Quatro mestres do violão e as possibilidades do instrumento

Edelton Goeden, Fábio Zanon, Odair Assad e Leo Brouwer reúnem-se para a 2.ª edição do Festival Leo Brouwer

João Luiz Sampaio, de O Estado de S. Paulo,

11 de dezembro de 2009 | 03h00

Os virtuoses do violão: Fábio Zanon (esq. p/ dir.), Edelton Gloeden, Odair Assad e o maestro Leo Brouwer. Foto: Helvio Romero/AE

 

"Maestro!" Odair Assad, Fábio Zanon e Edelton Gloeden interrompem o café e recebem em coro o compositor e violonista cubano Leo Brouwer na manhã de quarta-feira. Todo de branco, discreto, ele agradece tímido e pede que não se apressem. "Estou ali fora, quando vocês quiserem." Não demora muito para que o grupo volte a se reunir, agora em uma das salas de conferência de um hotel de São Paulo - a Sala Villa-Lobos. "É assim, quando morremos viramos nome de sala", brinca Brouwer.

Assad, Zanon e Gloeden estão entre os três principais nomes do violão erudito brasileiro e internacional; reuniram-se ao longo desta semana em São Paulo para a segunda edição de um festival dedicado a Brouwer, parceria da USP com o Sesc e o Instituto Cervantes. A ligação com o maestro, compositor e violonista cubano, no entanto, é mais antiga. Todos reconhecem nele uma figura-chave na escrita para o violão; mais do que isso: amigo de escritores como o cubano Alejo Carpentier e o argentino Julio Cortázar, ele testemunhou alguns dos principais acontecimentos da história recente da América Latina, como a Revolução Cubana, nos anos 50.

Ao longo da conversa com o Estado, eles falam do violão como instrumento erudito, relembram momentos da carreira, discutem a composição atual e definem a importância de Villa-Lobos, de quem se lembrou, em 2009, dos 50 anos de morte.

 

Um maestro e seus alunos

 

O festival reúne mostra representativa da produção recente para o violão. Que cara tem essa música?

Edelton Gloeden - Uma marca importante no festival foi a abertura para a obra de outros compositores, ao contrário do ano passado, quando se tocou apenas peças de Brouwer. E isso foi feito a pedido dele mesmo. Além disso, resolvemos homenagear Villa-Lobos nestes 50 anos de sua morte e outros duas figuras fundamentais para o violão, que são o colecionador Ronoel Simões; e o Geraldo Carneiro, autor de quase 400 obras importantes, ídolo de todos nós.

 

Odair Assad - Esse é campeão. Homenagens são sempre ótimas, mas homenagear os vivos acho ainda mais fundamental.

 

Leo Brouwer - Depois de morto, a gente ganha nome de sala.

 

Fábio Zanon - E tem um dado bom que é a aproximação com a universidade num momento em que o violão ganha cada vez mais importância nela.

 

Por que o senhor fez questão da presença de outros autores?

 

Brouwer - Porque sempre gostei de ouvir a música de meus colegas. Quando dirigi uma orquestra na Espanha, fiz mais de 300 concertos e toquei só quatro obras minhas. E sempre com muita música contemporânea. Não há nesse festival o espírito de competição que encontramos em outros lugares. Por isso quis ouvir meus colegas.

O Zanon falou da presença do violão na universidade. Em especial no Brasil, o violão ganhou importância como instrumento erudito nos últimos anos? O quadro hoje é diferente do que era há 40, 50 anos?

 

Gloeden - Hoje há cursos importantes, escolas fabulosas.

 

Zanon - A mudança foi grande. Para se ter uma ideia, me formei na primeira turma de violão da USP, e isso foi em 1986.

 

Gloeden - Há 20 anos, o violão era instrumento de botequim.

 

Zanon - E continua por lá.

 

Assad - Ainda bem, e com gente muito boa (risos).

 

Qual o papel de Brouwer nesse salto?

 

Zanon - Para quem tocava violão nos anos 70, havia o repertório romântico e Villa-Lobos. Depois dele, havia um hiato. E aí aparecia o maestro Brouwer com uma música nova, uma porta para as questões do século 20, que nos permitia a interação com novas linguagens. E a gente trabalhava as várias fases da música dele.

 

Gloeden - E tinha o lado intérprete dele, que era incrível.

 

Assad - Ele tocava muito.

 

Zanon - Seu disco com peças de Scarlatti ainda é uma referência.

