Alessandra Fratus/Divulgação
Alessandra Fratus/Divulgação

Relações delicadas no universo da Osesp

Músicos reclamam de falta de envolvimento do maestro Yan Pascal Tortelier

João Luiz Sampaio, O Estado de S. Paulo

06 de novembro de 2010 | 06h00

A Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo faz hoje à noite em Zagreb, na Croácia, o primeiro concerto de uma turnê europeia que ao longo dos próximos 20 dias vai levar o grupo a 12 cidades, entre elas Viena e Madri, sob o comando do maestro Yan Pascal Tortelier. A viagem é um passo importante na concretização da reputação internacional da Osesp. Mas, nesta volta ao velho continente (ela esteve por lá em 2007), a orquestra leva na bagagem a indefinição de seu futuro. Críticas ao maestro Tortelier têm dividido os músicos, tornando cotidiana a discussão sobre a contratação de um novo regente-titular a partir de 2012. Ao mesmo tempo, depois de uma conversa com o público na Sala São Paulo, na semana passada, na qual elogiou a orquestra, no dia seguinte o maestro deixou escapar seu descontentamento em uma entrevista à imprensa internacional, quando criticou o excesso de jogos políticos e a imaturidade dos músicos.

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Tortelier assumiu a orquestra no começo de 2009, substituindo o maestro John Neschling, demitido no final de 2008 por divergências com o conselho da Fundação Osesp. A princípio definido como titular por duas temporadas, Tortelier teve seu contrato estendido até o final de 2011. A contratação, a princípio, foi celebrada por músicos e maestro. Mas, nos últimos meses, ocorreu uma divisão entre os artistas. Em conversas particulares ou mesmo em páginas de redes sociais, alguns músicos têm criticado o trabalho do maestro, reclamando de falta de preparo e envolvimento com o grupo.

O primeiro sinal público de alarme foi dado no Festival de Inverno de Campos do Jordão, em julho, quando a Osesp interpretou o Concerto para Orquestra, de Lutoslawski. Após a apresentação, um músico postou no Facebook o comentário "LUTO-Slawski"; naquele momento, outros artistas externaram descontentamento com a regência do maestro e sua escolha de repertório. Em Campos, Tortelier também esteve à frente da Orquestra de Bolsistas e, durante um ensaio, irritado, disse que não havia músicos entre eles, apenas "crianções" - e o fato de que boa parte da orquestra era formada por alunos de instrumentistas da Osesp ajudou a indispor ainda mais as partes.

Coincidência ou não, Tortelier vai reger apenas sete dos 53 programas que a Osesp faz em 2011 - para efeito de comparação, o maestro John Neschling, em seu último ano como titular, regeu treze programas. A direção da orquestra diminui a importância do suposto descompasso entre maestro e músicos; e a presença de 23 regentes convidados no ano que vem é explicada pelo contexto atual do grupo, que ainda busca um titular.

Na noite de quinta-feira, dia 28, Tortelier procurou dissipar qualquer sinal de desentendimento ao falar para o público na Sala São Paulo. "O que acontece é uma troca. Trago comigo ideias musicais, assim como a orquestra tem as suas", disse. E continuou, falando do repertório da turnê. "Há coisas novas para a orquestra, como o Lutoslawski, e peças novas para mim, como o Choros nº 6, do Villa-Lobos. Nesse sentido, posso ajudá-los com Lutoslawski e aprender com eles nos Choros". No encerramento da conversa, Tortelier foi categórico, elogiando a "ética de trabalho e o potencial da orquestra": "Ao olharmos a qualidade e o alcance dos programas, vemos que estamos lidando com uma orquestra de nível internacional."

Na manhã seguinte, porém, o maestro mudou o discurso. Em entrevista ao jornalista alemão Jens F. Laurson, obtida com exclusividade pelo Estado, o maestro, após reconhecer a presença de "grandes músicos" no grupo, faz críticas. Diz que sente resistência por parte dos artistas ao seu trabalho e critica o excesso de "jogos políticos" na orquestra que, para ele, ainda está muito ligada ao modelo de trabalho de John Neschling. Procurada pelo Estado, a assessoria de imprensa da Fundação Osesp afirmou que não conseguiu entrar em contato com os diretores do grupo para que comentassem as declarações do maestro.

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