Recbeat, festa dos jovens talentos reunidos no Recife

Pense na dificuldade de realizar umfestival de rock durante, e a poucos quarteirões, do carnavalmais popular do Brasil, o carnaval pernambucano, que reúnemilhares de pessoas nas ruas do Recife e Olinda durante os diasde folia. Pense na dificuldade de "competir" com atrações comoNação Zumbi se apresentando com Lia de Itamaracá, Talma deFreitas e Pitty; Alceu Valença, Gal Costa, Elba Ramalho e tantasnações de maracatu, de baque virado e de baque solto. Enfim, pense no Recbeat, o festival que reúne o melhor dasbandas alternativas e os novos talentos da música nacional.Mesmo com "concorrentes" de peso, o Recbeat conseguiu reunir,nos quatro dias em que foi realizado, há pouco mais de umasemana, no Palco Mangue, o Cais da Alfândega, 62 mil pessoas. ReferênciaShows memoráveis de bandas como Instituto, Vanguart, Isca dePolícia, Digitaria, Instituto, Montage e Rivotrill movimentaramo palco do festival que já se firmou referência de música deponta. "Este ano, retomamos o espírito que criou o Recbeat. Confessoque não gostei da edição do ano passado. O festival tinhacrescido demais e estava se perdendo. Percebi isso exatamente nodia do show da Nação Zumbi, um dia tumultuado, em que houvebrigas. Vi que não era aquilo que tinha idealizado e resolvi,neste ano, voltar à essência", comenta Antonio Gutierrez, oGutie, idealizador e produtor do Recbeat. Quando Gutie fala da essência, também diz muito sobre o apelocomercial que um festival de música pode ter. Durante os dias defolia, houve quem afirmasse que o Recbeat estava esvaziado.Pudera. Como já afirmado, como lotar um espaço enquanto GalCosta toca no palco vizinho para mais de 100 mil foliões? Commúsica boa. Gutie diz que o sucesso de um evento como Recbeatnão deve ser medido em números absolutos. Tem toda razão. Talvez se fosse realizado em outra época do ano, atraísse maispúblico, que se divide no carnaval. Mas também perderia a chancede atrair o público que não acompanha o circuito alternativo. Otipo de público que vai até o Recife Antigo para assistir aPitty, mas se depara com um Instituto no caminho. E gosta. Evolta no ano seguinte. Se é neste público que pensamos quando falamos em revelar osnovos talentos na música nacional, aqueles que, graças!, estãomuito distantes dos esquemas comerciais do mercado fonográfico,estamos no caminho certo. Saldo mais que positivo no Recbeat2007 e para a novíssima música brasileira.Falta do manguebeat Há quem diga que faltaram os representantes do movimentomanguebeat. Há quem diga que o mangue morreu. Talvez as duasafirmações estejam equivocadas. O mangue não morreu é precisoestar em constante renovação para não morrer na praia. E quem provou que a cena musical do Recife vai muito além domanguebeat e está sempre se renovando foram bandas pernambucanascomo Rivotrill, que trouxe para o palco seu som instrumental,recheado de referências do jazz, erudito e dos ritmos nacionais.A banda promete turnê ainda para este ano pelo Brasil. A ver.Os conterrâneos do Digital Groove, Mellotrons e do Parafusa e aTrombonada, João do Pife e Banda Dois Irmãos também não deixarama desejar. Entre os veteranos do Recbeat, imprescindível citarErasto Vasconcelos. Irmão de Naná e referência indispensávelpara bandas mangue e pós-mangue, o autor do já clássico O BaileBetinha fez um show lírico, carinhoso, bem ao sabor de seuótimo CD, e, infelizmente, difícil de encontrar no Sudeste,Jornal da Palmeira. Erasto foi o melhor show da primeira noitedo festival, que teve também os paraibanos do Zeferina Bomba eos paulistas do sempre criativo Z?Africa Brasil.Do Mato GrossoNo carnaval multicultural do Recife, e no palco do Recbeat, hásempre espaço para conterrâneos de outros Estados. Destaque paraos mato-grossenses do Vanguart. "Nós viemos de Mato Grosso.Vocês têm idéia de como isso é longe", disseram os rapazes antesde mostrarem que não há fronteiras para a boa música. Com seurock folk, nitidamente inspirado em nomes como Bob Dylan e VelveUnderground, seduziram a platéia . Na lista de expectativas frustradas, o show do carioca Mr. Catra que, segundo informações, não conseguiu vôo de Salvador para oRecife e acabou faltando à festa. Os espanhóis do 2IN-PAR tambémnão tiraram o melhor que podiam de seu hip-hop que misturagroove, jazz e funk. Fizeram um show correto, mas sem empolgar a última noite doRecbeat, que teve ainda os paulistas Curumin&The Aipins e o triode rock instrumental mato-grossense Macaco Bong, ospernambucanos do Parafusa e A Trombonada e João do Pife e BandaDois Irmãos. Na noite anterior, um dos melhores, se não o melhor, show destaedição: Instituto. O coletivo paulista trouxe seu tributo aoantológico Tim Maia Racional. Talma de Freitas, FernandoCatatau e companhia emocionaram e abalaram. Na lista de hypes do Recbeat, não podem faltar os cearenses doMontage, apontados como uma das revelações do cenário musicalatual; e dos debochados curitibanos do Bonde do Rolê, quesacudiram a platéia com seu funk desbocado. Quem teve a tarefa de encerrar este múltiplo festival foininguém menos que Tom Zé. Diante de 18 mil ?testemunhas?, obaiano-paulista, tirou seu "diploma de pernambucano" com umfrevo-canção carinhoso que compôs em homenagem aos 100 anos dofrevo. Tom Zé saiu, mais uma vez, ovacionado. Prova de quetradição e inovação nem sempre precisam estar em lados opostos. (*)A repórter viajou a convite da prefeitura do Recife

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