Felipe Rau/AE
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Rafah, um carioca de 23 anos, vence o Prêmio Musique

Ele foi escolhido por Dinho como melhor parceiro entre 826 inscritos. E pode ir tocar no Rock in Rio

Júlio Maria, O Estado de S. Paulo

04 de dezembro de 2010 | 07h00

O garoto está em uma sala de cinema no Rio de Janeiro, aos sustos com o filme Jogos Mortais. O celular vibra e ele atende só pra dizer que não pode atender. Ouve que é de um jornal de São Paulo, sobre o prêmio que disputa com 827 inscritos do País todo. Primeiro, sussurra: "Oi, liga depois, agora não dá". "Espera, é que você ganhou o prêmio. Sua música foi escolhida a melhor." E aí a coisa fica bem confusa. Ele larga as sandálias na sala e corre descalço com o celular para o hall de entrada. Grita e tenta ouvir ao mesmo tempo. A plateia de funcionários e pessoas que estão na fila da próxima sessão espera pelo desfecho daquela cena ainda indecifrável. Assiste ao menino que recebe alguma notícia impactante no dia em que o Morro do Alemão é invadido pelo Exército, ali bem perto. "Gente, eu ganhei. Minha banda ganhou. Ganhou o prêmio." As pessoas o aplaudem e vibram, como se fosse um gol.

 

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Rafael Ferreira Neves, de 23 anos, moleque de Madureira, subúrbio do Rio, fez um gol mesmo. Sua música foi escolhida por Dinho Ouro Preto, vocalista do Capital Inicial, como a melhor da 3.ª edição do Musique. A letra inédita de Dinho, Alguém, ganhou parcerias do Brasil todo e de quatro países do exterior que se inscreveram no projeto. Os jurados primeiro escolheram quatro finalistas. E uma eleição online elegeu um quinto nome, que foi justamente o de Rafael, com quase 100 mil votos. Dinho fez sua escolha sem saber do resultado da votação online. O prêmio, além da gravação de um clipe com a produtora Jotaeme, a regravação da música no estúdio Mosh, com produção do renomado David Corcos, e o encontro com o ‘parceiro’, pode ser maior. Os vencedores das cinco edições do Musique, que serão realizadas até outubro de 2011, vão concorrer por meio de voto popular a um show no palco Sunset do Rock in Rio 3.

 

Antes de virar canção, a história de Rafael começa punk. Aos 14 anos, tudo ia bem em Madureira até que seu pai foi assassinado com três tiros. Rafael perdeu o chão e alguns tetos. Foi expulso de sete colégios e se trancou num mundo em que ninguém era bem-vindo. Quando um violão caiu em suas mãos, ele aprendeu cada nota sozinho, por força de uma necessidade de gritar a falta que sentia do velho. "Eu não queria falar com ninguém ao mesmo tempo em que queria gritar para o mundo." Aprendeu a tocar compondo. A primeira namorada veio na mesma época, um amor daqueles que leva o homem ao altar ou ao precipício. E lá foi ele, de novo, ao precipício. Os pais da menina acharam aquele grude amor demais e a afastaram do rapaz. Rafael entrou em depressão. Quando conseguia almoçar, parava de comer assim que as lágrimas que caíam no prato transformavam seu arroz em sopa. E, então, lá foi ele, de novo, ao violão.

 

O segundo deserto de Rafael começou a virar música e as dores de amor renderam quatro canções. Uma delas, Jardim, é um hit entre os seguidores: "Lágrimas são tudo que tenho pra regar o meu jardim. E as flores que crescem são frutos da tristeza que há em mim." Os amigos Guilherme Duarte (bateria), Juan Pinheiro (guitarra) e Estevão Paes (baixo) vieram e uma banda cheia de influências de Blink 182 e Green Day nasceu nos fundos da casa de número 292 na vizinhança de Madureira. O nome ficou F292. Estranho e desconhecido, sim, mas o conceito de sucesso a esses garotos já não é o mesmo dos artistas que mediam seus louros pela quantidade de vezes que apareciam no Domingão do Faustão.

 

 

Rafa, que já havia sido selecionado para participar do programa Ídolos, no SBT, tem suas maiores conquistas na internet. Com apenas dois anos e seis meses de vida, sem nenhum CD lançado ainda, o quarteto F292 está entre as dez bandas mais acessadas no site MySpace Brasil, conta com fã-clubes em 18 Estados, tem 10 mil amigos no Orkut e faz do Twitter sua metralhadora AK-47, com uma estratégia de guerrilha que rendeu a vitória na eleição online do Musique. Rafael, já convertido em Rafah, aparecia tocando no site de imagens Twitcam e logo depois conclamava. "Galera, vamos lá agora votar no site do Musique." E assim sua votação disparava. Evangélico, chegou a fazer uma oração aos fãs quando viu que conquistara a quinta vaga de finalista.

 

Ao receber a notícia do filho de que ele havia ganhado o prêmio e de que estava embarcando para São Paulo para se encontrar com Dinho na última terça-feira, a mãe de Rafah lhe deu os parabéns, saiu do quarto e voltou em seguida, pensativa. "Filho, você tem noção de que as coisas estão mudando pra você?" Rafah se emocionou. Chegou ao prédio do Estado como se fosse amigo de Dinho. Sua performance de Alguém, a música que o levou à vitória, está no portal do estadão.com.br e toca a partir de hoje na programação das rádios Eldorado AM e FM. Ao entrevistar Dinho para um programa na Eldorado AM, a apresentadora Cinthia Gomes quis saber que conselho o veterano dava ao aspira. O estúdio ficou em silêncio, com o mais velho falando enquanto secava os olhos do mais novo. "Cara, não se deixe embriagar. Tenha os pés no chão. Fique distante desse mundo de celebridades. Não falo como se fosse um pai ou um sábio, mas porque passei por tudo isso. Seja sempre o crítico mais severo do seu trabalho."

 

Maior que a encomenda

Os rapazes do F292, a banda de Rafah, vieram a São Paulo para gravar programas e dar entrevistas ao Grupo Estado na última terça. Mas Dinho se empolgou e sugeriu que o grupo fosse produzido por David Corcos, que trabalhou com o próprio Capital e com nomes como Planet Hemp, Marcelo D2 e Seu Jorge. E assim foi. Algumas horas no estúdio Mosh, um dos mais conceituados de São Paulo, e surgiu a ideia de uma participação do tecladista Robledo Silva, que também toca com o Capital. O arranjo pedia um violão, e lá veio o músico Lineu Andrade para o estúdio. A empresa Jotaeme fez o vídeo na tarde de quinta, dirigido por Paulo Correa, da Jotaeme. A faixa passa a ser executada a partir de hoje nas emissoras Eldorado. E vídeo está no portal do Estadão.

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