Quando o samba passa longe da avenida

Em 1959, o visionário Jackson do Pandeiro desafiava, no clássico Chiclete Com Banana, os Estados Unidos a caírem no samba. "Quero ver o Tio Sam, de frigideira, numa batucada brasileira", diziam seus versos. Morto em 1982, ele não pôde ver, mais tarde, como alguns DJs norte-americanos e europeus se apropriaram dos elementos percussivos brasileiros como combustível para as batidas eletrônicas, a partir dos anos 90. Dando continuidade à troca de figurinhas musicais, agora o projeto brasileiro Sambatronik parte da house music e do hip hop para incrementar o samba. Conglomerado de quase 30 integrantes, o núcleo se apresenta hoje com uma formação reduzida, batizada como Tribal House Company, na boate Lizard Lounge - uma boa opção para esta terça de carnaval. A figura central dessa apresentação é o percussionista Dinho Nascimento, que empresta seu conhecimento musical para dar maior pulsação ao som que sai dos toca-discos dos DJs Jac Junior e Mr. Gil. "O Dinho tinha interesse em se aventurar pela onda eletrônica e, depois de assistir a um dos nossos ensaios, ele quis entrar no projeto", explica Vinícius Neves, de 27 anos, um dos produtores. "Quando isso aconteceu, os músicos e DJs já estavam em sintonia e não tínhamos como encaixá-lo. Mas, para não desperdiçar seu talento, criamos um subproduto do Sambatronik para apresentações em clubes - onde não teríamos espaço para levar o grupo inteiro." Conhecido por seu experimentalismo com instrumentos como berimbau e a kalimba, Dinho Nascimento levará para o palco do Lizard Lounge seus três filhos - Gabriel, Aloah e João -, que colaboram para dar maior volume à massa percussiva. Completa a formação que se apresenta hoje a rapper Negra Li (colaboradora do grupo RZO), que mostrará um punhado de rimas para acrescentar uma dose de hip hop à mistura sonora. A apresentação de hoje, no entanto, é somente um aperitivo para o banquete que o Sambatronik promete oferecer ao público ao longo do ano. Sua formação completa com a batuta de dois ícones do samba paulista, Oswaldinho da Cuíca (ex-integrante do Demônios da Garoa) e o mestre do cavaquinho Odair Menezes (que já acompanhou Zeca Pagodinho, Beth Carvalho, Paulinho da Viola e Elza Soares, entre outros). Por intermédio dos dois sambistas, se agregaram ao projeto cinco ritmistas de escolas de samba como Vai-Vai e Camisa Verde e Branco. Do hip hop, ingressaram no projeto (além de Negra Li), o DJ Cia e o rapper Sandrão - ambos do grupo RZO. Atentos à importância do quesito visual, os produtores do núcleo convocaram um time de sete mulatas, lideradas pela musa Ivy Mesquita, rainha do carnaval paulista em 2001. A simples reunião de tantos talentos não dispensou a necessidade de muito ensaio e, para encontrar um ponto de intersecção para as diversas linguagens, o Sambatronik levou mais tempo que seus idealizadores imaginaram. "Foi mais de um ano com pelo menos um ensaio por semana", garante Vinícius. "No começo foi muito difícil. Os DJs e os músicos trocaram muitas idéias até encontrar, nos discos, as batidas que se encaixariam com a idéia. O entrosamento apareceu aos poucos e, atualmente, temos um repertório bem ensaiado para os shows." O perfeccionismo na elaboração da sonoridade despertou o interesse de algumas gravadoras e o núcleo pretende lançar um disco ainda este semestre - que pode trazer participações especiais do rapper Xis e da cantora Elza Soares. Sambatronik apresenta Tribal House Company - Hoje, no Lizard Lounge (R. Lourenço Marques, 265). Preços: R$ 10 para mulheres e R$ 20 para homens.

Agencia Estado,

04 de março de 2003 | 15h35

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