Rap e repente duelam no palco

O repente veio ao mundo sem saber que tinha irmão. Sozinho ganhou fama, nem questionou a razão. Certo dia ouviu do rap um desafio terrível. Se não rimasse como gênio, se vacilasse no improviso, seria mandado de volta ao mais penoso sertão: "Aí truta do norte, vem mostrar se é sangue bom. O desafio é rimar, deixar de ser vacilão. Se provar que é bom na rima, ganha aqui e agora o irmão." O repente topou o desafio e rimou tão bem que deixou o rap desnorteado. "É um negócio muito louco. Esses tiozinhos que fazem repente são uns eruditos. São muito mais desenvolvidos do que a gente. Somos mais limitados. Só temos que aprender com eles." A voz é de MC Gaspar, rapper líder do grupo Z´África Brasil. Os "tiozinhos" a que se refere são Sebastião Marinho e Verde Lins, velhos repentistas nordestinos. A lição que tiveram um dia com os "mestres" será reprisada em um encontro entre todos eles somente hoje, às 18h30, no Sesc Vila Mariana.A reunião de rappers e repentistas, que culmina em desafios de rimas entre os dois mundos, marcará o encerramento do Seminário Internacional Memória Rede e Mudança Social, concebido pelo Museu da Pessoa e Sesc São Paulo. Além dos revezamentos nos improvisos livres propostos pelos cantores, a platéia poderá sugerir ainda temas para os artistas criarem seus versos.Rap e repente vivem em corners opostos desde sempre e suas origens, ao contrário do que defendem algumas correntes sem bases históricas, têm as mesmas semelhanças que o samba e a ópera. O rap vem da Jamaica dos anos 70, quando os negros improvisavam com agilidade sobre reggaes e dubs. O estilo, ainda muito popular, ganhou o nome de raggamuffin. O repente, que entrou no Brasil via nordeste, nasceu nos castelos medievais da França. Seus praticantes queriam agradar os reis com uma espécie de desafio. Quem respondesse a pergunta do outro mais rápido era considerado o mais inteligente.As semelhanças são meras coincidências. Mas o fato de serem muitas torna possível a conversa entre o primo urbano, que fala sisudo das injustiças sociais nas favelas, e o primo do interior, que fala bem humorado sobre a vida nos sertões. "O rapper e o repentista, neste trabalho sensato, com ideais diferentes mostram da vida o retrato. Um vem com cheiro de cimento, o outro com cheiro de mato", improvisa em segundos o paraibano Sebastião Marinho. O romance entre as duas tradições orais não começou ontem. A dupla de rappers Thaíde e DJ Hum já convidou Chico Cesar para um rap embolada. Rappin Hood já armou rimas com os emboladores Caju e Castanha. E nenhum "cabra da periferia" ousou menosprezar os "manos do sertão".Rappers e repentistas. Hoje, às 18h30. Sesc Vila Mariana (Rua Pelotas, 141. Tel. 5080-3000). Entrada grátis.

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