Refazendo o caminho criativo de Robert Schumann

O suíço Heinz Holliger lança primeiro volume de uma integral das obras para orquestra do compositor alemão

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S.Paulo

03 Janeiro 2014 | 02h07

"A música de Heinz Holliger não se aparta da história; sua trajetória pessoal se confunde com a da música em seu conjunto, algo que ele conhece nos mínimos detalhes", escreve o suíço Philippe Albéra. Conclui dando uma pista preciosa de como funciona a cabeça genial desse oboísta (o melhor do mundo), regente (extraordinário) e compositor (excepcional e muito pessoal): "Sua música não se projeta num futuro utópico depurado das escórias da tradição: reflete seu próprio destino com angústia, tentando salvar a utopia da qual as obras do passado são testemunhas".

Daí a paixão desmesurada por Robert Schumann, objeto de um dos melhores concertos de 2013. Naquela noite, Holliger fez o que descreve Albéra: interpenetrou o itinerário de Schumann (regendo o radical concerto para violino e a sinfonia n.º 1), com o seu próprio, fazendo-os dialogar com seus Cânticos da Manhã, em que mistura poemas de Hölderlin e diários de Schumann com música sinfônica e eletrônica.

A sequência natural, ele a cumpre agora, ao lançar o primeiro volume de uma integral das obras para orquestra de Schumann com a Sinfônica da Rádio de Colônia. Obras para orquestra e não a convencional "integral sinfônica".

Holliger vai refazer o caminho criativo de Schumann no gênero. Para ele, Robert não optou pela música do futuro da dupla Liszt-Wagner nem pelos tradicionalistas conservadores. Mergulhou na nona sinfonia, a "Grande", de Schubert, que redescobriu em 1838. Os resultados apareceram em 1841, com essas primeiras composições orquestrais (a fanfarra inicial da "Primavera", por exemplo, tem tudo a ver com a abertura da Grande de Schubert).

Este primeiro volume é uma revelação. Holliger o chama de tríptico inicial, pois duas sinfonias - a primeira, "Primavera", e a primeira versão do que seria a quarta sinfonia em ré menor - emolduram o que chama de "sinfonietta" ou "sinfonia de câmara", na verdade a "Overture, Scherzo e Finale". Esta última foi desmembrada por Clara Schumann em três peças isoladas; mas, raciocina Holliger, os três movimentos interligam-se. Pode ser vista como uma sinfonia clássica, com um toque inovador: a overture é um lied e o movimento final um "coro sem palavras", como Schumann admitiu.

Em cada um de seus concertos e gravações, o compositor suíço Heinz Holliger nos surpreende e ilumina a música do passado de um modo inédito.

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