Redentores de almas do metal

Após anunciar aposentadoria, o Judas Priest volta com um disco que tem poucos equivalentes na temporada: 'Redeemer of Souls'

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

29 de julho de 2014 | 09h50

Em 2011, o grupo de heavy metal Judas Priest, após 40 anos de estrada, chegou a São Paulo com a turnê Epitaph e o vocalista Rob Halford disse, em entrevista ao Estado: "Andamos excursionando excessivamente nos últimos anos, por isso consideramos que essa é uma turnê de despedida. Nós queremos fazer os melhores shows, eu quero sempre estar fisicamente impecável, no melhor da minha voz. Nunca tínhamos cancelado um show antes, e tivemos de fazer isso em Nova York outro dia. É preciso dar um tempo, para que os fãs tenham sempre o melhor. Mas o Judas Priest estará sempre por aí".

Três anos depois, o Judas Priest volta ao centro do incêndio do metal com um novíssimo disco, Redeemer of Souls (que a Sony Music está colocando nas lojas essa semana no Brasil). Um grande disco de metal, simples e direto e com grande reverência ao som clássico, old school do Priest. Resta agora esperar que também tenha sido um blefe a história de não mais fazer turnês globais.

Pela primeira vez como compositor, o mais jovem integrante do grupo, o guitarrista Richie Faulkner, é co-autor das faixas, é também arranjador e participa ativamente da composição. A banda ainda tem o baixista Ian Hill e o baterista Scott Travis.

Em algumas músicas do novíssimo álbum, o grupo chega a se aproximar do blues rock, como em Beginning of the End. Uma balada de metal como havia anos não se fazia no gênero. Mas, em geral, é o peso que domina.

A primeira faixa, Dragonauta, abre com sons de explosões de canhões (ou trovões, ou ainda fogos de artifício, como se vê num show do Priest). Os solos de Glenn Tipton soam como as guitarras de um petardo histórico da banda, Between the Hammer & the Anvil (de Painkiller). Battle Cry soa como um primo desviado do Iron Maiden, com um riff de guitarra perturbado abrindo a homilia vocal de Halford. Fantástico.

As guitarras de Faulkner e Tipton e a saraivada de bateria de Sword of Damocles reavivam o melhor da grandiloquência do metal clássico, com o tema clássico grego, a representação da insegurança dos que possuem grande poder, por conta da iminência de perderem o poder.

Metalizer é uma das mais pesadas faixas de heavy metal dos últimos 10 anos. Velocidade, sujeira, vocal satanizado, cabeças batendo por todo lado.

Todo grande grupo tem um disco inimitável. O do Judas Priest foi Painkiller, de 1990 (antes, já tinham feito dois grandes clássicos, British Steel, de 1980, e Screaming for Vengeance, de 1982). Mas Painkiller já era em si também um retorno ao melhor som da banda dos anos 1970 e um manifesto do que seria conhecido como speed metal.

Redeemer of Souls não irá tão longe, mas o mais legal é que também não se afasta do ideário mais elevado de Halford & Cia. O CD tem 13 faixas (mas a gravadora anuncia ainda 5 faixas-bônus).

Rob Halford é um dos personagens mais importantes da cena do metal por vários motivos. O principal é por conta de sua performance cênica de vigor e notável senso de humor nos shows. Em 1998, ele também se tornou o primeiro grande ídolo de heavy metal a assumir publicamente sua homossexualidade. Foi provavelmente o último a ter coragem de fazer isso no gênero. "Imagino que seja difícil em todas as atividades. Há muitas coisas horríveis acontecendo, gays sendo brutalmente atacados, seja em lugares extremistas ou em lugares ditos civilizados, como no Leste Europeu e em São Paulo. Há uma homofobia e atos de irracionalidade em todo lugar. Os gays sempre estiveram no heavy metal, não é uma situação nova. Assim como estão no futebol. Mas a minha declaração foi pessoal, não posso cobrar dos outros. Há razões pessoais que temos de respeitar. Sabemos que há gays em todas as áreas, gays ocupam cargos importantes nos governos, nas empresas, no esporte, nas artes. E eu acho que é uma situação estranha viver fingindo que se é heterossexual, o estereótipo é um erro que se comete. No heavy metal, isso era ainda mais tabu, e eu continuo a ter orgulho de representar o movimento gay no metal. Não preciso afirmar isso continuamente, mas tenho orgulho. É mais ou menos como dizer: 'Hey, eu sou um cantor de heavy metal, e eu sou hetero'. Ninguém diz isso, não faz sentido. Não é uma escolha, é o que eu sou. Mas, na circunstância social em que vivemos, acaba sendo importante, por ajudar a derrubar a opressão. Vivemos uma era de grande intolerância racial, sexual, religiosa. É preciso ser inteligente e abraçar a humanidade", ele disse, em entrevista ao Estado.

"O que eu aprendi é que devem ser respeitadas as decisões individuais. Os rumores podem ser fatos, mas também podem ser apenas rumores. É claro que, quando você assume que é gay, aqueles que falavam por trás de você acabam sendo desarmados, não têm mais o que dizer. Meu público foi rápido em sua decisão. Eles me disseram: 'Hey, Rob! Nós não nos importamos, quando você canta é a nossa voz, isso é que importa'".

A voz do metal está de novo na área.

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