Acervo Estadão
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Rádio Eldorado guarda íntegra de maior show de Elis; ouça trechos

Gravação de Falso Brilhante, grandioso espetáculo apresentado pela cantora na década de 1970, está nos arquivos da emissora do Grupo Estado

Danilo Casaletti, Especial para o Estadão

16 de janeiro de 2022 | 05h00

Seguindo a pista de um antigo recorte de jornal o qual anunciava a apresentação na íntegra do show Falso Brilhante, protagonizado por Elis Regina (1945-1982) entre os anos de 1975 e 1977, pela Rádio Eldorado, a reportagem do Estadão entrou em contato com rádio a fim de saber se a gravação ainda estava em seu arquivo.

A resposta foi positiva. O registro de um dos mais importantes shows da carreira de Elis e do show business nacional, que ainda causa emocionadas recordações naqueles que o assistiram e curiosidade nos fãs mais recentes da cantora, está preservada em uma fita de rolo e em uma transcrição em digital. Um verdadeiro tesouro.

Nele, é possível ouvir, por exemplo, uma Elis que sabia a força e a quem eram endereçados os versos que Belchior escreveu em Como Nossos Pais, canção que ela lançou no palco do Teatro Bandeirantes, em São Paulo, no dia 17 de dezembro de 1975, quando fez a primeira apresentação de Falso Brilhante. Impossível ficar indiferente à sua interpretação. A angústia de toda uma geração está ali – e não à toa essa mensagem ressoa até os dias atuais.

Um pouco antes, Elis evoca seus tempos de crooner para interpretar um pot-pourri que trazia, entre outras, músicas como Olhos Verdes, Volare, La Puerta e Hymne a L'amour. Em outro momento, entoa Vencendo Vem Jesus (Battle Hymn of the Republic) como se seu canto tivesse sido moldado em uma igreja cristã norte-americana. Músicas da dupla João Bosco e Aldir Blanc, Chico Buarque, Ruy Guerra, Vinicius de Moraes e Caetano Veloso também estão no roteiro.

Restauração

“O que eu acho sobre isso? Bom, meu pensamento é entrar em contato com a Eldorado, pegar esse material, restaurar ao máximo possível com um software israelense de restauração que comprei no ano passado, ver como fica o resultado e avaliar juntamente com outros engenheiros de som se é possível fazer o lançamento desse material”, diz o produtor João Marcello Bôscoli, primogênito de Elis e um especialista no assunto, ao ser procurado pela reportagem.

Bôscoli, se a qualidade da gravação permitir, acha possível até mesmo disponibilizá-la em Dolby Atmos, tecnologia de áudio oriunda do cinema que proporciona uma experiência mais espacial do som, com o estéreo ampliado. “No software, eu consigo isolar a voz da Elis da base (instrumentos), e tirar todos os ruídos. É trabalhoso. Embora digital, é feito manualmente. É como se fosse a restauração de um quadro”, explica. 

A gravação foi entregue para um produtor da rádio Eldorado pelo irmão de Elis, Rogério Costa, que trabalhou como seu técnico de som por quase uma década, e nunca foi restaurada durante esses quase cinquenta anos – considerando a data em que o registro foi feito. A transmissão pela rádio se deu em 19 de janeiro de 1983, exato um ano após a morte da cantora.

Rogério tinha o costume de gravar em fitas cassetes apresentações de Elis em shows e programas de televisão. O engenheiro de som Rodrigo ‘Funai’ Costa, filho de Rogério, explica que o pai fazia esses registros a partir do som do PA, aquele destinado à plateia. 

“Na mesa de som, há as mandadas auxiliares, utilizadas para fazer efeitos. Ele usava uma delas para fazer uma mixagem específica para a fita cassete. Não era um aparelho superbalanceado, aconteciam variações na altura da voz, por exemplo. Mas, sim, é possível recuperar gravações como essas”, explica Rodrigo.

Rodrigo tem uma caixa com dezenas de fitas deixadas pelo pai – Rogério, que morreu em 1996, ainda trabalhou com nomes como Rita Lee, Gal Costa, Lulu Santos e Leandro & Leonardo. Entre elas, não há nenhuma outra gravação de Falso Brilhante. “Eu nunca tinha ouvido. E acho curioso que só tenha essa”, diz. Ele pensa, no futuro, lançar um projeto utilizando esse material, com performances inéditas e músicas que Elis nunca gravou.

Em dois atos

O show Falso Brilhante teve direção de Miriam Muniz, uma das fundadoras do Teatro Escola Macunaíma, cenografia e figurinos de Naum Alves de Souza e expressão corporal de José Carlos Violla. Os arranjos eram de Cesar Camargo Mariano, que tinha sob seu comando os músicos Natan Marques, na guitarra e violão, Wilson Gomes, no contrabaixo, Crispin Del Cistia, na guitarra e teclado, e Nenê, na bateria, mais tarde substituído por Dudu Portes.

Em entrevista para a TV logo após a estreia do espetáculo, Elis disse que não sabia precisar propriamente como a ideia do show havia nascido. Completou dizendo que o importante, naquele momento, era denunciar a situação do artista brasileiro, o “falso brilhante”.

Essa história foi contada em dois atos, o primeiro, colorido e teatralizado, e o segundo, em branco e prata, no qual a música era a personagem principal. Grandioso, tinha sobe e desce de cenários. Como em um musical. Elis fazia oito trocas de figurino. 

O roteiro lembrava o começo da carreira de Elis no rádio gaúcha ainda menina, os primeiros passos na profissão, Era dos Festivais até ser tragada por duas gigantescas mãos que emergiam de trás do palco. Era a armadilha do sucesso.

Após isso, Elis toma consciência de tudo que acontecia à sua volta. Solidariza-se aos colegas de profissão ao cantar Los Hermanos, do argentino Atahualpa Yupanqui; alerta para o terror da ditadura, tema de quatro canções da dupla Bosco e Aldir, Agnus Sei, Um Por Todos, O Cavaleiro e os Moinhos e Jardins da Infância; e assume o quixotismo de todo artista simbolizada pela canção Homem de La Mancha, de Chico Buarque e Ruy Guerra.

Uma das cenas que ficou marcada na memória de quem assistiu ao espetáculo – em 14 meses, apenas em São Paulo, ele foi visto por 280 mil pessoas - é a que Elis sentava em um gigantesco balanço decorado por flores e cantava, para uma incrédula plateia, a valsa Quero, de Thomas Roth. 

“Imagina que você está ali, com a maior cantora do Brasil, que começa a voar em cima de sua cabeça. Dá um frio na barriga. É como no Cirque du Soleil. Causa uma sensação física, dramática. A equilibrista pode cair e morrer na sua frente”, define Bôscoli, que à época tinha entre cinco e seis anos de idade e diz se lembrar do medo que sentia ao ver a mãe no balanço.

Ouça trechos das músicas cantadas em 'Falso Brilhante'

Como Nossos Pais

Quero

O Homem de La Mancha

 

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