Quatro damas da canção brasileira lançam disco

Quatro das melhores vozes femininas apresentam trabalhos novos. Nana Caymmi reitera o caráter passional de seu canto em Desejo; Alaíde Costa apresenta versões reflexivas para marchas famosas de carnaval, em Rasguei a Minha Fantasia; Dona Ivone Lara apresenta dez inéditas em Nasci pra Sonhar e Cantar; e Gal Costa peca no pretensioso De Tantos Amores.Nana Caymmi diz que não sai por aí procurando canções de amor desesperado para gravar. São elas, as canções, que a encontram. Caem-lhe no colo. Alguém, em algum lugar, compõe uma música tristíssima e diz: "Vou mandar para a Nana." É ela quem faz a piada. Dá gargalhadas quando a relembra. Mas grava as canções. É dona do mais dolorido repertório da música brasileira.Desejo é o seu novo disco. Depois de décadas, Nana mudou de gravadora. Desejo sai pela Universal. Mas levou seu time. O produtor José Milton, parceiro de muitos anos, sensível ao caráter especialíssimo da interpretação de Nana, que levou, ainda, os autores de sempre, a galeria de grandes nomes que compõe coisas que só ela pode cantar.Estão lá os irmãos Dori e Danilo, o pai, Dorival, Ivan Lins, os poetas Paulo César Pinheiro, Abel Silva, Fausto Nilo, Marco Aurélio e ainda Fátima Guedes, Sueli Costa, Márcio Proença, Dudu Falcão.De novidade, uma parceria rara do ex-bossa-novista Marcos Valle com Erasmo Carlos, Frases do Silêncio. O arranjo orquestral, aqui, como em Lero do Bolero (Kiko Furtado e Abel Silva) é de Lincoln Olivetti. Lincoln foi responsável por alguns dos piores discos dos anos 80, bagunçando boas canções com seu sotaque pop de plástico reciclado. Mas, aqui, comporta-se um pouco melhor: respeitoso.A música de Marcos Valle e Erasmo Carlos é também um bolero, cheio de dor: "Frases que não dizem/ O silêncio que diz tudo/ Cada dia mais difícil de entender/ Só ficaram restos..."O disco entroniza duas novas Caymmis, sobrinhas da cantora: a compositora Juliana, autora da bela marcha-rancho Seus Olhos, e Alice, que canta com a tia. É uma voz ainda em definição. Mas deixa nítida a carga interpretativa familiar.Para o samba Vou Ver Juliana, de Dorival, que encerra o disco, foi convocado o bamba Zeca Pagodinho. Um achado. A voz de Zeca tem aquela mesma pungência que a de Nana, coisa que talvez poucos soubessem. Outro convidado especial é Ivan Lins, ao piano em sua canção Só Prazer, que tem obra-prima de arranjo, assinado por Dori Caymmi, e leva letra sensível, delicada e belíssima de Celso Viáfora, nome que se agrega ao time dos eleitos da cantora: "Eu já tinha esquecido/ As carícias do nosso amor/ Você lembrou/ Eu já tinha esquecido/ As delícias do nosso amor/ Você lembrou" - Nana se sai de forma especialmente brilhante em reiterações desse tipo.Desejo é, como não deixaria de ser, um disco lindíssimo, com destaques para a faixa-título, de Fátima Guedes, para Marca da Paixão, de Márcio Proença e Marco Aurélio, e para Fumaça das Horas, de Sueli Costa e Fausto Nilo.Alaíde Costa - Cantoras donas de muita técnica, se põem a técnica à frente do canto, costumam soar parecidas - e raramente são agradáveis de se ouvir. Não acontece isso com Nana Caymmi, ou com Alaíde Costa, duas das vozes mais perfeitas de todos os tempos. Elas não poderiam ser mais diferentes: o que tem Nana de arrebatada, tem Alaíde de contida; a exuberância daquela é o oposto quase perfeito do preciosismo delicado desta.Parecidas são porque cantam músicas tristes. Pois o produtor Hermínio Bello de Carvalho (é uma velha parceira: Alaíde gravou, na década passada, um disco só com músicas dele) teve uma idéia original: fazer um disco com músicas de carnaval. Cantadas por Alaíde Costa.