Assis176 e Bruna Serralha/176studio
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Rapper mineiro Djonga prova a si mesmo com o disco 'Ladrão'

Terceiro álbum da carreira se insere no contexto sociocultural com os versos afiados e a produção simples para marcar o território do MC

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

21 de março de 2019 | 03h00

A primeira faixa do novo disco do rapper mineiro Djonga é Hat-trick – a denominação para quando um jogador marca três gols no mesmo jogo. Pois Ladrão é o terceiro gol de Djonga, um golaço, depois de Heresia (2017) e O Menino Que Queria Ser Deus (2018). O novo álbum foi lançado no dia 13 de março (como os outros dois), e consolida o lugar de Gustavo Pereira Marques, de 24 anos, perto do topo do rap nacional. Em sete dias, o disco passou das 10 milhões de visualizações só no Youtube.

Se no primeiro disco ele se apresentou com um flow gritado marcante e letras com forte pegada antirracismo e por justiça social, no segundo expandiu possibilidades ao acrescentar elementos de canção e desenvolver oportunidades temáticas, como a da paternidade – quem o segue no Instagram consegue acompanhar sua convivência dedicada com o filho Jorge, prestes a completar 2 anos.

No terceiro disco, Djonga une as duas experiências mas vai além ao apresentar novas dinâmicas de flow e uma mensagem ainda mais direta: “Me diz a fórmula pro tal sucesso, já que talento não garante view / Ao menos seja verdadeiro / O mais perto que cês chegaram do morro / É no Palco Favela do Rock in Rio”, diz na faixa título.

Numa ligação por telefone em que ele e o produtor negociavam uma corrida de táxi de Confins a Belo Horizonte, Djonga explicou como o Ladrão surgiu.

“O Ladrão aconteceu. Ele foi produzido mais rápido do que o disco anterior. Só que ele foi sendo pensado diante do contexto do ano passado, a eleição, todas as coisas que estavam de um outro jeito no campo político, uma tensão gigante. Por isso pensamos em fazer os beats e instrumentais mais crus, por uma posição política.” O disco tem produção de CoyoteBeats e foi mixado por Arhur Luna, como os dois anteriores. 

“No momento sociocultural por que passamos, principalmente na música negra, a galera tenta se apropriar. No rap, isso acontece quando os caras mais hipsters colocam muitos instrumentos nas faixas, fazem um trampo ‘musical’ e ganham elogios. Tentei ir na contra mão disso, porque o disco é o contrário. Quero falar de apropriação de modo geral, de resgate do hip hop. Não digo que nunca vá fazer isso (colocar mais instrumentos), mas nunca simplesmente para agradar, esse não é meu jeito de pensar”, explica.

A coprodução do novo álbum é assinada por Thiago Braga, responsável também pelo estúdio Toca. O novo espaço onde Djonga gravou foi construído numa “casinha” onde sua vó morou no passado quando chegou à BH sozinha com as três filhas (ela ainda vive no mesmo lote) – é a avó a personagem principal da poderosa faixa Bença, na qual Djonga desfila versos sobre as próprias origens. “Teve que costurar um mundo de trauma, abdicação, luta / Pra hoje falar com orgulho que essa família não tem vagabundo.”

Ladrão foi o primeiro trabalho gravado no novo estúdio, que agora passa a receber novos trabalhos (Djonga cita Doug Now, MC que participa do Ladrão, e o grupo Rosa Neon). Outro aspecto interessante da trajetória do rapper é o espaço que ele abre para novos artistas que lhe são próximos com participações: além de Doug, MC Kaio e Chris MC estão no novo disco.

Quem quiser conferir como as novas faixas vão funcionar no palco (espaço que Djonga já provou dominar, também), pelo menos três shows já estão marcados: em Belo Horizonte (21/4, Km de Vantagens Hall), São Paulo (26/4, na Audio) e Ribeirão Preto (15/6, João Rock).

DJONGA

Audio. Av. Francisco Matarazzo, 694, Barra Funda, São Paulo, SP. (11) 3862-8279. Sexta-feira, 26/4, 22h. R$ 60 / R$ 30.

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