Joana Diniz
Joana Diniz

Rapper Matéria Prima se abre para a observação no canto e na rima no disco '2 Atos'

Álbum foi produzido por Gui Amabis

Pedro Antunes , O Estado de S.Paulo

19 Dezembro 2017 | 06h01

Em um papo com Emicida, no mês passado, o rapper paulistano listava a dificuldade de se manter atualizado com todos os lançamentos ligados ao hip-hop de 2017. “Ouviu o disco do Matéria Prima?”, pergunto. “Pô, para ouvir o álbum do Matéria Prima é preciso tempo”, respondeu Emicida. O papo era sobre 2 Atos, o álbum de estreia de Thiago Augusto, o nome de batismo do rapper mineiro, lançado há pouco, com a produção de Gui Amabis

O tempo. A contemplação. O primeiro é um conceito abstrato. O segundo, um substantivo feminino que só existe se houver o outro. E 2 Atos é sobre a contemplação. Para entendê-lo na sua plenitude, o tempo é amigo. O álbum, a estreia de um rapper que não é nenhum novato, é a respeito do observar. 

Thiago é, além de rimador e cantor, alguém que encontra a arte em examinar aquilo que está ao redor. A conta dele no Instagram (@materiap) é amostra do exercício de encontrar a beleza no que já está ali, no próximo, no detalhe, no sem-número de janelas de uma paisagem – cada uma conta uma história, afinal. Recentemente, Thiago deixou de usar o celular para os cliques e passou a usar uma câmera profissional. “Mas ainda é um exercício despretensioso”, explica ele. 

Tudo tem seu tempo. Enquanto fala com o Estado por telefone, já de volta a Belo Horizonte depois uma passagem por São Paulo em outubro, para o lançamento de 2 Atos no Centro Cultural São Paulo, Thiago prepara uma limonada para si. “Celular do Matéria Prima, boa tarde?”, diz, jocoso, ao atender, antes de deixar explodir uma risada ruidosa. Já sério, ele entende que seu processo de criação, a partir da observação das questões que afetam as pessoas ao redor, é um ponto fora da curva do rap nacional tradicional. 

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“Eu fui entendendo, ao longo do processo do 2 Atos, que essa observação se tornou mais presente. No rap, temos essa coisa primária de olhar para si”, conta. “Ali (no álbum), tive a chance de sair um pouco desse processo e derramar outro olhar sobre o cotidiano. É o que prefiro, inclusive, no rap. Prefiro olhar para os outros, para o horizonte, do que olhar para si. Quem olha para cima, não vê o que tem dos lados.” 

Ex-integrante do fundamental grupo Quinto Andar e do Subsolo, Thiago começou a entender seu papel na música quando se juntou ao Zimun, um quinteto que injeta brasilidades ao afro-beat e ao jazz. Também lançou dois EPs, Material de Estudo (2013) e Pocas (2016). 

Inquieto e, contraditoriamente, ansioso para lançar músicas e discos à medida que os grava, já colocou na praça um compacto de um projeto chamado Tetriz, cujo EP, chamado Primeira Fase, já está disponível no YouTube – o Tetriz é formado pelos MCs Matéria Prima e Ramiro Mart, e os beats ficam a cargo do produtor Goribeatzz.

O 2 Atos, contudo, é o (maiúsculo) trabalho do ano. É nele que Thiago Matéria Prima se coloca para criar fora da caixinha do hip-hop. “Integrar o Zimun me ajudou a ter um olhar para uma musicalidade, como um exercício, mesmo”, conta. Gui Amabis, a quem ele não conhecia pessoalmente até a gravação desse disco, é um produtor de primeiro quilate – tem uma discografia sólida (ouça Trabalhos Carnívoros, o segundo solo dele, de 2012, por exemplo) – e é dono de uma capacidade de criar temas, atmosferas, cores e quenturas. 

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Nesse ambiente, Matéria Prima e Amabis se complementam. No seu observar, o rapper/cantor encontra poesia no concreto, na dureza do cotidiano, nos olhares densos e tristes, nas arquiteturas tortas. Com o auxílio do produtor, ele cria um disco que funciona como um álbum de fotografias dividido em duas partes, como o título indica. O primeiro ato, mais suave no ímpeto, tem o canto como a principal arma de Matéria Prima, em um exercício de amansar a convulsão de palavras do rap. No segundo ato, iniciado a partir da sexta faixa, chamada Sufoco, ele abre a sessão mais rimada do álbum. 

O 2 Atos é um disco, mas também poderia ser um convite para um café, um papo, como se Matéria Prima buscasse ouvir o outro. A partir de Visita Onírica, música que abre o álbum, o rapper se mostra aberto ao diálogo. Convida, nesse sonho, para que o outro não vá embora. “Te recebo em casa / Te ofereço água / E te peço pra ficar / Vamos lá pra sala / Abre o peito e fala / Como a vida anda por lá / Fica a vontade / Saio só mais tarde”, diz a música, tão aconchegante quanto descansar em um sofá macio na casa de um amigo. E, para isso, é preciso de tempo. Emicida estava certo. 

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