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'Quero libertar minha alma', revela Courtney Love

Se for metade do que aparenta ser, a viúva de Kurt Cobain vem a SP pronta para fazer um estrago

Roberto Nascimento - O Estado de S. Paulo,

04 de novembro de 2011 | 22h00

São 17h10, horário local de Nova York. O telefone toca e a roqueira mais infame de todos os tempos atende. "Sra. Love?", pergunta a reportagem do Estado. "Sra. Love Cobain", corrige Courtney, emendando um discurso turbinado, galopante, que vai de seu vício em crack à coleção de discos de seu ex-marido. Viúva de Kurt, mãe de Francis Bean, líder da banda Hole, Courtney Love Cobain é a alegria dos tabloides há duas décadas. Fala de forma compulsiva, mas, em geral, coerente. Não poupa veneno a ninguém, seja ele Hugo Chávez ou Dave Grohl. A seguir, um compacto com os melhores lances de sua conversa com o Estado, concedida antes de sua vinda ao País para o festival SWU, na semana que vem.

 

O Hole é da mesma leva de bandas noventistas, como Faith No More, Alice In Chains, Stone Temple Pilots e Sonic Youth, que tocam no SWU. Sente nostalgia ao integrar este revival?

 

Você tá brincando? É surreal. O Faith No More foi minha primeira banda. Eu ajudei o Scott Weiland, do Stone Temple Pilots, a escapar da clínica de reabilitação. E o divórcio da Kim e do Thurston (do Sonic Youth) é como se meus pais estivessem se separando. Somos todos colegas, fora o Kanye (West). Me disseram que um cara aí vai organizar uma festa de ayahuasca pra todo mundo. Espero que o Snoop (Dogg) venha comigo, porque - pelo amor de Deus -, eu não fumo maconha, nunca aguentei. Mas o ayahuasca supostamente liberta sua alma. Estava no telefone com o Woody Harrelson, ontem, e ele disse: "Court, tome cuidado, isso é coisa séria". Por isso acho que vou procurar o curandeiro que ele me indicou.

 

Você se dá bem com o pessoal do Nirvana?

 

Me lembro de voltar de Taiwan e me deparar com uma banda animal. Era Mike Patton e Billy Gould, do Faith No More, na cozinha. Então aprendi algo que demorei para compreender completamente. Que, por mais que o Dave Grohl roube comida da mesa da minha criança, e ele sabe que eu sei que ele sabe que eu sei - que o que ele faz está errado - se eu morrer amanhã, meu guitarrista sabe de todos os riffs que eu escrevi. O Patton tem essa integridade. Mas o Dave arranjou até um baterista que se parece com o Kurt. Também tentou ficar comigo mas eu não gosto de bateristas. E agora sai por aí, tocando riffs usados do Nirvana, fazendo uma carreira disso. Ele fica com a glória e eu com toda a m...

 

Você já disse que o rock é, para você, férias de sua própria vida. Quão perturbada é você?

 

Hoje em dia, não muito. Mas minha vida sempre será conturbada porque eu tenho uma alma negra. É por isso que eu quero experimentar aquela parada, o ayahuasca. Dizem que faz sua alma ficar mais leve. Mas as coisas são assim: você nasce com uma alma escura. Você acha que o Johnny Depp pediu uma alma escura? Que o Scott Weiland ou o pobre do Axl pediram uma alma escura? Eu posso ter cara de ministra mas minha alma é turva e eu gostaria muito de libertá-la da tormenta em que vive. Eu canto, sou budista. Isso me alivia. E eu não sou bipolar. Mas, cara, o que é que há de errado comigo?

 

 

O que o seu psiquiatra acha?

 

Eu perguntei se sou bipolar. Um deles disse ‘talvez’. Talvez? O que significa isto? Eu já coloquei uma arma na boca. Aí ele me pergunta: ‘bem, você apertou o gatilho?’. Eu digo, ‘não’. Aí ele responde que se eu não me matei então não sou bipolar. E me pergunta o que eu fiz com a arma. Respondo que joguei fora e que agora alguém provavelmente vai matar alguém com ela.

 

Neste momento, Courtney recebe um suco de beterraba.

 

Eu estou ansiosa para comer a comida brasileira, e para conhecer alguns daqueles caras "potentes" que vocês têm aí. O mercado de arte brasileiro está bombando. Você não sabe quantos amigos donos de galeria eu conheço que vão aí todo mês para puxar o saco dos ricaços.

 

Você estava procurando um título de nobreza inglesa. Está a fim de se casar com um ricaço brasileiro agora?

 

Não, mas se eu consigo fazer ‘El Hugo’ ficar babando por mim, eu certamente posso transar com um brasileiro.

 

 

Quem é El Hugo?

 

O Chávez. Você acha que ele é do bem?

 

Eu acho que não.

 

Conheci ele numa première do Oliver Stone, quando ele enfiou a língua dele na minha goela. Mas ninguém fala sobre isso. Estou curiosa sobre o Hugo. O Oliver adora ele, mas eu não acho que é possível ser presidente por tanto tempo sem ser corrupto. Estávamos na première - eu, Martha Stewart e Yoko Ono, com quem não me dou bem. Na terceira piscada de olho eu deixei o Hugo vir falar comigo. Aí ele ficou a fim. Depois, ia dar uma entrevista para a Playboy e disse que só falaria se eu fosse. Me ligaram, tentaram me colocar num jatinho rumo a Caracas, mas vocês pensam o quê? Que eu sou vagabunda? Estão enganados.

 

E porque você não se dá bem com a Yoko Ono?

 

Não gostamos de ser comparadas uma com a outra. Sei que ela cuida muito bem do dinheiro do John e que eu quase gastei toda a minha grana. Mas não sei. No Texas as pessoas ainda acham que eu uso crack.

 

E você não usa?

 

Não! Eu nem bebo. Você acha que eu me drogo? Deus, como essa mídia é corrompida.

 

 

Ouvi dizer que você se reabilitou.

 

Sim. E funcionou. E ponto final. Em 1998, eu dei minha palavra ao Milos Forman que eu nunca mais usaria heroína. E não usei. Aí eu fumei crack por quatro meses. O Chris Rock acha que eu estou mentindo. O Snoop Dogg disse que eu era muito branca pra fumar crack. Mas eu fumei! Só não fumei direito porque estava sozinha. E foi tenso. Uma vez o meu provedor apareceu em casa com um israelense que traficava armas. Mas eu nunca usei na frente da minha filha. E agora parei com tudo. Cocaína fica muito óbvio. Eu fico com cara de louca. Tenho um amigo do financeiro que é um depravado. Mas não dá para notar no dia seguinte. Comigo é diferente.

 

Quão presente Kurt Cobain ainda é na sua vida?

 

Outro dia achei a coleção de discos dele. Você nem imagina. Ele ouvia as coisas mais esquisitas. O mais antigo é Os Chipmunks Cantam os Beatles. Tinha também muito Skid Row, muito Black Sabbath e até Ru Paul (travesti showman). Encontrei o Low do Bowie e achei esquisito porque ele não gostava de Bowie. Tive que ralar para encontrar esses discos. As pessoas falam mal de mim. Mas se não fosse por mim, vocês estariam ouvindo Smells Like Teen Spirit em qualquer comercial de detergente. Conto nos dedos as vezes que licenciei a música do Nirvana.

 

Você ainda compõe?

 

É como eu disse para o David (Geffen, ex-magnata da indústria fonográfica): não acabou. Não terminei com o rock. Não ganho nenhum dinheiro com isso. Mas não vou parar.

 

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