TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
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Ratos de Porão relembra o álbum 'Brasil', lançado em 1989, com série de shows

Mirando o mercado externo, o grupo lançou duas versões, uma cantada em português e a outra em inglês

Tiago Queiroz, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2019 | 03h00

A banda Ratos de Porão celebra os 30 anos da gravação de um dos seus principais álbuns, o disco Brasil, gravado em junho de 1989, pela gravadora Eldorado. A banda inicia uma série de shows pelo País tocando o disco na íntegra.

Nos últimos meses, todas as tardes de quarta-feira são dedicadas a relembrar as 18 canções do trabalho. O quarteto ensaia em um pequeno estúdio na Vila Monumento. O vocalista João Francisco Benedan, o João Gordo, o guitarrista João Carlos Molina Esteves, o Jão, o baterista Mauricio Fernandes, o Boka, e o baixista Paulo Sangiorgio, o Juninho, revisitam algumas das músicas desse álbum histórico, que estavam fora de seu setlist, e de quebra aproveitam para iniciar o processo de composição para um futuro disco. 

O espaço simples, de propriedade do baixista Juninho, mantém o espírito punk da década de 1980, dos primeiros anos do grupo. “A gente ensaiava todos os dias, o dia inteiro, nos fundos de uma casa meio abandonada, que alugamos de uma mulher lá na Vila Piauí. Enchemos as paredes de bandejas de ovos, para abafar o som. Bem precário”, lembra João Carlos, referindo-se ao bairro periférico da zona norte, onde a banda surgiu, em 1981. Isso antes de embarcarem para a Alemanha, país onde foi gravado o disco. “Foi um presente que a gravadora quis dar para nós”, diz João Gordo. Foram 25 dias morando em um apartamento ao lado do estúdio. Uma verdadeira imersão que resultou em um álbum de sonoridade única, pioneiro no gênero crossover no País, estilo que reúne elementos do punk-rock com o heavy metal. 

Mirando o mercado externo, o grupo lançou duas versões, uma cantada em português e a outra em inglês. “Se hoje em dia eu sou tosco em inglês, imagina naquela época”, diverte-se João Gordo. Foi contratado um tradutor que auxiliava o vocalista na ingrata tarefa de verter e cantar as letras em inglês. 

O disco teve acabamento esmerado, com capa desenhada pelo quadrinista Marcatti (leia mais abaixo). No centro da ilustração, a perspectiva de um campo de futebol. Nele, um rapaz de roupas rasgadas e dentes estragados segura uma bola. Nos cantos do quadrado, toda sorte de misérias é representada. Violência policial, desigualdade social, favelas e corrupção. Florestas em chamas... “A principal motivação de continuarmos a tocar as músicas desse disco é a atualidade das letras”, afirma o letrista e vocalista. “Algumas músicas estão mais atuais agora”, acrescentou. 

Entrevista

"Infelizmente nada mudou em décadas", Francisco Marcatti, 56 anos, quadrinista do álbum Brasil, fala de sua história com o grupo.

Como você conheceu a banda?

Fazia meus gibis, todos impressos na minha casa e vendia alguns na Galeria do Rock. Conheci todo o universo underground de bandas como Olho Seco, muito antes da galeria virar “o shopping do rock”. Certo dia, o João Gord0 veio me procurar dizendo que queria fazer uma parceria comigo. Desenhar a capa, a contracapa e o encarte do álbum Brasil. 

Como foi o processo criativo?

Trabalhávamos juntos no escritório da gravadora Eldorado. Passamos três ou quatro tardes inteiras fazendo esboços e nos divertindo muito. Ele trazia as ideias e eu ia criando os desenhos. Sempre tive aversão a capas de discos com muitos elementos, sem um que se destacasse, foi aí então que sugeri colocar o jogador de dentes podres bem no centro do quadro, com cores que remetiam à bandeira brasileira.

Qual a importância atual do álbum?

Nada mudou em décadas. Parafraseando Victor Hugo: “Enquanto houver miséria esse disco é imprescindível”.

 

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