Quincy Jones lança autobiografia

Está chegando hoje às livrarias americanas a primeira fornada de Q - The Autobiography of Quincy Jones (Doubleday, US$ 26), na qual o músico e produtor de carreira que se expande por mais de cinco décadas relembra a pletora de nomes que o influenciaram e alguns que ele ajudou a criar.Jones, agora com 67 anos, fez importantes parcerias com Lionel Hampton, Dizzie Gillespie, Dinah Washington e Sarah Vaughn. Ele também ajudou a fomentar o incrível sucesso de Michael Jackson, além de criar dezenas de trilhas sonoras, ajudar Steven Spielberg a desenvolver o projeto de A Cor Púrpura, além de ter vencido dezenas e dezenas de Grammys e ganhar um Oscar honorário.Uma babá quase perfeita - Quincy Delight Jones, Jr., nasceu num bairro pobre de Chicago, em 1933. Filho de um carpinteiro que fazia serviços também na casa de gângsteres e de uma mulher com problemas mentais, Jones cresceu em plena era da Depressão. Quando a mãe foi internada, sua babá era uma prostituta, que lhe deixava na sala enquanto ela finalizava outro tipo de trabalho no quarto. No pré-primário, descobriu a música. "A primeira vez que toquei um piano, meu nervosismo e medo foram se dissipando", escreve Jones. "Estava encontrando um verdadeiro amor e uma nova mãe." Depois de aprender todos os instrumentos, ele escolheu o trompete. Suas primeiras gigs foram apresentações em casamento e clubinhos de bairro ao lado do amigo Ray Charles, aos 14 anos. Seu primeiro professor: o trompetista Clark Terry, que tocava na banda de Count Basie. Em Nova York, em seus anos formativos, teve a chance de ser stand by na orquestra de lady Day, ou seja, Billie Holiday, "o Michael Jackson daquela época". Jones lembra que Billie tinha imagem igualzinha à das fotos de revistas que a disputavam a tapa: "atraente, elegante e com uma gardênia no cabelo". Mas ela também agia como as colunas de fofocas a retratavam. "Uma noite, Billie estava tão chapada, que parecia inconsciente", escreve. "Ela perdeu sua entrada no palco, mas seu manager a colocou na frente do microfone", continua. "Quando reiniciamos a introdução, Billie começou a cantar, soando como a lenda que sempre foi." Influências - Aos 18 anos, em vez de aproveitar a bolsa de estudos que ganhou num colégio de Boston, Quincy Jones saiu em sua primeira grande turnê, acompanhando a orquestra de Lionel Hampton por quase dois anos. Entre 1954 a 57, Jones fez centenas de arranjos, jingles e gravações com artistas como James Moody, Gillespie, Basie, Tommy Dorsey, Betty Carter. Ele também compôs para Tommy Dorsey, Gene Krupa, Sarah Vaughn, Count Basie, Duke Ellington e Dinah Washington. A última se tornaria uma grande influência. Apesar de a gravadora Mercury Records vetar o nome de Q para escrever os arranjos no novo álbum de Dinah, ela bateu o pé. O primeiro projeto deles, o disco For Those in Love, foi um grande sucesso e, juntos, ainda gravariam mais nove. "Dinah era um figura. Foi casada quatro ou cinco vezes. Quem é que vai saber?", escreve Jones. "Uma vez, durante um show, a vi apresentando seu marido dessa maneira: ´Senhoras e senhores, daqui a um mês, esse homem que vocês vêem hoje aqui em cima já terá ido embora da minha vida´." Dinah chamava Jones de "garoto-gafanhoto", por ele ser jovem e verde ainda. Mas apesar da diferença de idade, eles acabaram indo para cama. Ela também seria o motivo do final do primeiro casamento do músico. "Uma vez, o telefone toca no meio da noite e era Dinah dizendo: ´Sabe de uma coisa, sr. gafanhoto verde? Em caso de ter esquecido, devo dizer que, ontem à noite, enchi seu traseiro de álcool e a gente fez o doogie três vezes.