Valéria Gonçalves/AE
Valéria Gonçalves/AE

Rapper Emicida se sente parte da tradição do samba

Com seu flow (grosso modo, a fluência como rima) e sua cadência, ele se diferencia no cenário nacional

Guilherme Werneck, do estadao.com.br,

26 de março de 2010 | 22h14

O que faz o rapper Emicida se diferenciar tanto no cenário nacional é justamente seu flow (grosso modo, a fluência como rima) e sua cadência, burilada em anos de batalhas de MCs, também chamadas de "rinhas". E também porque tem um discurso bem mais feliz e positivo, sem nenhuma ingenuidade. De onde vem essa visão? Basicamente, Emicida se sente parte de uma tradição de música popular inaugurada com o samba e não descarta suas origens em favor da música americana.

 

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A reportagem do Estado esteve com o rapper em sua casa no Tucuruvi, para falar de seus discos de vinil preferidos, mas no meio do caminho, também tratou de sua criação, das batalhas, e de como a música colocou sua vida nos eixos a ponto de conseguir convencer seu irmão Evandro a deixar de ser gerente do McDonald's, com salário e plano de saúde, para se tornar empresário musical. Um decisão que acabou se provando acertada. Leia os principais trechos da entrevista.

 

Você tem uma relação com disco de vinil desde a infância, não é? Seus pais faziam baile?

Eles faziam baile, e eu sempre vi isso. Agora está chique (mostra a estante de discos), mas antes eram aquelas caixas de engradados de cerveja cheias de discos e eu ficava olhando aquilo lá. Quando ia mexer na parada tomava uns sopapos. Moleque,né?

 

Onde você compra discos?

Em vários lugares, tem um sebo muito bom aqui pertinho, ali na avenida Mazzei. O cara tem muitos discos, muitas coisas boas. Ele é dono de outros sebos, então às vezes ele não tem aqui, eu peço pra ele e ele traz. E tem vários HQs também.

 

Você curte quadrinhos?

Talvez até mais do que música.

 

Já chegou a desenhar?

Eu trabalhava como ilustrador...

 

Achei que você trabalhava no estúdio, como dublador...

Fui também.

 

A primeira vez que você viu um estúdio de verdade foi fazendo dublagem?

Foi, mas eu era muito bicho do mato, sempre com a cara fechada. Acho que era porque eu ouvia rap e imitava sempre os rappers com aquela cara de mau. Maior bobagem porque em vez de participar da parada, eu ficava lá, num canto, fechadão. Foi um tempo até eu me relacionar com os caras. Mas aí o Felipão (Felipe Vassão, produtor) viu que tinha alguma coisa em mim e começou a trocar umas ideias. E eu acabei indo fazer um estágio no estúdio, ganhava condução e um rango.

 

Onde é o laboratório fantasma, em que você grava seus discos caseiros?

Foi num apartamento aqui, agora as máquinas estão na casa do meu irmão (o empresário Evandro) e a gente vai transferir para um estúdio em Santana. Conseguimos um apartamento lá com aluguel baratinho. Até que enfim vamos ter uma pequena empresa. O apartamento está bem fantasma mesmo, tem a fiação de 1940. Um adesivo mostra última vez em que a Eletropaulo foi lá: 1969. Tem que trocar toda a fiação para entrar com os equipamentos eletrônicos.

 

E quais são os seus equipamentos?

Tenho uma MPC, que está com mau contato e vou levá-la pro conserto. É a segunda versão do primeiro modelo, uma MPC 60, acho que só eu e um cara de Porto Alegre temos esse modelo no Brasil. Ela tem um timbre bom, várias coisas legais. Meus primeiros trabalhos eu fiz com ela. Era só uma MPC, um toca-discos e um mixer com apenas um canal funcionando. É louco porque os gringos têm um estúdios super bons, mas quando vão tirar fotos para a contra capa dos discos é só um toca-discos e uma MPC. Eu demorei pra entender por que a minha produção não ficava igual à dos caras. Ficava me cobrando, falando "Preciso aprender mais". [Risos]

 

 

Mas os discos que você faz vedem bem...

