Sérgio Neves/AE
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'Quero me recolher antes que seja tarde'

Nana Caymmi faz três apresentações na cidade e fala em aposentadoria

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S. Paulo

07 de janeiro de 2011 | 04h00

Aos admiradores de Nana Caymmi é recomendável não perder os três shows que a cantora faz neste fim de semana no Sesc Vila Mariana. É que oportunidades como esta serão cada vez mais escassas. Nana revelou que aos poucos está saindo de cena. Ela já tinha manifestado o desejo de parar de cantar em 2008, quando passou meses abatida pela morte dos pais. Acabou voltando em 2009 com o CD Sem Poupar Coração, fiel a seu estilo peculiar, mas desta vez parece que, para desapontamento dos antigos fãs, vai mesmo se afastar dos palcos e das gravações.

Este ano ela ainda grava um DVD fazendo um apanhado do repertório mais representativo de sua carreira, repleta de canções contundentes com interpretações de arrasar. Como os clássicos de seu pai Dorival Caymmi (1914-2008) e de Antonio Carlos Jobim (1927-1994) que canta nos shows de hoje a domingo. Como de hábito, Nana alterna a pungência do que canta com o humor de suas falas espirituosas, para dar um certo alívio à plateia. O documentário Rio Sonata que o cineasta franco-suíço Georges Gachot fez em sua homenagem, segue em parte essa linha.

"Aí é onde eu atuo, esse é o meu interior, o meu sentimento. Sou uma pessoa muito otimista, muito alegre, mas na hora em que eu canto, não é que mude esse universo, não saio dali tentando cortar os pulsos, mas é um estilo. Se você me perguntar, vou ter de subir aos céus e fazer uma reunião de cúpula, porque não tenho a menor ideia de por que tenho esse sentimento", diz Nana. "Adoro, porque no teatro, por exemplo, quando vejo que está todo mundo querendo se matar, eu conto uma piada. ‘Olha a refresco! Vou fazer uma coisinha mais leve.’ Aí canto outra bomba", diverte-se.

Outsider. O roteiro do show também inclui temas de seu álbum mais recente e clássicos de Dolores Duran e outros que o público sempre pede, como Beijo Partido, Se Queres Saber e Dora. Nana canta acompanhada por Cristóvão Bastos (piano e direção musical), João Lyra (violão), Jurim Moreira (bateria) e Jorge Helder (baixo), músicos com quem tem absoluta afinidade há anos.

Como diz no filme Gachot, ela não funciona com barulho. No mundo conturbado de hoje, em que se fala aos gritos e música virou mero entretenimento e fundo para conversas, com megaproduções ruidosas, Nana é uma outsider em sua coerência e profundidade artística. Não se rende a modismos, não se cerca de grandes aparatos cênicos, nunca se preocupou com vendas de discos, apesar de ter grandes êxitos em trilhas de novelas e minisséries, como Resposta ao Tempo (Cristóvão Bastos/Aldir Blanc), de Hilda Furacão.

Nesse aspecto, ela não sentiu nenhum impacto com a crise do mercado fonográfico. "Isso não afeta minha carreira porque nunca tive como meta vender 1 milhão de discos. Pra quê? As músicas desses que vendem milhões são ilembráveis", diz, rindo. "Vou vivendo bem com o pouco que tenho. Sou uma formiguinha com a folha nas costas. Tenho exemplo de dentro de casa, pai, irmão. Não é pra sair deslumbrada, nunca fui. Sou estrela desde que nasci, então não precisava calcar mais nada. Tenho de ganhar minha vida numa boa. E não quero ter um iate. Isso acho que também depende da ambição de cada um. Eu não vim do interior de nada. Nasci aqui, era distrito federal. Não tenho vida triste pra contar, porque tem que ter uma desgraça: ‘Veio com a roupa surrada, pendurada no ônibus.’ Eu não tenho tristeza."

Recolhimento. Quanto à aposentadoria, ela explica que não é que vai parar totalmente de cantar. "Mas minha intenção é ir me recolhendo aos poucos, fazer meu milésimo gol. Estou tendo muita dificuldade, o aeroporto virou uma rodoviária, o mundo está complicado musicalmente. Não canto essa modernidade, não aguento essa tecnologia, essa doença por informação", diz. "Não quero saber o que está acontecendo na Austrália, porque não tenho relação com nenhum australiano. Estou com excesso de informação e eu preciso ver uma fruta nascer. Gosto de saber das coisas aos poucos e quando posso ajudar estou livre para isso."

Ela então deve se mudar em breve do Rio para São Pedro do Piquiri, em Minas, e se recolher "antes que seja tarde". "Tenho um filho complicado, que sofreu um acidente grave, e tem a cabeça mental de 10 anos. Isso me desgasta muito e eu queria dar uma bela descansada, ver o sol nascer de forma diferente e essa casa em Minas corresponde a tudo que eu preciso."

NANA CAYMMI - Sesc Vila Mariana. Rua Pelotas, 141, telefone 5080-3000. Hoje e amanhã, 21 h, dom., 18 h. R$ 40, R$ 20 e R$ 10

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