Rap da paz do SP Funk ganha álbum de estréia

Mais um grupo de rap que está há tempos na estrada chega ao seu primeiro CD. Depois de participar de coletâneas e lançar algumas demos, o SP Funk, que já havia sido "descoberto" por Thaíde e DJ Hum, chega com O Lado B do Hip Hop, lançamento conjunto do selo da dupla, o Brava Gente, e a Trama. Um disco com faixas curtas, algo raro no gênero, e letras viajantes com metáforas sobre lendas medievais e países muçulmanos.O lançamento do álbum acontece hoje com um show do grupo no Blen Blen Brasil. Formado em 92 na Zona Oeste de São Paulo por Marcelo Mendonça, 25 anos, o Bomba, e Primo Preto - que hoje trabalha com Ice Blue, dos Racionais, na produtora Groove Brothers -, o SP Funk despontou em 95 com a canção O Retorno do Hip Hop, na coletânea Movimento de Rua. Mas foi em outra coletânea, Rima Forte, de 98, que fizeram barulho com a faixa Fúria de Titãs, uma auto-exaltação impulsionada pelo groove nervoso da música My Thang, sampleada do papa James Brown.Ela é a única das faixas antigas do grupo que entrou no CD e vale a audição. As outras 17 são inéditas. A formação atual do grupo conta com três MCs: Bomba, Tio Fresh e Maionese, mais o DJ Q.A.P. O quarteto se destaca pela forma como produz suas rimas, com frases mais longas. Algo parecido com o freestyle, modalidade do rap na qual os MCs fazem um duelo improvisado como no repente nordestino.Os temas da banda também são mais soltos, variam os assuntos na mesma canção. "Falamos de questões sociais, mas não queremos violência. O rap é música e aceita outras linhas, não é só a crônica da quebrada", diz Bomba. "Tem discos de rap que a gente ouve e sai carregado, nervoso. Nós queremos atingir as pessoas de outra forma." Escola na frente - No início da carreira, o grupo abriu vários shows para os Racionais e o Planet Hemp, com quem também divide as idéias sobre maconha. "Eu acho que a lei tem que ser abrandada para o usuário. Eu uso, mas se um garoto me perguntar, eu vou dizer: passa a escola na frente, vá estudar, fazer esporte. Maconha é como o álcool e o cigarro, o excesso faz mal."Tema menos espinhoso, mas também difícil, é o machismo. As mulheres devem ficar irritadas com algumas letras do grupo, como nas músicas Queda (cantada como "quer dar?") ou Legião Estrangeira (vou me refugiar num harém de pretas / odalisca me abanando, frutas na cesta / sheik sheik bumbum, eu gosto é de...). "Só dizemos o que todos têm vontade, mas não têm coragem", diz.Bomba não acha que o grupo irrite as mulheres que fazem rap. "Não é machismo, é só uma brincadeira. Esses tempos, fui jurado num concurso de rap e teve um grupo de garotas que botou os caras no bolso. Votei nelas e nós combinamos de produzir algo", diz.O Lado B do Hip Hop traz participações de gente como Thaíde, Kamau, Záfrica Brasil, RZO e Sabotage. Todos funcionam bem com exceção do cantor Bukassa, que participa da faixa Na Vida com uma vocalização duvidosa que deu um ar KLB à música. O grupo também peca ao não dar os créditos dos samples usados. Segundo Bomba, há músicas árabes, japonesas e até de trilhas sonoras de filmes westerns. Mas apesar das escorregadas, uma boa estréia.SP Funk, lançamento do CD O Lado B do Hip Hop (Trama/Brava Gente, cerca de R$ 20) - Blen Blen Brasil (Rua Inácio Pereira da Rocha, 520, tel.: 3815-4999). Hoje, à meia-noite. Ingresso: R$ 15.

Agencia Estado,

29 de agosto de 2001 | 11h41

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