Vendo uns 300 discos em um show. Já vendi 11 mil. Vendo a R$ 2. Aprendi isso com os gringos. Se eu for vender a mixtape pelo mesmo preço do disco oficial que está por vir, não tem uma diferença. E são produtos totalmente diferentes.

 

E já está em produção o disco oficial?

Na verdade vai sair outra mixtape antes. Mas vou partir para as cabeças mesmo agora.

 

E quem vai fazer o disco?

Eu mesmo. Eu fui abordado por algumas gravadoras, mas os contratos não valiam. Não tem nenhuma contrapartida a meu favor. Eu acredito que a parte mais difícil eu já fiz que era aparecer, tá ligado? Agora está no momento de fazer a coisa crescer, e os caras aparecem de forma muito gananciosa. Eu acredito que não vale a pena, principalmente neste momento que eu estou vivendo, com toda a história que eu tenho. Seria um disco que teria um lançamento normal e ia acabar empoeirando nas prateleiras. Se eu cuido dele, será especial.

 

Você é afim de fazer vinil?

Estou fazendo. Já até levei as músicas para o estúdio, falta só masterizar agora. Já tá tudo encaminhado.

 

E você vai usar lei de incentivo?

Não trabalho com lei, com edital. Sempre vejo editais e acabo não entrando. Nos mais gerais, acho que não tenho chance. E quando abrem os editais de rap, tem um valor esquisito de achar que rap é um partido político. Então sempre acabam contemplando trabalho social, aquele discurso padrão do rap.

 

E uma coisa interessante no seu trabalho é justamente a vontade de romper com esse discurso, não?

Sim. A rapaziada já está de saco cheio, é um discurso que não dá. Eu não posso falar de favela, de nada. Eu morava em um bairro extremamente distante, o Cachoeira, e a minha mãe trabalhava de empregada aqui (no Tucuruvi). Morei minha vida inteira lá e vim para cá há uns 4 anos. Vou falar do que?

 

E a história de que você passou fome?

Teve uma fase ruim para caramba na minha vida que foi quando meu pai faleceu. Meu pai não era muito presente. Era maluco porque ele não trabalhava mas era bem engraçado. E muitas vezes o fato de ele ser engraçado compensava o de ele nunca ter grana. Uma vez, ele ia trabalhar numa pedreira lá onde os Mamonas Assassinas morreram, a gente morava lá perto. Ele era vagabundo e não foi. Nesse dia a pedreira desabou e matou um monte de gente. Aí ele achou que estava certo e ficou vivendo de bico o resto da vida. Quando ele faleceu, minha mãe estava sem emprego. Foi a pior fase mesmo, sem grana. A gente não tinha para onde ir. Eu, minha mãe e meus três irmãos ficamos morando num porão. A gente viveu anos naquele porão.

 

Sem perspectiva?

Num primeiro momento você acha que aquilo não tem fim, que você está condenado a viver daquela forma e passa a acreditar que vai ser assim para sempre. Mas hoje eu vejo foi uma fase, como se fosse uma provação. Sou artista. Você vê uma coisa hoje que parece um labirinto, mas daqui a cinco anos vê de uma forma totalmente positiva. Foi importante ter tido e depois ter perdido algumas coisas para aprender a me virar sem elas.

 

Quando criança, você cantava rap sozinho, mesmo sem som, imaginando o som?

Isso acontecia mais com quadrinhos. Eu queria comprar quadrinhos, mas não tinha grana. Comprava uma revista do Batman e ficava bravo porque a história nunca terminava. Era sempre aquele "continua na próxima edição...". Só que eu comprava a revista usada, no sebo, não tinha próxima edição. Então eu inventava a continuação da história, desenhava tudo numas folhas de caderno.

 

'Eu gostava de música, mas no começo nem sabia que se vendia disco'. Foto: Claylton de Sousa/AE

 

Fez o mesmo com música?