´" A mulher de Jones ouviu a conversa da extensão na cozinha. O grande mentor - Em 56, ele se tornou diretor musical da banda de Dizzy Gillespie, a quem ele tem como grande mentor. Ao fazer uma turnê pelo Oriente Médio e pela América do Sul, patrocinada pelo Departamento de Estado americano, conheceu a Bossa Nova, estilo que depois iria adotar em alguns de seus álbuns. Um ano depois, ele se mudou para Paris, onde foi contratado por Nicole Barclay para ser diretor musical, arranjador e maestro da Barclay Records. Além de ser apresentado ao demi-monde parisiense, com noitadas em companhia de Charles Aznavour, Catherine Deneuve, Boris Vian e Jeanne Moreau, entre outros, Jones gravou com Henri Salvador e Ella Fitzgerald, além de formar sua big band. A Mercury Records, com sede em Nova York, o cooptou em 64 para ser diretor musical do selo. Jones se tornaria, assim, o primeiro executivo negro a ocupar tal posição na indústria fonográfica. Ele controlava todas as grandes orquestras e divas como Sarah, Dinah, Shirley Horn, Nana Mouskouri e Nina Simone. Naquele mesmo ano, ganharia seu primeiro Grammy, como arranjador da faixa I Can´t Stop Loving You, gravada por Basie. Foi quando o cineasta Sidney Lumet o procurou com um convite: fazer o score para seu novo filme, O Homem do Prego (The Pawnbroker), com Rod Steiger e Geraldine Chaplin. Apesar de cru no ramo, Jones seguiu os conselhos sobre sincronização dados, alguns anos antes, por Henri Mancini. Jones compôs mais de 30 trilhas sonoras, entre elas A Sangue Frio (filme de Richard Brooks), No Calor da Noite (Norman Jewison); Bob, Carol, Ted & Alice (Paul Mazursky); Os Implacáveis (Sam Peckinpah) e A Cor Púrpura (Spielberg). Depois de um aneurisma cerebral que quase o matou na década de 70, ele voltou à ativa se concentrando em álbuns próprios como Mellow Madness, I Heard That e The Dude. Ele também criaria a trilha sonora para o filme O Mágico Inesquecível (The Wiz) como um favor a Lumet, apesar de não gostar do filme. A produção tinha a participação de Michael Jackson, que conhecia desde garoto. Com um time de feras da música, inclusive o brasileiro Paulinho DaCosta, Jackson e Jones fariam o álbum Off the Wall, um sucesso na época, tendo vendido cerca de 10 milhões de cópias. Em seguida, surgiria o fenômeno Thriller (50 milhões de cópias) e Bad (23 milhões). "Não importa o que digam sobre ele ou suas esquisitices e nem o fato de que o The Eagles conseguiu bater o recorde de Thriller em vendas nos EUA: Michael tem seu lugar na história do pop e, internacionalmente, ainda é o músico a ser batido." De olho na gazela - Apesar de não ter uma relação mais íntima com Jackson atualmente, Jones o classifica como "focado, camaleão e esponjinha". "Michael é um músico tímido com um incandescente desejo pela perfeição e ambição ilimitada para ser o maior artista do mundo", escreve. "Michael admirava e estudava o trabalho de Sammy Davis Jr., Fred Astaire e Gene Kelly. Assistia a horas e horas de fitas com o movimento de gazelas, macacos e panteras para imitar a graciosidade de seus movimentos", continua. "E ele tem algumas das qualidades dos maiores nomes do jazz com quem trabalhei: Ella, Sinatra, Sarah, Aretha, Ray e Dinah." Jones recorda que a gravação de Thriller foi tumutuada e que a primeira audição dos executivos da Epic Records foi péssima. "Todo mundo odiou a mixagem e tivemos de voltar ao estúdio para remodelarmos tudo em oito dias." Entre as mudanças de última hora no álbum, estão o corte de um verso de The Lady in My Life e a diminuição do que era a longa entrada de Billy Jean. "Michael e eu tivemos grandes aventuras, mas o sucesso pode ser uma coisa difícil de engolir. Acredito que você tem de olhar o sucesso nos olhos. Mas se você começa a sucumbir a tanta adulação, também tem de engolir quando os caras dizem que você é um merda", diz. "Você precisa de um centro espiritual para te fazer navegar por essas águas turbulentas. Eu sempre vou adorá-lo." Jazz, Jackson e agora os amigos de Jay-Z. Isso mesmo, hoje Jones se debandou para o lado dos artistas de hip hop. "Vejo a comunicação do mundo do hip hop como uma continuação de velha escola: Lester Young e Count Basie e todo mundo na subcultura dos anos 40 estavam usando termos como homeboy e rap. O bepop não era somente instrumentalização, mas também scat, vocalização espontânea e atitude", filosofa. Para comemorar o lançamento de sua autobiografia, Jones está lançando na semana que vem uma coletânea de sua carreira agrupada em quatro CDs e batizada oportunamente de Musical Biography.

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