Recital homenageia a cantora Fedora Barbieri

Uma das grandes damas do canto lírico do século 20, a meio-soprano Fedora Barbieri, está em São Paulo, onde será homenageada neste sábado com um recital no Theatro São Pedro, em São Paulo. Aos 82 anos, ela chegou ao Brasil no fim da semana passada e, desde segunda-feira, tem dado master classes a cantores brasileiros. "Estou assustada com o tamanho da cidade, de fato fazia muito tempo que eu não vinha para cá", diz ela, com os olhos arregalados. Organizado por Paulo Ésper, da Cia. Ópera São Paulo, o recital vai reunir 14 solistas, que, acompanhados por três pianistas, vão interpretar trechos de óperas cantadas por Fedora ao longo de seus 60 anos de carreira: Orfeo e Euridice, Il Matrimonio Segreto, Norma, la Favorita, L´Italiana in Algeri, Adriana Lecouvrer, La Gioconda, Cavalleria Rusticana, Ainda, Falstaff, Don Carlo e Il Trovatore. As master classes em São Paulo são parte de uma agenda de cursos que este ano também a levarão à Julliard School e ao Metropolitan, de Nova York, a São Petersburgo e à Itália. "A intenção desse tipo de atividade é simples, é mostrar o sentido da voz. Os jovens não sabem isso. E a culpa é dos maestros", afirma ela, visivelmente irritada. "Porca miséria" - o temperamento de outras épocas, uma de suas marcas, ainda está lá intacto -, "a primeira coisa que os maestros devem ensinar, e não fazem, é o folêgo, a sustentação da voz, cantar com a boca aberta." "Toscanini me disse, certa vez", começa ela, e o tom se torna mais grave, "à medida que eu falo, me lembro": "Fedora, o falar cantando é a palavra esculpida em bronze." O problema, hoje, segundo ela, é que os cantores não sabem pronunciar. E ela mostra, com a própria voz - fazendo-a tremer ou então soar como uma máquina de escrever enferrujada - o que quer dizer. "Muitos jovens são, apesar de toda a deficiência, pretensiosos. Na Itália, uma moça me procurou querendo que eu a ouvisse cantando a Traviata. As coisas não são assim, precisa de muito tempo, muito estudo. Callas, uma grande Traviata, me contou certa vez que estudava a ópera ensaiando apenas uma página por dia. Callas não se tornou o que foi à toa." O modo como personalidades como Toscanini ou Callas aparecem na conversa é um indício de que se está diante de um ícone da ópera. Nomes como Beniamino Gigli, histórias como a aventura de conhecer os Andes e o Rio de Janeiro ao lado de Giulio Neri, aparecem ao longo da entrevista. "É verdade, cantei com os melhores cantores, com os melhores maestros, nos maiores teatros do mundo." A história tornaria absurda qualquer falsa modéstia. Alguma preferência? "Cada um tem seu jeito, tem algo que o torna diferente dos outros", diz Fedora, que cantou ao lado desde Toscanini até Claudio Abbado. "Mas Furtwangler era muito difícil." Com ele, ela fez um histórico Orfeo no Scalla, em 1953.Comerciante - Apesar de todo o material vocal - e da paixão pela ópera -, Fedora diz que não queria cantar. "Minha vizinha, que me ouvia cantarolar em casa, me incomodava sempre com essa história de que eu precisava estudar canto. Mas eu não queria, só fui ao conservatório porque fui carregada pela minha família." Lá, o professor pediu que ela fizesse vocalises. "E eu lá sabia o que eram vocalises? Bom, ele me explicou e aí fiz. Acabei e ele disse que minha voz era muito boa. Saí correndo." Um ano mais tarde, voltava, ainda carregada, para visitar outro professor. "Fugi de novo." Apenas na terceira vez, ainda sem estar certa sobre se tornar uma cantora - "eu ia acabar seguindo a tradição da família, lidando com comércio" - fez algumas aulas, até que o professor ficou doente, quase morrendo, e indicou a ela um jovem maestro, ninguém menos que Luigi Toffolo."Fiz três aulas com ele, que não falava nada, ficava quieto, até que me enchi e perguntei o que estava acontecendo." Ele respondeu que só faria comentários quando fosse seu professor oficialmente. "Então, aceitei." Ela tinha 17 anos. Um ano e meio depois tinha sua primeira grande chance profissional, um concurso em Florença. "Viajamos à noite, de Trieste, durante a guerra, e chegamos às 9 da manhã na cidade. Imagina só, eu não tinha nem me inscrito, estava sem carta de recomendação."Segundo ela, por pena, deixaram que participasse. "Eu ia cantar trechos da Carmen e do Trovatore e o maestro Toffoli me disse que começasse com a Habanera, para soltar a voz." A decisão, no entanto, era do júri que, com ela no palco, pediu que começasse com o Trovatore. "Não", disse ela. "Como não?", responderam. "Não, começo com a Carmen. Resultado: ela cantou Carmen, depois o Trovatore. Venceu o concurso, ganhou uma bolsa de estudos e a chance de fazer sua estréia no Maggio Musicale Fiorentino. No júri, estava Tulio Serafin, maestro que a levaria para cantar no mundo todo.Qual o segredo de ter um repertório tão amplo, que vai de autores do século 17 ao Henze do século 20? "Muito estudo. E humildade para saber se o que você está fazendo está correto, para se consultar com bons maestros. É simples, mas hoje ninguém faz isso: são todos deuses, que acabam destruindo as próprias vozes."Serviço - Il Mondo Canta L´Opera Italiana. Homenagem a Fedora Barbieri. Sábado, às 20h30. R$ 20,00. Theatro São Pedro. Rua Barra Funda, 171, São Paulo, tel. 3667-0499

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