Quinteto reverencia obra de Piazzolla

As mãos nervosas de dedos curtos de Astor Piazzolla racharam a Argentina assim que aprenderam a domar um bandoneón. Quem entendia o vanguardismo de um músico que havia sido aluno da pianista Nadia Boulanger e que se atrevia a misturar o tango ao jazz acreditava estar diante dos grandes nomes do século. Quem não entendia, o via como uma aberração.Ao seu lado por dez conturbados anos, de 1978 a 1988, estava o violinista Fernando Suárez Paz. Em 1996, quatro anos depois de um derrame cerebral levar o autor de Adiós Nonino, Suárez Paz formou um quinteto e saiu pelo mundo interpretando o cancioneiro piazzollano.Uma série de shows do Quinteto Suárez Paz, de hoje a sábado, em diferentes endereços, chega em um momento considerado oportuno por uma conjunção de fatores. Piazzolla, de quem não se falava por aqui há um bom tempo, morreu em Buenos Aires em 1992, depois de viver com as seqüelas do derrame cerebral por quase um ano.Suárez Paz criou intencionalmente seu quinteto à imagem e semelhança das formações de câmara que marcaram os grupos de Piazzolla. Mas sua importância não deve ser reduzida a de um artista que vive do tributo póstumo. Sua irmã Beatriz, por exemplo, cantará temas que foram letrados com poemas do escritor argentino Jorge Luís Borges.Dos dias com o amigo que não se conformava em fazer o tradicional sem embriagá-lo com doses de música erudita e informações jazzísticas que havia trazido de seus estudos nos EUA, Suárez Paz lembra: "Foi muita sorte estar ao lado dele naquele tempo. Era uma pessoa sensível, capaz de expressar o que queria com simplicidade e profundidade."O tango aos argentinos dos anos 50 era o samba dos brasileiros que nos anos 60 vaiavam qualquer tentativa de atualização. A bossa nova foi criticada por trazer a influência do jazz. Na Argentina a reação foi muito pior. Estava tudo certo com a música portenha até que Astor Piazzolla passou a tocar seu bandoneón de pé - na época todos tocavam sentados - e a dar batidas em seu instrumento, arrancando sons percussivos. Suas harmonias saíam das tensões e repousos convencionais para criar novos climas."Piazzolla foi reconhecido como gênio depois de sua morte. Mas ainda hoje há na Argentina tangueiros tradicionais que não gostam do que ele fazia", conta Paz antes de voltar ao bom humor. "O tango tem sido cada vez mais adorado pelos jovens, vai sempre existir."Os dias de pesadelo que Piazzolla não viveu para ver são co-responsáveis pela vinda do grupo. Lulu Librandi, agitadora cultural que por uma das coincidências do passado foi vizinha do músico em Roma, quando comprou dele um fusca, conta que sugeriu a Danilo Miranda, diretor do Sesc, que trouxesse o grupo. "Queríamos fazer algo pelo povo argentino."Quinteto Suárez Paz - Hoje e amanhã, 21h. Sesc Vila Mariana (Rua Pelotas, 141. 5080-3000) Preços: de R$ 5 a R$ 15. Dias 11 e 12, às 21h. Sesc Ipiranga (Rua Bom Pastor, 822. 3340-2000) Preço: R$ 5 a R$ 15. Hotel Intercontinental: Dia 13, às 22h, e 14, às 14h30 (Alameda Santos, 1123. 3179-2555) Memorial da América Latina: Dia 14, às 19h. (Av. Auro Soares de Mora Andrade, 664 3823-4600) Grátis.

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