antes da memorável apresentação da banda no Rock in Rio, o disco já foi considerado o melhor do grupo desde Automatic, segundo a revista Rolling Stone. Com a ajuda de um time de instrumentistas all star, que inclui o baterista Joey Waronker e os tecladistas Scott McCaughey e Ken Stringfellow, do grupo Posies, o álbum sucede Up, lançado há quase três anos, e tem produção de Pat McCarthy, que foi engenheiro de produção no disco Ray of Light, de Madonna.Desde 1983 na estrada, quando lançou o disco Murmur, o R.E.M. revela-se por inteiro na sua nova obra. A revelação, no entanto, não esgota o admirável manancial criativo da banda. Pelo contrário: só mostra que sua compreensão do universo da música pop é infinitamente mais abrangente do que supúnhamos.

Agencia Estado,

13 de maio de 2001 | 13h52

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