Regravar repertório de Elisete é desafio

É um desafio, maior ainda porque vem na profusão de tributos que viraram moda fonográfica nos últimos dois anos: alguém grava um disco com o repertório da Elis, do Renato Russo, do Tom Jobim (e aqui são muitos), da Nara Leão. Zezé Motta tomou a peito a tarefa de lembrar o repertório de Elisete Cardoso, uma das três grandes damas da canção brasileira ao lado de Nana Caymmi e Elis Regina.Como elas, Elisete jamais compôs. Dedicou-se a iluminar a obra dos autores de quem gostava - sempre os melhores autores, em seus melhores momentos. E aí reside outra dificuldade a ser vencida por Zezé: a carreira de Elisete é tão vasta e diversificada que as 12 faixas de um CD jamais darão idéia de sua imensidão.Intérprete sem falhas, Elisete Moreira Cardoso cantava sambas, sambões, sambas-canção, bossa nova, canções, boleros, valsas - não tinha limitações estilísticas. Talvez por ter sido crooner, embora isso não explique tudo (há muitos crooners que, por exemplo, cantam bem canções mas não sambas).É que Elisete era uma cantora completa, que fez shows em rádio, com Vicente Celestino, Araci de Almeida, Moreira da Silva; em circo, com Grande Otelo; em dancings, com repertório variado; com Gilda de Abreu e Vicente Celestino trabalho no filme O Ébrio, e com Watson Macedo, em É Fogo na Roupa; com Ademar Gonzaga, em Carnaval em Lá Maior; cantou em todas as emissoras de rádio e televisão importantes, lançou autores, gravou com Sílvio Caldas; foi dela o disco que lançou a bossa nova, no qual se ouviu pela primeira vez o violão de João Gilberto (em Chega de Saudade, de Tom e Vinícius, no elepê Canção do Amor Demais).Alain Robbe-Grillet apaixonou-se por sua voz e incluiu uma gravação sua no filme O Jogo com o Fogo, e Elisete comandou programas de televisão, divulgou a obra pós-viniciana de Baden Powell, gravou com Jacó do Bandolim e o Tamba Trio, mas também com o jovem Rafael Rabelo, num de seus últimos e memoráveis trabalhos, registrado ao vivo.Deixou dezenas de discos, que questões legais, desinteresse por parte das gravadoras detentoras dos fonogramas e a intransigência do herdeiro, o filho Paulo Valdez, têm impedido de chegar ao CD. O disco de Zezé Motta tem, desde já, no mínimo, o mérito de lembrar, mesmo que reduzidamente, o repertório da insuperável intérprete. Para quem lembra de Elisete e quer continuar a ouvi-la, a ela mesmo, sua voz magnífica, resta a tarefa de correr os sebos de elepês e garimpar o que foi sobrando da obra em que nenhuma mácula será encontrada.

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