NILTON FUKUDA / ESTADÃO
NILTON FUKUDA / ESTADÃO

Quarteto fantástico revê a bossa nova

Marcos Valle, Roberto Menescal, Carlos Lyra e João Donato se juntam para encontro inédito em São Paulo

Julio Maria, Impresso

11 Maio 2018 | 17h01

A imagem do banquinho e violão pode ser bem reducionista quando se decodifica o material genético de algumas células que formaram o que o mundo conheceu como bossa nova. Nenhum desses aqui, aliás, gostava muito da ideia do banquinho. Menescal se chateava. Imagine duas horas sentado em um assento de madeira com o violão cheio de harmonias sofisticadas sendo equilibrado no colo. João Donato, minimalista nas melodias, e Marcos Valle, de uma geração posterior com mais azeite de dendê no suingue, se acomodavam em bancos mais confortáveis de pianos e teclados. Outro deles, Carlos Lyra e sua visão de longo alcance, transpassando o próprio conceito da bossa nova, não caberia em um banquinho.

Os quatro se juntam para rever um momento de dez anos, quando lançaram o álbum Os Bossa Nova, e aproveitar para reverenciar o gênero da zona sul carioca, tomando como origem o compacto simples de João Gilberto lançado em agosto de 1958, com Chega de Saudade e Bim Bom. Os shows serão desta sexta, 11, a domingo, 13, no Sesc Pinheiros. “Já definimos o repertório entre clássicos e novas, e mesmo assim teremos uma boa dose de improvisações. Vamos tocar, certamente, as mais conhecidas: Minha Namorada, Samba de Verão, Até Quem Sabe, Barquinho, e algumas saídas do forno”, diz Menescal.

Aos 80 anos, ele ainda se curva ao falar dos amigos. “Donato e Lyra foram meus grandes mestres no início, e Valle foi meu aluno. Vai ser um grande prazer tocar com todos, coisa que não tínhamos conseguido até agora.”

Sessenta anos depois de lançada, como anda a saúde da bossa? Menescal não vê crise. “Acho que a bossa nunca esteve tão bem. Estamos com a maior dificuldade em programar esses encontro por vários lugares no Brasil porque nossas agendas nunca estiveram tão cheias! Não somos e nunca fomos artistas popularescos, mas temos um público muito fiel e seguidor de nossa música, por isso estamos aí 60 anos depois.” Carlos Lyra tem uma visão mais crítica. Para ele, o poder de comunicação da bossa nova com o público está relacionado diretamente com a formação desse público. Quanto maior o nível de investimento em educação de um país, ele percebe, maior a base de seguidores do gênero. “A bossa nova foi feita por pessoas que tinham cultura e, com ela, várias influências musicais clássicas, do jazz, da música francesa, do bolero mexicano e dos standards americanos. Quem consome e investe em cultura é a classe média. Então, essa classe, seja ela de que país fosse, apreciava nossa música por beber da mesma fonte e assim poder reconhecer nela as influências distintas. Por isso a capacidade de se comunicar horizontalmente com o mundo todo e a dificuldade de se comunicar verticalmente com o povo brasileiro.”

A situação de João Gilberto, retirado de sua casa no Leblon com dívidas que chegam a R$ 9 milhões, é um assunto incontornável quando se fala com ambos. “Calamitosa, e sem elementos para saber a realidade total dessa situação, pois as notícias são várias e diferentes”, diz Menescal. Carlos Lyra diz: “João sempre foi assim, de altos e baixos. Muito despojado, distribuindo o que tinha e sempre na dele. Minha geração nunca foi muito de se preocupar com o futuro e sim de viver o presente.” No mais, prefere não se arriscar: “Não posso falar do que desconheço. Apenas torcer para que ele esteja bem e feliz do jeito dele”.

Outra discussão a se fazer nos 60 anos da bossa nova. Se a Argentina monetizou a figura de Carlos Gardel e fez do tango seu artigo de luxo, de barraquinhas de souvenirs a casas de shows de Buenos Aires, e se Cuba fez de sua música uma porta de entrada para turistas o ano todo, porque a bossa nova não ganhou o mesmo peso no Rio de Janeiro. Além de não ser trabalhada como atrativo material, não há casas de show que toquem bossa na cidade. “O Rio de Janeiro é um capítulo à parte. Aqui nasceu a bossa nova e aqui ela deveria ser forte e contar com políticas públicas que possibilitassem que fosse explorada turisticamente e rendesse lucro à cidade”, diz Lyra.

E postura política? Havia carecido o movimento de um posicionamento mais forte? “Na década de 50, o Brasil tinha uma situação tão estável que poucos falavam ou pensavam em política.” Lyra diz que ele e seus amigos do Centro Popular de Cultura (CPC) queriam “melhorar o que já era bom”. “Sonhávamos com uma sociedade mais igualitária, num tempo em que a educação, por exemplo, era para todos. Ninguém previa o futuro negro que viria logo na sequência do célebre Concerto do Carnegie Hall (Nova York, 1962) que, ao mesmo tempo que levava nossa música para o mundo, também levava os compositores a um exílio voluntário por não haver mais clima para criação.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.