Leo Aversa/ Divulgação
Leo Aversa/ Divulgação

Quatro sambistas em turnê pelo Brasil

Martinho da Vila, Alcione, Roberta Sá e Diogo Nogueira antecipam os 100 anos do samba em apresentação com 27 canções

Julio Maria, Rio - O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2014 | 02h11

Depois de criar turnês para homenagear Elis Regina com Maria Rita em 2012 e Tom Jobim com Vanessa da Matta em 2013, a empresa de cosméticos Nivea decidiu trocar os imortais por um patrimônio imaterial. O centro do novo espetáculo dirigido por Monique Gardenberg e roteirizado por Hugo Sukman é o samba, que fará 100 anos em 2016, quando fecha um século desde a gravação de Pelo Telefone, por Donga, considerada a pedra fundamental do gênero na indústria fonográfica. Na noite de terça, no Vivo Rio, uma apresentação para a imprensa e convidados deu início à turnê e mostrou como produtores e artistas lidaram com os desafios de se colocar o universo dentro de uma garrafa.

A escolha dos nomes pode ser o primeiro deles. Martinho da Vila e Alcione levam peso e imprimem legitimidade. Roberta Sá e Diogo Nogueira são ali o sangue novo, a continuidade da espécie e a conexão com um público que talvez não tenha chegado ainda às raízes. Mas suas escalações podem ser também efeito colateral de um fenômeno preocupante. Uma cantora que não é exclusivamente do samba e um cantor que, como diz o próprio roteiro, representa mais o pai lendário, João Nogueira, do que a si mesmo, refletem a ausência da produção de ídolos duradouros e de massa no samba. Se não fossem Roberta e Diogo, que nome de respeito do segmento com menos de 40 anos cumpriria uma agenda pelo Brasil levando 30 mil pessoas a cada show?

A escolha das músicas é o segundo. A primeira seleção pensada por Sukman e Monique tinha 60 canções, das quais 27 passaram pelo funil dos ensaios. A sequência é bem amarrada em blocos e pinta um quadro significativo, naturalmente, sem esgotá-lo. Dos que poderiam estar lá mas não estão, Pelo Telefone talvez seja o mais óbvio, já que o mote do projeto é justamente sua gravação, há quase 100 anos.

Os artistas se revezam desde o início, em um esquema que começa preso e se solta com o tempo. Depois da abertura em grupo com A Voz do Morro, de Zé Keti, Roberta Sá canta Eu Sambo Mesmo; Martinho faz Casa de Bamba; Diogo Nogueira lembra o pai em Poder da Criação e Alcione volta com Não Deixe o Samba Morrer. E uma outra escolha, agora de direção artística, começa a ficar evidente. Alceu Maia, cabeça por traz das amarrações, pensou em um espetáculo para grandes plateias em locais sobretudo ao ar livre. Depois de Porto Alegre (16/3), Rio (23/3, na Praia de Copacabana), Brasília (6/4), Recife (13/4) e Salvador (27/4), São Paulo será a última parada (25/5, às 16h30), no Parque da Juventude. 

O caminho para vencer acústicas difíceis, de propagações de som sujeitas às condições climáticas, foi o do samba cheio e grande, sustentado por uma massa volumosa criada por quarteto de cordas (dois violinos, viola e violoncelo), sopros, teclado e coro, além da seção de dois violões, percussão, bateria e contrabaixo: 19 músicos ao todo. A vida feita de escolhas do diretor, de novo, não pode abraçar o mundo. Se por um lado glamouriza lindamente temas como O Mundo É Um Moinho, de Cartola (um diamante na voz de Alcione) e Feitiço da Vila, de Noel Rosa (o dueto da noite entre Alcione e Martinho), por outro anestesia o impacto do samba de pele, do cavaquinho e do pandeiro dando as ordens no terreiro. Nada que as plateias sentirão falta. Afinal, a grande força do samba mora nele mesmo. Basta que alguém comece a cantar.

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