Recuperado, Tom Zé volta aos palcos

Depois de driblar a morte - eleescapou de um colapso cardíaco no dia 21 de abril, no Recife -,o baiano Tom Zé volta ao palco pela primeira vez neste sábado, em show no Sesc Vila Mariana. E volta com a corda toda,dividindo a noite com o grupo pernambucano Mestre Ambrósio. ComoDarcy Ribeiro, que fugiu do hospital para se tratar, Tom Zévolta invertendo um slogan da indústria farmacêutica no nome doseu show: "Persistindo os Médicos, os Sintomas Deverão serConsultados".Não que Tom Zé seja um mal-agradecido. Ele diz que osmédicos pernambucanos salvaram sua vida ao diagnosticarrapidamente a veia entupida e fazer a cirurgia, em abril. Ainversão do slogan é mais uma de suas brincadeiras sonoras, comoum ready-made de Duchamp (ele lembra outro troca-troca seu maisantigo, que era "Não faça do seu caso um alarma, a tímida podeser você").Mas o retorno de Tom Zé também é uma espécie demanifesto. Ele o está chamando de "show-cartório", no qualpretende "registrar firma" de algumas de suas invencionicesmusicais que - acusa - está cansado de ver sendo utilizadas emshows alheios, sem o devido crédito."Estou cansado de ver minhas idéias gozando com o palcodos outros", brinca o músico de 65 anos. "Não me obrigue adizer quem fez isso, mas eu tô cansado de sofrer com essascoisas, e não sou macho de bater o pé no chão e dizer: ´Ei, issoé meu!´"Portanto, ele leva as invenções ao palco e vai pedir aosconhecidos presentes para serem as testemunhas da "escritura"de suas criações. Uma delas, por exemplo, é Brigite Bardot, umabrincadeira com iluminação. "É uma música na qual a iluminaçãofaz parte da composição", explica. "Tenho composições que sópodem existir no palco, porque foram feitas para essa mídia. Daíporque não estão nos discos."Tom Zé, sempre no seu estilo parabólico, explica o queentende como a conceituação do seu trabalho dentro da MPB."Quando você não sabe cantar, não tem voz, não tem o pathos doartista, então você começa a inventar, a viver de outrosartifícios", resume.Sua primeira referência, conta, foi a figura do Homem daMala, mítico artista mambembe do interior. "É o artista quechega a um lugar imprevisto, transforma um pedaço da praça empalco e outro em platéia e improvisa seu show do nada",visualiza. "Imagine se eu tivesse nascido com a voz do AgnaldoRayol? Ficaria embriagado pela minha voz e não faria mais nada.Mas eu, como nasci com um complexo de inferioridade terrível,nunca quis ser melhor que os outros, faço o que faço para meigualar. Daí essa perseguição ao que não era comum, ao que nãoera institucionalmente belo ou razoável."Os "interlocutores" dessa noitada de retorno de Tom Zénão poderiam ser mais apropriados: os pernambucanos da bandaMestre Ambrósio. Estão festejando dez anos de carreira e à beirade fazer seu primeiro show em terras asiáticas (vão fazer turnêpor dez cidades japonesas).Sem gravadora, o Mestre Ambrósio voltou à condição deindependente do início da carreira, mas com um cacifeimpressionante. Desde 1996, fazem todo ano uma turnê mundial.Têm um manager francês, Mark Regnier, e nenhuma pressa de gravaro sucessor de O Terceiro Samba (Sony, 2001)."Estou escrevendo música direto, mas a gente ainda nãoestá conversando sobre o material novo, estamos fazendo showadoidado", conta Sérgio Ricardo Cassiano (percussão e vocal).Tom Zé e Mestre Ambrósio fazem shows separadamente edepois se encontram, no final, para mostrarem a canção nova. E,logo logo, pinta também Santagustin, o novo balé do GrupoCorpo, com a música do baiano, "inspirado no Pixinguinha e nafamília Carrasqueira".Tom Zé e Mestre Ambrósio. Sábado, às 21 horas; edomingo, às 18 horas. De R$ 7,50 a R$ 20,00. Teatro do Sesc VilaMariana. Rua Pelotas, 141, tel. 5080-3000.

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