Regido por Roberto Minczuk, 'Norwegian Wood' foge da obviedade

Concerto da OSB combinou com Richard Strauss e Anton Bruckner

João Marcos Coelho - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

28 de outubro de 2014 | 03h00

Pode ser que boa parte do público presente na Sala São Paulo no fim de tarde do domingo de eleições tenha sido atraída pela suíte Norwegian Wood, assinada por Jonny Greenwood. A obra está distante das obviedades cometidas por músicos pop ao se aventurar pela composição sinfônica. Foi uma boa instrução ao melhor de um concerto atraente, combinando Richard Strauss e Anton Bruckner, a cargo da Orquestra Sinfônica Brasileira, regida por Roberto Minczuk.

Albrecht Mayer, primeiro oboé da Filarmônica de Berlim, já foi professor no Festival de Inverno de Campos do Jordão em 2010. Atraiu as atenções não só pelo poderoso e agudo timbre aveludado de seu instrumento, mas pela virtuosidade numa obra extraordinária, o Concerto de Strauss, uma de suas mais belas criações da plena maturidade. Composto no final da segunda guerra mundial, no outono/inverno de 1945, pratica um neoclassicismo elegante recheado de lindas melodias. Às voltas com o tribunal aliado de desnazificação, Strauss vivia um de seus piores momentos pessoais. 

Depois de muitos pedidos, conseguiu permissão para ir com a mulher a um hotel nos Alpes suíços. Levou consigo o concerto de oboé inacabado. E anotou em seu diário íntimo que, “para dois alemães tristes como nós, que só viveram para a arte e fugiram do caos, da miséria, escravidão e penúria de carvão, isto aqui é o paraíso”. A beleza deste concerto de certo modo expressa esta sensação de paraíso transitório que sentia. 

Já na entrada inicial, Mayer capturou a plateia com 56 compassos ininterruptos no saltitante Allegro Moderato, seguido de um desenvolvimento em tempo Vivace de tirar o fôlego. No Andante intermediário, construído como um lied (canção), gênero no qual Strauss era mestre, Mayer demonstrou rara sensibilidade. E tudo terminou numa exaltação num rondó Vivace-Allegro com cheiro de Mozart.

A terceira sinfonia - a OSB está a meio caminho de uma integral Bruckner em concertos - foi a obra que plantou na cabeça do compositor os rumos de sua criação a partir da epifania que sentiu ao conversar com seu grande ídolo Richard Wagner em Bayreuth no início de 1873. 

“Apresentei-me ao Mestre, que foi extremamente gentil e amistoso, parecendo simpatizar comigo de imediato. A princípio, não consegui sequer me convencer a sentar-me em sua presença, mas ele foi muito acessível e convidou-me a juntar-me a seu grupo todas as noites.” Mostrou-lhe sua segunda sinfonia e esboços da terceira, que concluiria no final daquele ano. Pediu, e obteve, permissão para dedicar-lhe a obra. E tietou o ídolo até ganhar uma foto de Wagner autografada.

A terceira ainda não é uma obra-prima, como as três últimas sinfonias de Bruckner. Mas transpira wagnerismo por todos os poros. Minczuk, que pratica uma regência muito plástica no pódio, parece ter seguido à risca as dicas de Daniel Barenboim, notável bruckneriano que gravou e lançou em maio passado as três primeiras sinfonias com a Berlin Staatskapelle: “É preciso tocar Bruckner com certa liberdade no fraseado e com um halo vocal, em vez de puramente instrumental”. 

Daí, por exemplo, as bem colocadas pausas eloquentes e grandes depois de cada final clímax - e eles são muitos, distribuídos pelos quatro movimentos. É preciso fazer a sinfonia cantar. E lembrar-nos de que Bruckner, organista de igreja, construía formidável acordes em fortíssimo só para desfrutar, nas longas pausas subsequentes, o halo que o órgão de tubos deixa no ar.

Tanto acompanhando Albrecht Mayer quanto em Bruckner, a OSB demonstrou adequação e competência. Um bom concerto, em que a atuação de Roberto Minczuk foi fundamental. 

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