Reprodução/The Beatles
Reprodução/The Beatles

Quando vi os Beatles ao vivo, não gritei. Está na hora de levar a sério as fãs do grupo

Em 14 de agosto de 1965, quando estava com 16 anos de idade, vi os Beatles ao vivo no estúdio de Ed Sullivan

Sibbie O’Sullivan, The Washington Post

01 de junho de 2017 | 16h02

Em 14 de agosto de 1965, quando estava com 16 anos de idade, vi os Beatles ao vivo no estúdio de Ed Sullivan. Quando contava esta história para mulheres, a resposta vinha com um enorme sorriso, algum calafrio e um certo frenesi : “Mas que felizarda!”.

E no caso dos homens, no geral eles perguntavam: “E então, gritou muito?”

A pergunta foi feita tantas vezes que eu deveria estampar a frase NÃO, NUNCA GRITEI em uma camiseta e usá-la orgulhosamente em dois de junho, 50º aniversário do Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, o primeiro álbum gravado pelo grupo depois que abandonou suas tournées. E por que o fez? Para escapar das fãs gritonas.

A imagem das adolescentes gritando e chorando nunca foi adequadamente explicada. Mas descartá-la é impossível porque realmente milhares de garotas gritavam. Mesmo a falecida Ellen Willis, que escreveu artigos inteligentes sobre a música dos anos 60, admitiu que gritava durante os concertos de rock, mas explicava modestamente que era apenas para não ficar muito em evidência.

Não surpreende que muitos escritores não têm nenhuma dificuldade para proclamar o que esse grito feminino significa. No respeitado livro de Philip Norman, Shout! The Beatles in Their Generation, um psicólogo sugere que as jovens gritando “estão de modo subconsciente se preparando para a maternidade. Seus gritos enlouquecidos são uma espécie de ensaio para o momento de dar à luz”. Só podemos suspirar ao ler frases como esta. A teoria de Barbara Ehrenreich é mais palatável. Para ela, o grito “era uma forma, mesmo que inconsciente, de protesto contra a repressão sexual, o rígido princípio hipócrita e injusto predominante na cultura das adolescentes. Foi a primeira e mais dramática manifestação da revolução sexual feminina”. Esta tese pelo menos confere às adolescentes gritonas capacidade de agir e força.

As garotas podem ter criado a Beatlemania, mas os escritores sempre dominaram o jornalismo e os estudos relacionados aos Beatles. Não conheço nenhum livro escrito por uma mulher que faça uma análise séria das músicas do grupo. Nenhuma autora aparece em qualquer das listas dos 10 livros fundamentais sobre os Beatles, exceto uma que inclui Daddy Come Home de Pauline Lennon a (muito jovem) primeira mulher do pai de John, Freddy. E que faz tanto sentido quanto incluir John Lennon and The Bronte Connection de Jewelle St. James, livro no qual ele afirma que Lennon é a reencarnação de Branwell Bronté, o perturbado irmão de Emily e Charlotte. Se um livro de uma esposa deve fazer parte dessas listas é John, de Cynthia Lennon, um relato franco, mas agridoce, sobre amar um ícone da música.

Quando os jornalistas perderam o interesse nas fãs que choravam ao ver seus ídolos e prestaram mais atenção na sofisticação das composições do grupo, a conversa ficou bem mais intelectual, embora às vezes agressiva. (Mas existe diferença entre críticos debatendo energicamente qual a melhor música, Revolver ou Sgt. Pepper, e duas adolescentes discutindo porque uma adora Paul e a outra ama John? Em ambos os casos é preciso que exista um conhecimento profundo, tino e um pouco de histeria).

Diante da política sexual predominante nos anos 60, contudo, não surpreende que as críticas fossem feitas por homens. Richard Goldstein, do New York Times, criticou Sgt. Pepper como se tivesse o poder de acabar com a civilização como a conhecemos, qualificando o álbum de fraudulento, afirmação que levou Tom Phillips, quatro dias depois, no Village Voice, a defender o trabalho do grupo como “o álbum mais ambicioso e bem sucedido já lançado e o evento artístico mais importante de 1967”. Um mês depois, também no Village Voice, Goldstein fez uma defesa menos febril e mais detalhada da sua crítica original. Em setembro, Christopher Porterfield, em um longo artigo no Time afirmou como Sgt. Pepper havia levado os Beatles para um “plano artístico mais alto”. Finalmente em dezembro, no Esquire, Robert Christgau elogiou o álbum por dar o que pensar e pela atenção dos Beatles à linguagem.

E críticos mais velhos, ministros, psicólogos e elites intelectuais opinaram sobre o significado do álbum e a influência da banda. O ensaio de 1967, Learning from the Beatles, do crítico literário Richard Poirier, foi publicado na Partisan Review. Leonard Bernstein chegou a associar as canções dos Beatles a precedentes clássicos.

Somente nos anos 80 informações cruciais sobre a criação de Sgt. Pepper foram disponibilizadas para o público em geral. Em 1988 The Complete Beatles Recording Sessions, de Mark Lewisohn, catalogou as complexidades técnicas das músicas e a ordem em que foram gravadas, informações que hoje são fáceis de encontrar. Embora considerado muitas vezes um livro de referência, esta descrição das sessões é como observar uma luta de boxe num campeonato em câmara lenta. Felizmente Revolution in the Head, de Ian MacDonald (1994) transforma a documentação de Lewisohn numa narrativa empolgante e vigorosa ao colocar as músicas num contexto cultural.

O livro The Beatles with Lacan: Rock’n’ Roll as Requiem for the Modern Age, de Henry W. Sullivan (1995), tem sido considerado “a primeira tentativa real de teorizar sobre a obra dos Beatles. Certamente não queremos uma segunda! Para aqueles interessados em ensaios acadêmicos sobre a banda o melhor é começar com a coleção de 2006, Reading the Beatles: Cultural Studies, Literary Criticism and the Fab Four, editado por Kenneth Womack e Todd F. Davis. Desde a década de 80 tais compilações com freqüência incluem ensaios escritos por mulheres. Mas para uma visão radicalmente pessoal, mas esclarecedora, da banda, tente o trabalho de Devin McKinney, Magic Circles: The Beatles in Dream and History.

Para comemorar o 50º aniversário de Sgt. Pepper, Liverpool, cidade natal dos Beatles, preparou uma comemoração de três semanas, reunindo artistas que automaticamente associamos com o grupo, como o coreógrafo Mark Morris e a pintora Judy Chicago. (Paul e Ringo ainda não decidiram participar).

Se viajar a Liverpool está fora de questão, ler sobre Sgt. Pepper também pode entusiasmar, porque apesar da sua fama, o álbum ainda causa dissensões em meio aos críticos e as batalhas interpretativas ainda são ferozes.

Sgt. Pepper é meu álbum favorito? Não tenho um álbum predileto, mas músicas favoritas de cada um deles. No caso de Sgt. Pepper, são A Day in the Life e Fixing a Hole.

E embora nunca tenha gritado, mesmo particularmente, seguramente eu chorava e ainda hoje sou capaz de ouvir, sem vergonha, uma faixa 25 vezes sucessivamente. Quando a música muda sua vida, por que deixar de ouvi-la?

Tradução de Terezinha Martino

Sibbie O’ Sullivan foi professora no Honors College, Universidade de Maryland e recentemente concluiu seu livro de memórias sobre como os Beatles influenciaram sua vida

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