Raridades da MPB em voz, violão e novas duplas

Só voz e violão. Às vezes não é preciso mais do que a fina sintonia entre esses dois instrumentos para se realizar discos dos mais dignos. O risco de se repetir ou ficar a dever, porém, vem na mesma proporção. As cantoras Jussara Silveira e Luciana Souza enfrentam o desafio de gravar álbuns inteiros nesse formato, como outros intérpretes já realizaram (bem ou não). Por vários motivos, elas se situam confortavelmente no pólo positivo. A exuberância vocal, o bom gosto e a precisão na escolha do repertório e dos parceiros estão entre suas qualidades. Propício a ressaltar detalhes, o formato despojado tende a privilegiar a voz, mas não é o caso. Como Ná Ozzetti fez em 2005 com o pianista André Mehmari, o encontro de Jussara e Luiz Brasil em Nobreza (Maianga Discos) é marcado pelo mútuo entendimento íntimo. Não se trata de um músico acompanhando uma cantora, mas um envolvendo o registro do outro. Resultado semelhante obtém Luciana em Duos II (Universal), no qual conta com Romero Lubambo, Marco Pereira, Swami Jr. e Guilherme Monteiro se alternando, sempre um de cada vez, nas 12 faixas do CD. São daqueles discos cheios de nuances, que vão se revelando mais claras a cada audição. Mestre-sala e porta-bandeiraPara compensar a ausência quase total de canções inéditas, as cantoras tiveram o cuidado de montar repertório em que os clássicos pesam menos do que as raridades. Outro ponto comum entre elas é a diversidade de gêneros (samba, choro, modinha, baião, tango), com os violões, entre harmônicos e percussivos, em trânsito livre pelo jazz. Mestre-sala e porta-bandeira. É nas duas figuras mais nobres entre os passistas das escolas de samba que Jussara e Brasil se espelham para celebrar longos anos de amizade e parceria musical. "O foco em geral está sempre no cantor porque é simples, todo mundo canta. O violão de Luiz se valoriza nesse disco porque a idéia é de que um ampare o outro, como o mestre-sala e a porta-bandeira", diz Jussara. A elegância que permeia o trabalho também alude a isso. Ela escolheu Nobreza (Djavan) para abrir o CD, seguida de Os Passistas (esquecida canção do álbum Livro, de Caetano Veloso). Ludo Real (Vinícius Cantuária/Chico Buarque), que ela já havia gravado no primeiro CD (hoje fora de catálogo).O roteiro tem bloco de sambas antigos - Rosa Maria (Aníbal Silva/Éden Silva), Cara Limpa (Paulo Vanzolini) -, tango russo (O Sol Enganador), canções do paulista José Miguel Wisnik (Efeito Samba e Baião de Quatro Toques), com quem Jussara já cantou, seus conterrâneos baianos Carlinhos Brown (Argila) e Dodô, Osmar e Moraes Moreira (Pombo Correio), dor-de-cotovelo do gaúcho Lupicínio Rodrigues (Quem Há de Dizer), uma linda versão para Moonlight Serenade, de Glenn Miller, com letra de Nara Leão. Um dos melhores momentos do duo é Eu Vou te Esquecer (Beto Pellegrino e Ariston), única faixa em que Brasil toca violão de 12 cordas e faz um solo arrebatador. Ele já tocou com Caetano, Cássia Eller, Gal Costa, Maria Bethânia. Luciana, três indicações ao GrammyAos 39 anos, morando e trabalhando nos Estados Unidos desde 1985, Luciana chega à maturidade cantando melhor do que nunca. É notável sua evolução de Brazilian Duos (2002) para este segundo volume. "Além de ter feito muitas aulas, me sinto cantando com mais liberdade. Mas além do suporte técnico, hoje tenho mais interesse pela palavra", diz ela. Indicada ao Grammy três vezes, inclusive por este CD, Luciana foi eleita melhor cantora de jazz em 2005 pela Associação de Críticos de Jazz. Se Jussara enfrenta comparações com Gal Costa, a distância do Brasil deixa Luciana mais à vontade para se apropriar do repertório de outras