Ernesto Rodrigues/AE
Ernesto Rodrigues/AE

Raul de Souza, o embaixador do trombone

Aos 77 anos, músico faz turnê e promete disco com temas inéditos e uma biografia para 2011

Lucas Nobile, O Estado de S. Paulo

09 de novembro de 2010 | 06h00

O longevo e lendário trombonista Raul de Souza, que faz show hoje no Teatro Fecap, é um exemplo de quem traga a música e suga a vida para contrariar o cair da areia na ampulheta. Aos 77 anos, recebe o Estado com exclusividade para um papo em sua casa e, em aproximadamente duas horas de conversa, enevoa a sala com baforadas em seu cachimbo. Para muitos, tal gesto soaria como uma afronta, já que ele depende, e muito, do fôlego para tocar seu instrumento de sopro. Mas o fumacê, que deixa a voz de João José Pereira de Souza (nome de batismo de Raul) cada vez mais rouca e áspera, parece não atrapalhar em nada a vitalidade e a pegada musical que o acompanham há 61 anos.

 

Isso mesmo. Ele começou a tocar o trombone quando tinha 16. O desejo maior era de comprar um saxofone, mas o pai, que atacava de pastor evangélico, deu a "fatídica" notícia de que não tinha dinheiro suficiente para comprar um sax e que o garoto deveria ficar com o trombone mesmo, cerca de mil réis mais barato na época.

 

Raul sempre respeitou e valorizou quem dominou a música pelos estudos, mas, diferentemente dos catedráticos, aprendeu o instrumento de ouvido e ganhou o "molho" na noite. "Por não ter prática de orquestra eu perguntava para o pessoal e fui pegando as manhas de interpretação e sonoridade. Eu ouvia a música que vinha da casa do vizinho e já entrava no tom. Eu nunca fui de estudar, era tudo de ouvido. Depois fui aprendendo os nomes: ah, isso é um mi bemol, um sol menor", diz Raul de Souza, cuja vivência veio dos bailes, das gafieiras e das matinês pelo Rio.

 

Depois de muita ousadia e de superar dificuldades financeiras ao ganhar notas máximas no programa de calouros de Ary Barroso, na Tupi, de ganhar o prêmio de instrumentista do ano, ao lado do fenomenal saxofonista Casé, Raul chegou a acompanhar intérpretes do peso de Elizeth Cardoso e Agostinho dos Santos. Até, em meados da década de 50, quando já frequentava o Ponto dos Músicos, na Praça Tiradentes, no Rio, sua cidade natal, recebeu o convite de Altamiro Carrilho para gravar um disco aberto ao improviso. Era Turma da Gafieira, com um time integrado, nada mais, nada menos, por Altamiro, Sivuca, Baden Powell, Edison Machado, Zé Bodega, o maestro Cipó e José Marinho.

 

Depois do petardo, Raul ainda serviria a aeronáutica antes de lançar seu primeiro disco como solista, À Vontade Mesmo, e de participar de álbuns importantíssimos, como Você Ainda Não Ouviu Nada, com o Bossa Rio e Sergio Mendes. Seguindo a mesma rota de tantos outros brasileiros, como Tom, Moacir Santos, João Donato, Airto Moreira e Egberto Gismonti, Raul foi morar nos Estados Unidos, de 1970 a 1986, onde o instrumental era muito mais respeitado. "O cenário melhorou no Brasil, mas ainda há muito a melhorar. Precisamos descobrir gente nova. O músico brasileiro é diferente. Aqui, nossa música é feita (em compasso) 2/4, lá, a deles é em 4/4. A gente consegue se virar na deles, mas eles não conseguem tocar bem a nossa", diz Raul.

 

Lá nos Estados Unidos, ‘camaleando’ no berço do jazz e mergulhando na obra de seu "mentor" John Coltrane - que figura na casa de Raul em LPs e até em uma espécie de altar com imagens no quarto do trombonista, que domina seu instrumento, seja de vara ou de válvula -, Raul lançou discos relevantes em sua carreira, como Sweet Lucy e Don’t Ask My Neighbors e Til Tomorrow Comes (Capitol Records). Atualmente, ele passa cinco meses em sua casa nos Jardins e o restante do ano na França, terra de sua esposa, e rodando em apresentações pela Europa.

