Ruby Washington/The New York Times
Ruby Washington/The New York Times

Quatro dos maiores músicos contemporâneos se reinventam em lançamentos

Mehldau, Alessandrini, Pandolfo e Min inovam em seus mais recentes CDs

João Marcos Coelho, Especial para o Estado

08 Julho 2018 | 06h00

Quatro dos mais radicais compositores da história da música receberam recentes projetos artísticos que propõem ousadias tão grandes quanto as dos homenageados. Afinal, não existe tributo mais adequado do que incorporar e praticar hoje as atitudes criativas que fizeram deles músicos inovadores.

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Assim, Bach, por exemplo, encantado com os concertos para violino de Antonio Vivaldi publicados em Amsterdã em 1711, recriou-os para teclado. Duas gravações recentes seguem este receituário, mas trilham caminhos diversos. O pianista de jazz Brad Mehldau, de 47 anos, ao longo de dezenas de gravações solo, demonstra uma fusão pessoal de linguagens como as de Bill Evans e Keith Jarrett, do lado jazzístico; e de Chopin, Schumann e Brahms, de outro. Doze anos atrás, compôs Love Sublime, ótimo ciclo de “lieder” para a soprano Renée Fleming (ambos o interpretam no CD Love Sublime). 

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Agora, em seu After Bach (Nonesuch), foge da jazzificação fácil. Toca cinco dos prelúdios e fugas do Cravo e oferece sua resposta no que chama de After Bach. Assim, ao prelúdio e fuga n.º 12, em fá menor, em que a fuga a quatro vozes é sombria, ele contrapõe Dream, de igual desolação, partindo de notas simples para atingir complexas harmonias personalíssimas. Ao prelúdio n.º 3, um Presto conhecidíssimo de menos de 2 minutos, contrapõe um rondó em 5/4 que Brubeck assinaria sorrindo, em mais de 8 minutos de música admirável, sem adjetivos.

Rinaldo Alessandrini, músico romano de 58 anos especialista na prática da música historicamente informada e líder do Concerto Italiano, prefere trafegar pelo universo interno da música de Bach no CD Variations on Variatons (Alpha). Transpõe para ensemble barroco a Passacaglia em dó menor original para órgão. Mas isso é só aperitivo. A reinvenção nuclear da gravação é a das Variações Goldberg, ária e 30 variações, para teclado solo, aqui recriada para quarteto de instrumentos barrocos: violino, viola, violone (viola contrabaixo) e cravo, este último pilotado por Alessandrini. Quanta luminosidade e riqueza timbrística. O som assume inesperadas e belas cores – virtuais na versão original. É mais um divertimento, “um sutil prazer intelectual”, escreve Alessandrini. E um triunfo, pois elas aqui soam muito mais “bachianas” do que as versões de Sitkovetsky para trio de cordas ou a de Labadie e os Violons du Roy, que tocaram há pouco na Sala São Paulo, para orquestra de cordas.

Atrevimento e diversidade sonora são as maiores qualidades do abusado CD Kind of Satie (Glossa), que leva o subtítulo New music around Satie, com o gambista Paolo Pandolfo, especialista em música antiga, improvisando e criando, ao lado do irmão Andrea e de Michelangeli Rinaldi, sobre peças de Erik Satie. Eles não só interpretam peças da coletânea Sports et Divertissements, que Satie compôs para uma edição especial da revista Gazette du Bon Ton em 1914. Juntam também frases jocosas de Satie recolhidas por Ornella Volta em Cadernos de um mamífero. Esta é, segundo Pandolfo, “uma viagem pela poética de Satie, filtrada por nossas sensibilidades como músicos que há muito tempo experimentam com os estilos sonoros que nos rodeiam”. “La mosca cieca” (a mosca cega) é composição de Pandolfo a partir de Colin-maillard. Um assombro. Andrea alterna trompete com o flugelhorn, seu primo-irmão de som mais macio e redondo; Pandolfo pilota a viola da gamba; e Michelangelo Rinaldi fica entre piano, piano de brinquedo e acordeon. E os três recitam textos de Satie.

Porém, a reinvenção mais inesperada é da chinesa Min Xiao-Fen, “cria” da Revolução Cultural da década de 1960, que se radicou nos EUA nos anos 1990, onde tocou com o guitarrista Derek Bailey e o trompetista free Wadada Leo Smith. Seu instrumento é a pipa, tradicional de seu país, mas – vejam só – apaixonou-se pela música de Thelonious Monk (1917-1982). A pipa é instrumento milenar de 4 cordas, de sonoridade próxima à do alaúde e do bandolim. Demorou para aprender, mas hoje sabe improvisar. É seu diferencial. À revista Downbeat, disse que “não quero ficar como todos que tocam pipa, fazendo sempre a mesma coisa”. Levantou dinheiro para gravar no final do ano passado o CD Mao, Monk and Me.

Das sete faixas do CD, três são dedicadas a temas de Monk: Ask Me Now, North of Sunseth e Misterioso. Esta última, de longe, é a mais interessante. O tema, um blues de 12 compassos, construído em intervalos de sexta, recebe de Min uma versão impactante de quase 8 minutos. As outras quatro são composições próprias evocando canções da China natal; mas, em seu tributo pessoal a Monk, My Monks Dream, Min canta, conta com percussão mínima, à chinesa, e improvisa em alto nível.

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