Alexandre Rezende
Alexandre Rezende

Quarteto de cordas grava disco apenas com obras de compositoras

‘Entre brumas e fúrias’, do Quarteto Boulanger, traz peças de cinco autoras brasileiras

João Luiz Sampaio, Especial para o Estadão

21 de abril de 2022 | 20h00

A categoria de música clássica dificilmente está entre as mais faladas do Grammy. Mas neste ano algo de diferente aconteceu. O CD do ano foi o álbum em que a Orquestra da Filadélfia registrou sinfonias da compositora norte-americana Florence Price (1887-1953). E a melhor coletânea, Women Warriors, criação coletiva cujo objetivo era abrir espaço a compositoras e inspirar jovens artistas a conhecer o trabalho de grandes mulheres.

Em um mundo masculinizado como o dos compositores clássicos, as duas vitórias não deixam de ser um recado. E se inserem em um movimento recente, disposto a discutir um dos muito elefantes na sala da música clássica: a disparidade de genêro, que durante muito tempo foi evitada como tema.

Os números são claros, como mostra pesquisa feita pela Fundação Donne, da Inglaterra, criada pela soprano brasileira Gabriella Di Laccio. Das 14.747 obras musicais programadas por cem orquestras de 27 países em 2020 e 2021, apenas 747 (5%) foram escritas por mulheres. No Brasil, estamos bem abaixo da média global: apenas 0,44% do repertório foi de peças de compositoras.

Uma das conclusões da pesquisa é a de que não se muda esse quadro apenas com boa vontade: é preciso criar projetos e ferramentas que abram de fato espaço para uma reflexão sobre o problema e sobre modos concretos de enfrentá-lo. Um deles, atuar de maneira ativa na busca e na interpretação do repertório.

No Brasil, um novo marco importante é o lançamento do disco Entre brumas e fúrias, do Quarteto Boulanger. O grupo é formado por Jovana Trifunovic (violino), Flávia Motta (viola), Lina Radovanovic (violoncelo) e Ayumi Shigeta (piano), todas da Filarmônica de Minas Gerais. O nome do grupo homenageia uma das mais importantes professoras do século XX, a francesa Nadia Boulanger. E, no disco, apenas obras de compositoras: Marisa Rezende, Valéria Bonafé, Silvia de Lucca, Tatiana Catanzaro, Maria Helena Rosas Fernandes.

“É um álbum de música de câmara contemporânea feita e interpretada por mulheres”, elas explicam, ressaltando que, “atentas às brumas que envolvem o futuro e às fúrias decorrentes da banalização da vida neste século XXI”, encomendaram cinco peças a cinco compositoras, com idades entre 37 e 88 anos. Juntas, esperam, tornar “visíveis e audíveis suas visões musicais e suas percepções sobre a época em que vivemos, buscando contribuir para a descoberta de outras nuances, de outras formas de interpretação da vida e da arte”.

O nome do disco vem de um poema da atriz Denise Fraga: “A gente precisa usar a nossa indignação e a nossa fúria como combustível. / Mas a gente precisa dar uma capa de afeto a ela. /Água no meio das pedras é o que a gente tem que ser, eu acho. / A força da água no meio das pedras ./ É esse o antídoto. / E alegria! Criatividade para a alegria”.

O álbum começa com Pequenos Gestos, que na música de Marisa Rezende se traduzem em uma conversa a quatro vozes na qual o ponto de chegada é o entendimento. Mãe-Maré, de Valéria Bonafé, é uma reflexão sobre a vida, inspirada em sua experiência de pós-parto. Tatiana Catanzaro inspira-se na poesia de Maya Angelou sobre Malcolm X e Martin Luther King para criar Caged Bird. Silvia de Lucca assina Carm’in Versos, sobre versos e inversos em nossa percepção de mundo. E Celebração “nos convida a um rito indígena de exaltação”, com a celebração da vida como oposição à destruição da natureza.

Pelos temas, pelas múltiplas estéticas e pela interpretação, o disco se faz a partir diferentes e pessoais olhares - olhares que recriam o mundo à nossa volta, lembrando que é mesmo de nuances, de diversidade e de múltiplas sensibilidades que ele é feito.

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