 

No show de hoje, comemorando 55 anos de estrada, em parte de turnê que já passou por Curitiba e chegará a Porto Alegre (amanhã), Rio (12 e 13/11) e Recife (5/12), acompanhado de seu grupo Na Tocaia, Raul passeará por sua história, com composições brilhantes, como Nanã (Moacir Santos), Lamento (Pixinguinha e Benedito Lacerda), Inútil Paisagem (Tom Jobim), Bananeira (João Donato), Sweet Lucy (George Duke) e as suas À Vontade Mesmo, Jump The Street, The Other Side Of The Moon e Bossa Eterna. "Estou feliz com o reconhecimento que tenho como um dos embaixadores da música moderna brasileira."

 

Raul de Souza - Teatro Fecap. Av. Liberdade, 532, 4003-1212. Hoje, 21h. R$ 5

 

Uma biografia a caminho: muito caso para contar

 

A vaidade, mesmo que de forma simples, pode habitar Raul de Souza, mas só no que diz respeito à aparência. Décadas atrás ele já ostentava uma estilosa cabeleira black power. Hoje, muito bem conservado, com as madeixas mais enxutas e contidas, ele também exibe seus brincos de argola dourada, dois grandes anéis na mão esquerda, um na direita e as unhas do dedo mindinho trabalhadas com um desenho.

 

Musicalmente, ele teria razões de sobra para estufar o peito. Basta ver a lista de craques com quem tocou: Tom Jobim, Hermeto Pascoal, Cal Tjader, Lionel Hampton, Sarah Vaughan, George Duke, Stanley Clarke, Ron Carter, Frank Rosolino, Sonny Rollins, Sergio Mendes, Eumir Deodato, Egberto Gismonti, Airto Moreira, Milton Nascimento, João Donato, Toninho Horta, Altamiro Carrilho, Baden Powell, Sivuca, entre tantos outros. Mesmo assim, Raul deixa a vanglória de lado. Figura humana espetacular, ainda hoje mescla educação com despojamento, sendo capaz de emendar em uma mesma frase um "graças a Deus" e algum palavrão.

 

Toda essa vitalidade faz com que, aos 77 anos, a vida de Raul seja guiada por novidades. Uma delas é um disco já gravado, em fase de mixagem, em Curitiba, a ser lançado no primeiro semestre de 2011. O álbum terá temas de Jobim, Djavan, composições feitas pelo grupo do trombonista, além de três inéditas de Raul.

 

A outra boa nova é a biografia do músico, que será escrita pelo colunista do Caderno2+Música, Roberto Mugiatti. O livro contará histórias envolvendo toda essa gente da pesada com quem Raul tocou ao longo de 55 anos de carreira, além de outras passagens saborosas, que ajudam a entender um pouco da personalidade do trombonista.

 

Entre elas, tudo o que Raul aprontou quando serviu a aeronáutica, de 1958 a 1963, que, a pedido dele, só serão reveladas no livro; a infância no subúrbio do Rio, entre Bangu e Padre Miguel; o "bolo" que tomou do veterano e ídolo Pixinguinha ao procurá-lo; as participações nos programas de calouro, como A Hora do Pato; e as longas madrugadas de bebedeira com os amigos músicos no Rio ou em São Paulo.

 

Tocando para um búfalo. Uma delas, além de evidenciar a paixão pelo som e a relação estreita com o trombone, revela a atitude de franco atirador de Raul no cotidiano, quando jovem, muitas vezes molhado pelo álcool. Na casa dos 20 e poucos anos, ele voltava para casa de madrugada e, no caminho, passava pelo Passeio Público. Entrou em uma espécie de pedalinho, com seu instrumento e, à certa altura do riachinho, deparou com uma placa: "Não ultrapasse." Curioso, Raul seguiu adiante até chegar a uma casinha de madeira em um barranco. Começou a tocar. Para sua surpresa, saiu de lá um espectador inusitado e aparentemente perigoso: um búfalo, para quem ele tocou improvisando por meia hora só para tirar um barato - e pela eterna paixão pela música.

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