Regência segura de Neschling vence desafios de concerto

Exigências das composições de Rachmaninov e Richard Strauss são bem resolvidas no Teatro Municipal de São Paulo

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S. Paulo

27 de julho de 2014 | 20h15

Os dois compositores programados para o concerto de sábado, dia 26, no Teatro Municipal de São Paulo comungaram duas características fundamentais. Levaram ao limite formas do passado e notabilizaram-se por um virtuosismo incrível no trato com seus instrumentos de adoção. Rachmaninov e o piano, o instrumento rei dos concertos com orquestra, de um lado; e do outro a maestria absoluta de Richard Strauss no trato com a orquestra.

O russo capturou a essência do concerto romântico do século 19, em quatro criações, das quais duas – o segundo e o Rach-3 – são os mais populares do século 20. O alemão pegou o bastão das mãos de Liszt, o inventor do poema sinfônico, e levou o gênero ao clímax numa sequência de sete obras-primas na década final do século 19, também populares até hoje.

A noção de progresso linear na história da música, sobretudo na do século 20, levou a uma atitude radical exclusivista que não dava espaço para mais de uma perspectiva. Daí o desprezo que ambos sofreram – Rachmaninov a vida toda, Strauss por seu retorno ao passado após Elektra e Salomé, os tsunamis que sacudiram o mundo lírico na primeira década do século 20. Aqui, uma diferença: enquanto o russo sempre se lambuzou só de passado, Strauss, como escreve Bryan Gilliam, “tratava o estilo musical pela perspectiva a-histórica e crítica”. 

Por aí se vê que a pianista ucraniana Valentina Lisitsa e o maestro John Neschling se impuseram enormes desafios no sábado, diante de um Municipal lotado. Primeiro o Rach-3.

É impossível fugir de uma comparação entre o que se ouviu anteontem – uma pianista fogosa, no auge de seus atributos técnicos, represada por um acompanhamento sinfônico burocrático, convencional – e a performance luminosa do russo Nikolai Lugansky em abril, na Sala São Paulo, coadjuvado pela antenada regência de Isaac Karabtchevsky, sem jamais exagerar nos maneirismos à frente da Osesp.

Enquanto Lugansky cuidou para não exagerar o que em si já é exageradíssimo, Valentina tentou compensar o marasmo ambiente com energia excessiva. Isso resultou numa execução desequilibrada. Ela mostrou suas armas num punhado de extras pirotécnicos que encheram olhos e ouvidos da plateia.

Se ficou devendo na primeira parte, Neschling empatou o jogo com Richard Strauss. Aqui, sim, a orquestra parecia ter saído da letargia. O equilíbrio entre os naipes, a dosagem correta das dinâmicas e o descarte da força excessiva numa partitura em si já grandiosa. Neschling soube conduzir seus músicos a uma boa leitura de Assim Falou Zaratustra

As exigências da obra multiplicam-se a cada momento. Não foi à toa que Ravel mantinha partituras dos poemas sinfônicos de Strauss em sua escrivaninha de trabalho, segundo inconfidência de seu aluno Rolando Manuel. As caleidoscópicas combinações de timbres e jogos camerísticos afloraram com competência e discernimento. Primeiras estantes com desempenho muito bom, entrosamento igualmente satisfatório. Regência segura. Tudo isso, definitivamente, não é pouco. 

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