Quando eu comecei a cantar era a mesma coisa. Eu gostava de música, mas no começo nem sabia que se vendia disco, não sabia como o disco aparecia em casa. E aí eu comecei a fazer minhas músicas. Meu padrasto tinha um gravadorzinho da Sony e eu comecei a gravar a minha voz nele. Fazia as músicas para mim. Tinha fitas cassete para caramba. Gravava as da minha irmã. Dava briga porque eu pegava todas as fitas da Xuxa e gravava por cima [risos].

 

E como você começou a se interessar por rap?

Primeiro eu tinha uma relação legal com o baile dos meus pais. Eles tocavam funk e soul, James Brown, um Manhattan, essa coisa mais romântica. Mas tinha Miami bass também e até umas coisas do Rio. E começava alguma coisa de rap nacional também. Não me lembro de ouvir os gringos. O primeiro rap que eu escutei que bateu mesmo foi Pepeu, com Nomes de Meninas. Isso em 89, 90. Depois veio Racionais, que no começo abria os shows para o Pepeu.

 

E como você começou com as batalhas?

Naturalmente. Eu falava pra minha mãe para meu trabalho era humilhar as pessoas. Eu dizia que eu ia lá, xingava todo mundo e voltava de manhãzinha. Ela não entendia, porque para ela, o que eu fazia era sair de noite e passar a madrugada fora.

 

E você se divertia xingando todo mundo?

Eu me divirto demais. Não tenho feito mais porque tem uma molecada fazendo agora que está meio preguiçosa, com rimas fáceis. As pessoas veem um caminho que deu certo e querem fazer todas a mesma coisa. Na época que eu batalhava, as pessoas que viam filmavam e colocavam no YouTube, e aí elas começaram a se espalhar. Quando eu fui ver, tinha um milhão de views. E nessa época eu não tinha nem internet em casa. Não tinha ideia de que a coisa estava rolando nessa grandeza. As pessoas começavam a me parar na rua, a tirar foto. Eu não tinha ideia de por que isso acontecia ou que o YouTube existia até que um amigo falou: "Estava contando e você tem mais de um milhão de views". Eu não sabia o que era isso, mas um milhão de qualquer coisa é coisa séria.[risos] Foi aí que a gente se juntou e lançou a Triunfo [primeiro single do Emicida]. Foi a primeira vez que eu entrei num estúdio, troquei uma ideia e produzi alguma coisa.

 

Mas já tinham outras músicas antes na web?

Antes tinham vazado músicas para a internet, mas era música que eu tinha feito na MPC aqui em casa ou gravado na garagem de um camarada da Vila Madalena que tinha um microfone. Música mesmo, de estúdio, eu não tinha feito nada. Só as paradas de dublagem.

 

E como você começou a comprar vinil?

Comecei comprando discos de batida e quando eu vi já estava gastando todo o meu dinheiro no sebo. Comprei muita coisa boa por R$ 1. Antes eu comprava disco para samplear, para picotar mesmo. Hoje eu nem picoto mais, prefiro ouvir Djavan e dar continuidade de alguma forma para a música. Eu acho que falta continuísmo na música. Se você ligar o rádio agora não ouve uma banda que tem mais de cinco anos. Parece que a gente não tem história. Tenho um respeito enorme pelo Djavan, Caetano Veloso, Gilberto Gil. Mas essa geração não sabe quem é. Nos Estados Unidos, eu vejo que é diferente. Como eles vendem bem qualquer produto, sabem botar o Ray Charles em evidência. E vira um ciclo, todo mundo ganha dinheiro. Aqui Djavan já era. Lá fora é diferente. Eles conseguem juntar os mundos, fazer Jay-Z com Jonas Brothers. E os dois deixam de ser vistos como inimigos. As pessoas são maiores que as modas, e o poder da música é emocionar as pessoas. As pessoas cantam na igreja por causa disso, os índios cantam nas tribos. É emoção. A música é maior que os últimos sucessos. É melhor quando a música aproxima, mesmo com propostas diferentes. Se eu me distanciar da Ivete Sangalo, nós dois perdemos. Se a gente ficar segmentando, ainda mais com a liberdade de hoje, só vai perder.

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