Quarteto de Leipzig executa obra sobre o Holocausto

Desde que foram criados, os quartetos de cordas jamais deixaram a mente dos compositores. Passaram por Haydn, Mozart, Beethoven, Schubert, Brahms e, mais tarde, chegaram ao século 20, com Shostakovich, Villa-Lobos e uma série de outros autores. "É difícil pensar em uma evolução dos quartetos", diz o violoncelista Mathias Moosdorf, do Quarteto de Leipzig. "Mas é certo dizer que cada autor contribuiu à sua maneira para o formato." E, no século 20, lugar de destaque tem "Different Trains", do americano Steve Reich, que Moosdorf e seus colegas interpretam nesta quinta-feira no primeiro de dois concertos que fazem na série Concertos Itaú Personnalité. "Different Trains" foi escrita no final dos anos 80. Seu tema é o Holocausto e seu nome vem das memórias de infância do compositor. Quem explica é o próprio Reich. "Quando era criança, nos anos 40, meus pais se separaram. Minha mãe foi para Nova York, meu pai ficou em Los Angeles. Como a minha custódia era dividida, viajei muito de trem naquela década entre as duas cidades. As viagens eram excitantes, românticas. Mas hoje, olho para trás e penso que, se estivesse na Europa naquela época, como judeu, teria viajado em trens muito diferentes", diz ele, fazendo alusão aos trens que levavam judeus a campos de concentração. O Holocausto inspirou muitas obras. O que difere a de Steve Reich é a proposta. A obra prevê não apenas um quarteto de cordas mas também a presença de um material sonoro pré-gravado, que dialoga com os músicos. São vozes, depoimentos de sobreviventes do nazismo, alusões àquela época, barulho de trens. "A idéia básica é que um material sonoro cuidadosamente escolhido possa gerar o conteúdo melódico da peça, tendo em vista também a introdução de elementos do teatro musical na literatura para quarteto de cordas", diz Reich. Para Moosdorf, este é um dos elementos fundamentais para a compreensão de "Different Trains". "Toda a obra de Reich está marcada por experimentações com as formas tradicionais", diz o violoncelista. "Aqui, ele aplica a experimentação ao quarteto. Para nós, o que impressiona é o equilíbrio entre a emoção e o conteúdo intelectual, já que há uma proposta estética bem definida, ele está procurando contar uma história por meio da música, criando para isso uma dramaturgia toda especial." O programa dos concertos do Quarteto de Leipzig serão completados por obras de Schumann, Beethoven, Schubert e Brahms. Quarteto de Leipzig. Espaço Cultural. Av. Dr. Chucri Zaidan, 246, (11) 3081-1911. Amanhã, sexta-feira e quarta, 21 h. R$ 45

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