É que, percebeu Hermínio, são, no fundo, canções de amor - e quase sempre de perda amorosa, como explica no texto da contracapa: "Despudoradamente românticas, porém camufladas em confetes e serpentinas, velhas músicas carnavalescas rimavam amor e dor" - perceba-se a citação de Monsueto Menezes - "com a maior desfaçatez." Nasceu, assim, Rasguei a Minha Fantasia (Jam Music).A citação de Monsueto é extraída do samba Mora na Filosofia, parceria com Arnaldo Passos, que ela mesma já havia gravado, a duas vozes, com Milton Nascimento, no primeiro volume do Clube da Esquina, início dos anos 70. Dedicado a Fauzi Arap e com belíssimo trabalho gráfico assinado por Marcílio Godói, Rasguei a Minha Fantasia tem arranjos elaborados pelo pianista Gilson Peranzzetta e pelo violonista João de Aquino. Conta, nos créditos, com a nata da nata dos instrumentistas: além dos arranjadores, o contrabaixista Jorge Hélder, o bandolinista Pedro Amorim, o trombonista Sérgio de Jesus, o saxofonista alto Mauro Senize, o flautista Ricardo Pontes; ainda há o ganzá e a cuíca de Ovídio Brito, o tamborim e o repique de anel de Marcelinho Moreira - para falar de alguns. A suntuosa faixa instrumental de abertura, cordas lideradas por Bernardo Bessler, traz de volta um Chico Buarque dos anos 60, com Sonho de um Carnaval ("Carnaval, desengano/ Deixei a dor em casa me esperando"). Daí para a frente, a elegantíssima Alaíde resgata e redimensiona belezas como Mal-me-Quer (Newton Teixeira e Cristóvão de Alencar), Se a Lua Contasse (Custódio Mesquita), Não me Diga Adeus (Paquito, Luiz Soberano e João Correia da Silva), Batente (Almirante), Adeus Batucada (Silval Silva), Rosa Maria (Aníbal Silva e Eden Silva), Falam de Mim (Noel Rosa, Aníbal e Eden Silva) e outras mais.A música que dá título ao disco é uma marcha de Lamartine Babo composta em 1935 e gravada por Mário Reis, aqui tratada com lenta solenidade. Bravo.Dona Ivone Lara - Dona Ivone Lara é a maior melodista da história do samba. Délcio Carvalho, o mais habitual de seus parceiros, conta que fez Sonho Meu usando a introdução - a introdução! - de uma outra música da grande dama. Dona Ivone iniciou-se no samba ainda menina, mas profissional, mesmo, só foi ser depois dos 50 anos. Gravou alguns discos preciosos e caiu no ostracismo a que a indústria fonográfica relegou, a partir dos anos 80, os criadores de qualidade.Tanto que, nos anos 90, a única chance concedida a Done Ivone foi um daqueles "tributos" em que se juntam cantores de outras áreas para "homenagens" descabidas, coleções de sucessos descaracterizados por intérpretes de pouca afinidade com a obra em pauta. Bom, a pequena gravadora Natasha Records resolveu pôr algumas coisas no lugar, lançando um disco de Dona Ivone com Dona Ivone, e com músicas novas de Dona Ivone.Chama-se, o CD, Nasci pra Sonhar e Cantar. Traz quatro regravações e dez canções inéditas. As regravações são Nasci pra Sonhar e Cantar, um samba lento com letra (como sempre) inspirada de Délcio Carvalho; Tendência, parceria com letra de Jorge Aragão; as "histórias de avós e tias, contos de família, cantos afro-brasileiros" - como salienta Leci Brandão no texto de apresentação do disco - Axé de Ianga e Sereia Guiomar, a primeira só dela, a segunda novamente com Délcio Carvalho.O disco tem arranjos e regências de João de Aquino, um violonista fabuloso, um nome a quem, por sinal, o mundo disco está devendo registros, e produção de outro nome importante do samba, Paulo César Figueiredo. É importante falar deles porque são gente do meio, íntimas da obra de que estão tratando e a que deram acabamento