Raras gravações de raras obras de Tom Jobim

Tributos a Tom Jobim existem às dezenas, alguns bons, outros ruins, alguns meramente oportunistas, outros que deturpam a linguagem original da obra. O melhor tributo já lançado é o Songbook Tom Jobim, produzido por Almir Chediak, com supervisão do maestro, que reviu partituras, acertou enganos desses que vão sendo cometidos, depois repetidos e acabam substituindo o que era o certo. Obras RarasA gravadora Revivendo encontrou uma forma interessante, digna, importante de, ao mesmo tempo, homenagear Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim e ensinar mais sobre ele. Recolheu num álbum triplo 76 gravações pouco conhecidas da obra, e obras pouco conhecidas da vasta produção jobiniana. Raros Compassos cumpre outras funções. Evidencia a variedade de intérpretes, dedicados aos mais vários estilos, que registrou a música de Tom, de Vicente Celestino (que, em 1959, acompanhado pela Orquestra RC Victor, gravou Se Todos Fossem Iguais a Você, num registro curiosamente contido) a uma dupla caipira - pouco se sabe dela - de nome engraçado, Mara e Cota, que gravou apenas um disco, de 78 rotações por minuto. De um lado, Eu Sei Que Vou te Amar; do outro, Eu não Existo sem Você, mudando harmonia, melodia, andamento. Ficaram título e autoria. Não, não é bonita, a gravação de Mara e Cota. O texto de apresentação do volume fala em "suposta dupla caipira", o que pode insinuar uma brincadeira. HistóriaMas não é só de beleza que trata Raros Compassos. Faz história, como vêm fazendo os lançamentos da pequena gravadora Revivendo, comandada, de Curitiba, pelo intrépido pernambucano Leon Barg. A revivendo é uma empresa familiar. Leon a comanda, tendo a filha Lilian como assistente de produção e outra filha, Laís, que, de São Paulo, cuida da divulgação. Em 13 anos de funcionamento, a Revivendo lançou (contados esses três novos volumes dedicados à obra de Tom) nada menos que 114 discos, quase sempre resgate de 78 rotações que, tratados, remasterizados, viram CDs. A maior parte, coisa que estava perdida, vozes de Chico Alves, Vicente Celestino, os 18 incríveis volumes de A História do Carnaval, Trio de Ouro, Paraguassu, Gastão Lamounier, Cartola, Déo Rian, Noel Rosa, Luís Vieira e muito mais. Primeiros passosA Jobim, a Revivendo havia dedicado outro disco, Meus Primeiros Passos e Compassos, com gravações dele mesmo, como músico e arranjador, que estavam espalhadas por inúmeros discos. Tom, vale a pena lembrar, começou a obter sucesso, em 1953, quando compôs, com Billy Branco, o grande sucesso pré-bossa nova, e precursor dela, Tereza da Praia. A coleção tem curiosidades sem fim, como um sóbrio Cauby Peixoto, acompanhado pelo próprio Tom, num disco da Som Livre, de 1980, cantando Oficina, samba totalmente desconhecido, letra e música do maestro, que talvez não tenha tido outra gravação. Ou a desencontrada gravação de ??? Luely Figueiró para A Felicidade, feita em 1959. A produção recolheu, por sinal, várias músicas que, ressalvado algum engano - a discografia é muito, muito vasta - não mereceram outras regravações do que as constantes dos três volumes: Acho Que Sim(com Billy Blanco, na voz de Elza Soares, 1961), Coffee Delight (com Leo Peracchi, que também gravou Latin Manhattan), Domingo Sincopado (com Edu da Gaita), Frase Perdida (com Ernani Filho), Não Devo Sonhar (a única parceria de Tom com a irmã, Helena Jobim, na voz de Ângela Maria; não há data de lançamento no rótulo do disco original), Maria da Graça (com Renato Paiva) e outras mais. Quem, mesmo?Há outras curiosidades - a gravação de - quem? - Dorinha Freitas para Porque Tinha de Ser, obra-prima de Tom e Vinícius de Morais levada em ritmo de bolero, com direito a congas e sugestão de trompetes mariachis. Herrivelto Martins gravou A Felicidade com jeito de música de carnaval, como Marisa Gata Mansa fez com Chega de Saudade, acompanhada por Moacyr Silva. Além de tudo, a Revivendo conseguiu resgatar - e aqui é resgate mesmo, a palavra - a gravação de Tom pra Derradeira Primavera e Valsa Porto das Caixas, tirando a música diretamente da banda sonora do filme Porto das Caixas, de Paulo Cezar Saraceni. Essa gravação nunca havia chegado ao disco.

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