 

Gloeden - E a música cubana?

 

Brouwer - Sempre me coloquei algumas questões. Ao longo do século 20, houve imitadores. Eu não queria imitar ninguém, isso só reproduz clichês, lugares-comuns. Outra questão: o erro crítico do mundo latino é tentar engrandecer algo que já é grande. Colocar um fraque na cultura popular é bobagem.

 

Como o senhor define sua relação com o violão?

 

Brouwer - O violão é como uma orquestra de timbres maravilhosos e misteriosos, não grandiloquentes. E é necessário evitar os clichês, a formalidade. É como dizer: "Bom dia"; e alguém responde: "Bom dia!" Chega. Todo o mais - "Sim, um bom-dia, hoje com menos chuva, não?" - é desnecessário, não tem novidade. Essa formalidade é ruim. Eu me lembro de uma história que contava Alejo Carpentier. Ele estava em uma reunião diplomática e os seus companheiros discutiam a melhor maneira de fazer a barba; um dizia que preferia o barbeador elétrico Wilhem; outro, o Brown. E o Carpentier: "Eu uso uma navalha cubana chamada Venceremos!" E quando perguntaram "qual a melhor espuma?", ele disse: "Nenhuma, eu uso minhas lágrimas" (risos). A reunião, claro, se dissolveu. O artista deve evitar o lugar-comum, a formalidade.

 

Popular e erudito

 

Alejo Carpentier discutia a questão da cultura latina perante o cânone europeu. Como veem essa relação?

Brouwer - O exemplo da cultura brasileira é bom. Ela é tão forte que não se deforma nem se impõe. Ela invade o mundo todo, mas não se converte, apenas se enriquece. Eu me lembro que em 1969 promovi um festival em Cuba com Chico Buarque, Milton Nascimento, Edu Lobo, Gilberto Gil... E sei do impacto que causou nos músicos cubanos esse contato, foi uma revelação. Mas voltando à sua pergunta, eu insisto, assim como Carpentier, na inutilidade da citação repetitiva da cultura popular. O que é um populista? Um populista não é o popular, é aquele que imita Pixinguinha, ele sim popular; é o cara que não tem imaginação, cultura, para transcender Pixinguinha. São os inimigos da criação, apoiados pelos meios de comunicação de massa e pela ideia da venda da cultura. 90% da música popular atual não é nem popular nem atual, é comercial.

 

Gloeden - O violão é um bicho feio nessa história toda. Ele está na fronteira. E hoje há tanta liberdade na composição, são tantas as possibilidades.

 

Zanon - De certa forma, o violão esteve à frente dos acontecimentos. Eu me lembro de ouvir o Odair tocando Piazzolla em 1978, era uma janela que se abria, adquiria-se um valor que não se imaginava. Depois de um tempo, Yo-Yo Ma, Gidon Kremer, Barenboim, todo mundo queria trabalhar com ele para saber como interpretar Piazzolla. A barreira entre popular e erudito não é muito nítida e leva a uma mistura de sabores. Alguns dos autores mais importantes de hoje, como Sergio Assad e Paulo Bellinati, têm formação dos dois lados. A grande tradição é fascinante, mas as pessoas se limitam sempre às mesmas peças, fica repetitivo. E isso cria expectativas distorcidas no público, que ouve sempre o mesmo. A Cristina Ortiz conta que passou 20 anos na Inglaterra sem tocar música brasileira, construindo uma reputação. E, agora, voltou com tudo a esse repertório. Nós, violonistas, não precisamos passar por esse processo de negação da nossa música.

 

Gloeden - Estamos fora da história da música oficial. Criamos na América Latina uma outra história, apesar de não nos comunicarmos entre nós.

 

Brouwer - E devemos ficar atentos a outro perigo, aos clichês de um país. Quando se fala em Brasil, se fala em carnaval carioca. Sim, é incrível, mas há a cultura indígena, escritores maravilhosos. E nos anos 20 havia comunicação entre eles. Não aqui, mas em Paris, que era a Meca da arte do período.

 

Assad - Faltam mais festivais.

 

Zanon - Acho que é a primeira vez que um festival de violão tem segunda edição em São Paulo. Eventos assim não costumam vingar (risos).

 

2.º Festival Leo Brouwer. Sesc Pinheiros. (1.010 lug.). Rua Paes Leme, 195, tel. 3095-9400. Sáb., 21 h; dom., às 19 h. R$ 10. www.festivalleobrouwer.com.br

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