grandes cantoras, como Maria Bethânia e Elis Regina (1945-1982), a quem cresceu ouvindo. Suas versões para Sai Dessa (Nathan Marques & Ana Terra), Modinha (Tom Jobim/Vinicius de Moraes) e Atrás da Porta (Francis Hime/Chico Buarque) sobrevivem a confrontos com as originais porque Luciana também imprime personalidade. Sua versão para Aparecida (Ivan Lins/Maurício Tapajós) difere muito do registro de Ivan. Como Jussara, ela enobrece clássicos do samba - Nos Horizontes do Mundo" (Paulinho da Viola), A Flor e o Espinho/Juízo Final (Nelson Cavaquinho) - e recupera uma raridade de Caetano Veloso (No Carnaval, com Jota). Seu padrinho musical Hermeto Pascoal é homenageado em Chorinho pra Ele, uma das duas faixas em que Luciana faz só vocalise e scat singing, de maneira lúdica, dando um banho de suingue e improviso. A outra é Sambadalú, que Marco Pereira compôs para ela. Só falta agora algum produtor se dignar a trazê-la para shows na terra natal. As parcerias de Hermeto, Viáfora e SacramentoJá virou lugar-comum essa história de gente de música se misturar com qualquer um para compor ou gravar participações em CDs. Os equívocos se sucedem, mas novas parcerias podem resultar estimulantes. É o caso de três trabalhos distintos, lançados recentemente: Chimarrão com Rapadura (independente), de Hermeto Pascoal e Aline Morena; Nossas Canções (Jam Music/EMI), de Celso Viáfora e Ivan Lins; e Fossa Nova (Olho do Tempo), de Marcos Sacramento e Carlos Fuchs.Em Chimarrão com Rapadura, a gaúcha Aline atua como aplicada aprendiz do feiticeiro alagoano Hermeto. O bruxo continua a expandir seu conceito de música universal e une as pontas de um Brasil festeiro com muita improvisação, diversidade rítmica e senso de humor lúdico. Hermeto, além de tocar uma infinidade de instrumentos (viola, escaleta, zabumba, piano e até brinquedos com sons de animais), assina música, letra e arranjo da maioria das 19 faixas. Uma delas, Aline Frevando, é homenagem a sua prenda, que não fica atrás na variedade de funções, além de cantar em Mistura do Brasil Moderno, combinando viola caipira, balde, garfo e faca. Isto não é novidade quando se trata de Hermeto, mas ainda assim até provoca um certo estranhamento. E esse não é o único do longo e festivo CD. Do lado oposto ao de Hermeto, o carioca Marcos Sacramento - que vem de um ótimo álbum de releituras de clássicos (Memorável Samba, 2003) - mergulha na introspecção em Fossa Nova. Cantor de grandes qualidades, ele assina 11 das 12 faixas do CD em parceria com o pianista Carlos Fuchs, igualmente talentoso, que o acompanha. Mas nem por isso o disco, um tanto monótono, renova a velha fossa, como sugere o título. Nelson Cavaquinho e Maysa são referências em temas de samba, canção e choro que abrigam versos como "Te digo adeus/ E brindo à solidão" e "Tenho fumaça dentro de mim/E o estopim está frio" (de Brinde ao Desejo). Bom de letra e melodia, violão e ritmo, o paulista Celso Viáfora junta forças com o carioca Ivan Lins. E é notável a fusão dos estilos de ambos em Nossas Canções, ao transitar entre gêneros compatíveis. A nostálgica Encontro dos Rios e o samba Diplomação (com participação do MPB-4) estão entre as que melhor sintetizam a parceria. Em várias faixas eles também dividem os vocais, mas Viáfora lidera a função. A variedade de arranjadores (além da dupla, tem Sacha Ambach, Ivan Paulo, Amilson Godoy e outros) cria contrastes desnecessários, mas embora algumas esporádicas texturas eletrônicas sejam dispensáveis, a unidade não chega a ser comprometida. As canções têm autonomia e quem admira Ivan tem bons motivos para se dar bem com Viáfora - e vice-versa.

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