industrial, com inteligência e respeito. E isso faz toda a diferença.O disco começa com a inédita Deus Está te Castigando só de Dona Ivone: "Não vem atravessar o caminho, não/ Vê que eu quero ficar sozinho" - aquela mágica do samba que canta dores em tom maior e com ritmo marcado. A faixa reúne, acompanhando a cantora, o melhor do melhor do samba - João de Aquino, Carlinhos Sete Cordas, Gordinho, Ubirany, Trambique, Marcos Esguleba. De certa forma, são todos eles filhos musicais de Dona Ivone.Como são todos filhos musicais de Nelson Sargento, parceiro dela em Nas Asas da Canção. É o encontro da grande dama do Império Serrano e do mangueirense histórico: "Vou viajar nas asas da canção/ Até encontrar inspiração/ Pra compor um sublime poeta de amor/ Quero reunir as mais lindas notas musicais/ Pra fazer feliz meu coração/ Que já sofreu demais" - pois é. E tudo mais são pérolas. Se há disco indispensável, é esse. Gal Costa - Desde O Sorriso do Gato de Alice, há coisa de quase dez anos, Gal Costa não faz um disco à altura de seu talento, digno da beleza de sua voz. Ela agora lança De Tantos Amores (BMG). Um disco que se apresenta como temático: coleção de canções de amor, orquestradas por Wagner Tiso.Naturalmente, Gal Costa teria cacife para fazer um belíssimo disco de canções amorosas. E escolheu para o repertório algumas belíssimas - como a que abre o disco, Outra Vez, de Isolda, sucesso eterno de Roberto Carlos. Um segredo da canção de Isolda é sua aparente simplicidade, seu discurso - musical e poético - direto, sem firulas. Roberto a gravou de forma contida, com mínimo de arranjo. Bem ao contrário do que ocorre aqui, onde o resultado é tolo.Sim, Wagner Tiso é um grande arranjador, como Gal é uma grande canora. Mas - para falar um pouco mais sobre Outra Vez, que de certa forma sintetiza o disco - Gal tenta emprestar à canção lamentosa, queixosa, um tom dramático que ela não tem; Wagner quer emprestar-lhe uma solenidade que melodia e harmonia não acolhem.Coisa semelhante, no entanto menos grave, acontece com a moda seresteira A Última Estrofe, de Cândido das Neves, com desmedida quantidade de cordas (violões, harpas, bandolins, cavaquinhos, violas caipiras, contrabaixo) dedilhadas ou palhetadas e ainda o acordeão de Wagner. E veja-se que o time é de grandes músicos: Henrique Cazes, José Paulo Becker, Cristina Braga. O erro não está nos músicos, mas no conceito.De repente, tudo muda: metais anunciam Que Pena, de Jorge Ben (Jor) em levada de reggae que de repente vira samba de pandeiro com direito a firulas de sopros e final pesado com metais em acorde grave.É impossível que regravações não sejam comparadas com as originais - e o intérprete que se arrisca na missão (é arriscada pois não?) precisa dar cara nova ao que escolheu como desafio. E Gal Costa não consegue isso, em De Tantos Amores. Já conseguiu, em outros tempos. Basta lembrar de Índia.Geraldo Carneiro fez letra em portugues para Sophisticated Lady, clássico de Duke Ellington que batizado, ao pé da letra, como Dama Sofisticada. É uma das melhores faixas do disco. O arranjo é um pouco mais contido e empresta à canção um tempo de bossa nova. Mas lá estão os metais, pesando no encerramento.Gal já havia gravado Folhetim, de Chico Buarque - muito melhor do que agora. Contigo Aprendi, de Armando Manzanero (letra em português também de Geraldo Carneiro) é um pouco melhor. Mas, no todo, o disco é menor do que Gal Costa, do que Wagner Tiso, do que as canções que o integram. Por algum motivo, a produção é de Wagner e de Daniel Filho, que não é do ramo. Talvez...

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.